Bangers Open Air 2026 - Domingo

Aprendendo com seus erros e fortalecendo ainda mais seus acertos, a edição mostrou que a nova gestão sabe para onde quer ir e está fazendo isso de forma louvável.

Texto por: Rato de Show, Heitor Lamana e Eduardo Domingues

Fotos por: @MarcosHermes

Agradecimentos: Honor Sounds, Bangers Open Air e Agência Taga


Em mais um dia na mistura entre calor, euforia e talvez o início de uma pequena tristeza, de quem não quer dar “tchau”, o segundo dia de Bangers Open Air chegou no domingo, 25 de abril, onde o festival logo de cara se fez presente, mostrando ter aprendido com as dificuldades do dia anterior e dando mais dinamismo e celeridade ao processo de admissão da grande massa de camisas pretas que se colocava pelo lado de fora.


O resultado?


Uma grande massa a postos com seus copos cheios em um aguardo para o que ainda seria um longo dia de apresentações, corridas de um palco para o outro e um gran finale para lá de emocionante e simbólico.


Acompanhe nossa cobertura, onde, assim como no dia anterior, é importante ressaltar que não conseguimos cobrir tudo, reflexo da grande gama de atividades, shows e lugares para se estar ao longo do festival, onde nossa dinâmica narrativa se dará na sequência de shows vistos ao longo do dia, divididos entre os quatro palcos existentes do Bangers Open Air — Hot, Ice, Sun e Waves. No título de cada resenha, você verá o palco onde ocorreu o show, assim como a nacionalidade e gênero da banda em questão, assim como o colaborador que esteve presente cobrindo o show.


Clique aqui para acessar também nossa cobertura do sábado.


Se preferir outro formato, você pode também acompanhar a nossa live no canal Porque!Metal sobre como foi o evento como um todo abaixo.

SUN STAGE: Visions of Atlantis (Symphonic Power Metal/Áustria)


Texto por Rato de Show


Já adianto logo de início que a apresentação do Visions of Atlantis foi surpreendente em vários níveis e dimensões. A começar pelo fato de uma banda que, longe de ser nova de estrada, mas que até então aparentemente não havia penetrado por completo no mercado brasileiro — talvez reflexo do nicho —, se provou uma verdadeira força pela quantidade massiva de cabeças que se colocavam nas fileiras ao longo do palco Sun para “andar na prancha”.


Grande maioria caracterizada, se diga de passagem, como verdadeiros cães sarnentos dos mares, prontos para receber a tripulação composta pelo capitão Thomas Caser (bateria), Herbert Glos (baixo), Christian Douscha, o imediato Michele Guaitioli (vocal) e a princesa pirata Clémentine Delauney.


Energético, performático, atmosférico e completamente divertido, o show do VoA não é “apenas” um show, mas uma experiência, daquelas que você sai transformado após a performance. Se concentrando principalmente em seus dois últimos álbuns, Pirates (2022) e Pirates II - Armada (2024), reflexo da consolidação do atual bando, é extremamente interessante ver uma banda ser celebrada, acompanhada e cantada a plenos pulmões em músicas mais recentes do acervo do que o saudosismo que normalmente se vê por aí (vale lembrar que a banda tem outras sete obras, totalizando nove álbuns).


Chegaram com os dois pés na porta e pistolas em mãos com "Master the Hurricane", passando por "Monsters e Clocks", e bastou somente este gostinho para ter uma boa percepção do estilo de interação da banda: melodias fáceis, chicletes, que te fazem pular, cantar junto na segunda vez mesmo sem conhecer e daquelas que te galvanizam, lembrando bastante uma energia meio à la Powerwolf dos mares.


O duo entre Clémentine e Michele era simplesmente divertido, entre o lado sensual, provocativo e potente da dama e o lado rufião, valente e carismático do vagabundo. Sempre interagindo entre si, entre seus companheiros, mas principalmente com a plateia, o tempo todo. Fosse para provocar moshpits em músicas como "Hellfire" e "Armada", fosse para brincar com o público mais à distância na sombra para também entrarem na vibe do show, ou até comandar todos a se colocarem para agachar, pular e remar.


Uma verdadeira amostra de domínio também, ao saber conduzir bem não só a performance, como os problemas técnicos, tornando um momento de frustração logo no início como uma conversa cômica, despojada e que parecia fazer parte do todo.


Certamente uma banda que deveria vir mais vezes ao Brasil. Soube que suas vindas anteriores foram um pouco mais vazias, mas certamente a insistência valerá a pena, pois daqui em diante pressinto apenas casas cheias.


Setlist

  1. Master the Hurricane
  2. Monsters
  3. Clocks
  4. Tonight I’m Alive
  5. Legion of the Seas
  6. Heroes of the Dawn
  7. Hellfire
  8. Pirates Will Return
  9. Armada
  10. Melancholy Angel
visions of atlantis no bangers open air

ICE STAGE: Project46 (Metalcore/Brasil)


Texto por Heitor Lamana

Um dos grandes avanços dessa edição do Bangers Open Air foi, sem sombra de dúvidas, a maior presença e representatividade das bandas nacionais pelos quatro palcos do festival, mostrando toda a força e qualidade da nossa cena, do hard rock ao metal extremo. Comprovando essa afirmação, o Project46 abriu o segundo dia de evento fazendo uma apresentação para além de espetacular, com todo seu peso e impacto característicos.


Se tem uma banda que sabe manter a constância entre o palco e o estúdio, essa banda é o Project46. Sem abandonar um milésimo sequer da agressividade construída na cabine de gravação, os paulistas abriram seu setlist com "Dor" — 9ª faixa do álbum Doa a Quem Doer, de 2011. A atual formação da banda conta com Caio MacBeserra nos vocais, Vinicius Castellari na guitarra, Baffo Neto no baixo e Japa na bateria.


Peso e brutalidade são palavras que acertam o sentido, mas que falham no grau de intensidade quando se fala da banda — se tornando eufemismos. O show dos caras é bestial, uma sucessão de porradas sem qualquer tipo de moleza, a destacar-se pelo som monstruoso da bateria de Japa — que aparenta estar prestes a se desmontar em cada batida. Faltam palavras para descrever a violência feita ali no palco — uma hecatombe que logo cedo mexeu com os ânimos do público. Assim, seguiram seu setlist na mesma pegada com faixas como "Impunidade", "Violência Gratuita" e o panegírico "4six", exaltando a própria banda e os fãs.


Um grande mérito do Project46 é a forma como sabem articular seus versos dentro de sua proposta, sem perder a credulidade ou se tornar incompreensível em meio ao gutural. Falando de forma dura sobre temas como a política nacional, as vicissitudes da vida e dilemas sociais, a dicção de Caio chega a ser sobre-humana — sustentando sua mensagem com clareza e velocidade, sem perder em nada sua agressividade.


Desse modo, terminaram seu show com "Erro +55", o hino motivacional "Pode Pá" e "Acorda pra Vida". Ao longo de sua 1 hora de apresentação, o Project46 deixou evidente que a cena brasileira não perde em nada para a internacional e, pelo contrário, só tem a ganhar quando abre mais espaço para aqueles que aqui estão — os mais merecedores.


Setlist

  1. Dor
  2. Impunidade
  3. Violência gratuita
  4. 4six
  5. Rédeas
  6. Na vala
  7. Erro +55
  8. Pode pá
  9. Foda-se (Se depender de nós)
  10. Acorda pra vida
project46 no bangers open air

HOT STAGE: Primal Fear (Power Metal/Alemanha)


Texto por Rato de Show

Lenda do metal e um show de simpatia, ostentando sua brilhante careca, estava Ralf Scheepers em sua quinta apresentação do Primal Fear pelo Brasil na abertura do palco Hot. Tendo passado anteriormente por Curitiba, Nova Friburgo, Belo Horizonte e a Pré-Party do Bangers Open Air, é impossível não se contagiar com a energia e o alto astral de um nome do metal respeitado por todos e que com certeza caberia mais reconhecimento.


Abrindo com um pequeno gosto de “We Walk Without Fear” e já encabeçando “Destroyer” e “I Am the Primal Fear”, de seu mais recente disco, Domination (2025), junto ao time composto por Magnus Karlsson, André Hilgers, com Dirk Schlächter (Gamma Ray) assumindo os baixos no lugar de Mat Sinner, que se recupera de uma cirurgia, e a showstopper Thalia Bellazecca, que trouxe uma nova e poderosa dinâmica à banda desde sua inserção.


Esboçando sorrisos e alta performance, o Primal Fear deu um show de tradicionalismo embaixo do sol forte, com um Ralf atencioso, brincalhão e totalmente interativo e que, claro, como sempre, esboçando seu poderio vocal. Um cara visivelmente humilde, que sempre quando ovacionado faz o máximo para chamar a atenção não apenas para si, mas para a banda como um todo, me pareceu não precisar nem se esforçar para isso, já que aos gritos de “Primal Fear, Primal Fear”, a atenção estava muito bem distribuída para os integrantes, em especial Thalia, sempre muito no ponto no que tange os riffs marcantes e solos rápidos do catálogo da banda.


Utilizaram ainda muito bem a extensão de palco que já se fazia presente para o headliner do dia, servindo como uma ótima forma de se conectar ainda mais com o público presente. Fechando ainda com uma bordoada atrás da outra com “King of Madness”, “The End Is Near”, “Chainbreaker” e o hino “Metal Is Forever”, o Primal Fear fez uma estreia digna, ainda que em um horário talvez indigno para um titã do metal, que, como a música já bem diz e que se reflete muito com a sensação que foi tanto o show deles quanto o resto do dia, de que o metal é para sempre.


Setlist


  1. We Walk Without Fear
  2. Destroyer
  3. I Am the Primal Fear
  4. Nuclear Fire
  5. Seven Seals
  6. The Hunter
  7. King of Madness
  8. The End Is Near
  9. Chainbreaker
  10. Metal Is Forever
primal fear no bangers open air

SUN STAGE: Roy Khan (Melodic Power Metal/Noruega)


Texto por Rato de Show


Um nome que certamente dispensa quaisquer comentários, outro dono de uma bela careca, o norueguês Roy Khan retornou ao Brasil após sua estreia em nossas terras de seu projeto solo, onde revisita a grande era de seus tempos no Kamelot.


Munido de um time invejável e internacional, o músico contou com o Seven Spires como banda de apoio, somado ao guitarrista Caio Kehyayan (FireWing), Charles Soulz nos teclados e Fábio Caldeira e Juliana Rossi nos back vocals. Assim como o “efeito Visions of Atlantis”, tínhamos um palco Sun lotado dos apreciadores do melódico, prontos para deixarem derramar as diferentes sensações e emoções provocadas pelas músicas do Kamelot.


E assim foi, desde o início explosivo com “When the Lights Are Down” e “Soul Society”, do The Black Halo (2005), passando também por “Rule the World”, de Ghost Opera: The Second Coming (2007). Com seu visual parecendo um cenobita - como diria o Bruno do Porque!Metal - o cantor se projetava por entre as caixas de som com uma performance magnética, teatral e que sempre despontava em sua voz que parece como água: cristalina, fluida e que mata a sede de quem o escuta.


Mas o mais curioso no fim do dia era ver que, apesar de em tese ser um “show de um homem só”, toda a atmosfera, a intensidade e a palheta sonora do show eram alcançadas através do coletivo, através de uma “nova geração” que vem forte, faminta e com muito talento e que Roy sabiamente soube selecionar, onde as demais sete pessoas não ficavam para trás em relação ao cantor, entregando coesão e uma dinâmica bem divertida.


E digo sete porque justamente com “Center of the Universe”, “Forever” e “March of Mephisto”, entrava Adrienne Cowan formando um ótimo contraponto tanto a Roy quanto à própria Juliana, complementando a cozinha, fosse nos momentos de melodias ou nos potentes guturais.


Um show emocionante que foi um verdadeiro transportar para um passado que parece ainda se despontar para um interessante futuro neste início de carreira solo do cantor, os fãs saíram de alma lavada entre um show que musicalmente teve seus momentos de desafios — como a impressão do microfone de Caldeira um tanto quanto baixo, ou até a especial participação de Alexander Krull (Atrocity/Leave's Eye) também em “March of Mephisto”, que foi apagada assim como seu microfone —, mas que para um encontro “improvisado”, entre tantos artistas diferentes, trouxe um “quê” orgânico da mais alta autenticidade para dentro do festival.


Setlist


  1. When the Lights Are Down
  2. Soul Society
  3. Rule the World
  4. Center of the Universe (com Adrienne Cowan)
  5. The Haunting (Somewhere in Time)
  6. Memento Mori
  7. Forever (com Adrienne Cowan)
  8. Ghost Opera
  9. March of Mephisto (com Adrienne Cowan)
roy khan no bangers open air

PALCO ICE: Nevermore (Progressive Metal/Estados Unidos)


Texto por Rato de Show

Curioso pensar que talvez um dos nomes mais aguardados do Bangers como um todo fosse uma banda que se posicionava para tocar não eram nem 14h da tarde. E isso por uma série de questões.


Da abrupta saída de Jeff Loomis do Arch Enemy, nossos headliners da noite anterior, ao renascimento após 15 anos do Nevermore, uma pérola posta em hibernação cedo demais devido ao falecimento de seu vocalista Warrel Dane, o burburinho duplo com o anúncio do retorno e a confirmação no Bangers só não criou um duplex do QuintoAndar maior na cabeça dos fãs do que os meses que se sucederam sobre quem viria a ser o nome a assumir a difícil tarefa nas forças vocais.


Tempos depois, a figura imponente e cavernosa de Berzan Önen veio à tona, silenciando a todos não só pela intimidação de seu tamanho, mas pela potência, sutileza e delicadeza de sua técnica vocal. Repaginado, o Nevermore retornava às nossas terras também com Van Williams na bateria, Jeff na guitarra, como comentei, e os novatos Jack Cottai na guitarra e Semir Özerkan no baixo, para além também do vocalista.


Um set enxuto, longe de ser o suficiente para saciar a fome e gana dos fãs que há quinze anos aguardavam por esse momento, mas que definitivamente veio para apaziguar e selar quaisquer resquícios de dúvidas sobre a intensidade da apresentação e capacidade dessa reformulação que chegou com os dois pés na porta.


Ostentando uma camiseta do Brasil e com um carisma ímpar, contrário até à sua imponente fisionomia, Berzan era um show à parte de carisma, intensidade e conexão, quase como um elo espiritual que reconectava os fãs a uma época que havia sido dada como esquecida.


Passando por hinos retumbantes como “Narcosynthesis”, “The River Dragon Has Come” e “Born”, em um set que girou principalmente entre Dead Heart in a Dead World (2000) e This Godless Endeavor (2005), a divisão do coro entre o público e a banda não era de outro nome senão catártico. Entre o virtuosismo e alta técnica de todos sem exceção, é notável que, como todo início, faltam alguns ajustes, integrações e uma definição mais exata de quem são esses novatos — principalmente Berzan — e as novas veredas desta banda.


Mas muito longe — muito mesmo — de ter sido um show ruim, ou que tenha faltado algo, fica apenas este desejo de que não se tornem uma emulação do passado, mas que se pegue o respeito, as referências e o legado e que se carregue a tocha adiante, pela visível possibilidade que se tem em mãos com este grande vocalista.


Setlist


  1. Narcosynthesis
  2. Enemies of Reality
  3. The River Dragon Has Come
  4. Beyond Within
  5. Inside Four Walls
  6. Engines of Hate
  7. My Acid Words
  8. Born 
nevermore no bangers open air

PALCO HOT: Amaranthe (Alt Metal/Suécia)


Texto por Rato de Show

Retornando apenas pela segunda vez — a primeira no festival —, a sensação sueca do metal alternativo, Amaranthe se fez presente no palco Hot para mostrar o quanto estilos diferentes do metal vêm ganhando espaço e sendo reconhecidos.


Os chamo de alternativo pela falta de uma palavra guarda-chuva que pareça ser boa o suficiente para englobar todas as diferentes camadas que a banda incorpora dentro do seu repertório. Do melódico ao power, de vozes limpas a drives e guturais, do pop ao uso incansável de sintetizadores e orquestrações, o que poderia muito bem ser o resultado de um prato de self-service de uma pessoa indecisa acaba sendo um blend harmônico de muito alto astral e diversão.


Outra banda com um grande lineup em suas fileiras, contando com os fundadores Morten Løwe Sørensen (bateria), Olof Mörck (guitarra) e Elize Ryd (vocal), a banda ainda se complementa com Johan Andreassen (baixo) e Nils Molin (Dynazty) e Mikael Sehlin também nos vocais.


Um show bem distribuído em termos da discografia da banda, com enfoque principalmente em Manifest (2020), a banda soube trabalhar bem tanto seu acervo antigo quanto recente, passando por grandes hits que chegaram logo no início como “Viral”, “Digital World” e “Strong”.


Fazendo valer cada membro, em especial os vocalistas, com aquela música alto astral que é impossível de ficar parado, vide os elementos eletrônicos e de pop, o efeito foi o de inúmeras cabeças pulando de cima a baixo ao longo daqueles que também estavam tendo seu primeiro contato e tentavam entender se gostavam e daqueles que aos poucos iam se rendendo.


A euforia produzida pela intensidade da banda era tanta que até mesmo Elize sentira o peso, somado ao escaldante sol, fazendo com que a cantora parecesse que iria desfalecer a qualquer momento em cima do palco, tomando seu tempo para respirar enquanto também era ovacionada pelo público.


O equilíbrio entre os três vocalistas e a dinâmica dos mesmos de fato eram o que mais roubavam a cena. A possibilidade de se ouvir os instrumentos mesmo em meio a tantas camadas sonoras também. A sensação era quase como a de se estar em uma divertidíssima aula de spinning de metal, onde todas as calorias do dia foram queimadas do começo ao fim, especialmente ao fechar com chave de ouro com “Archangel” e “Drop Dead Cynical”.


Setlist


  1. Fearless
  2. Viral
  3. Digital World
  4. Damnation Flame
  5. Maximize
  6. Strong
  7. PvP
  8. The Catalyst
  9. Chaos Theory
  10. Amaranthine
  11. The Nexus
  12. Call Out My Name
  13. Archangel
  14. That Song
  15. Drop Dead Cynical 
amaranthe no bangers open air

PALCO SUN: Crazy Lixx (Hard Rock/Suécia)


Texto por Heitor Lamana

Este ano, os fãs de hard rock tiveram muito a comemorar com a presença de não apenas uma, mas três bandas do estilo no lineup de domingo do Bangers. Diretamente da Suécia, o Crazy Lixx foi uma dessas bandas — levando o público no palco Sun ao delírio com seu sleazy classe A, que se destacou mesmo em meio a tantas apresentações de qualidade que tivemos naquele dia.


Formada na cidade de Malmö em 2002 pelo vocalista e fundador Danny Rexon, o grupo se inspira na estética visual e musical dos anos 80 sem, no entanto, apelar para a nostalgia barata — muito mal utilizada na cultura pop de um modo geral. Além dele, a atual formação é composta pelo baixista Jens Andersson, o baterista Robin Nilsson e, por fim, pelos guitarristas Jens Lundgren e Chrisse Olsson.


Começaram seu show com “Rise Above”, que facilmente poderia ser trilha sonora de alguma continuação de Top Gun (competindo com a famosa música-tema de Kenny Loggins). Divertida e com um refrão extremamente pegajoso, aqui já conseguimos ter um gostinho da grande distinção do Crazy Lixx: a capacidade de trabalhar em suas músicas todo aquele quê clássico oitentista sem se cartunizar ou esbarrar no clichê — mantendo sua autenticidade e criatividade.


Isso fica claro em faixas como “Hell Raising Women”, “Whiskey Tango Foxtrot” (que brinca com a sigla WTF) e “Never Die (Forever Wild)” — esta um pouco mais emocional — presentes no setlist. Outro exemplo é “Sword and Stone”, cover do Bonfire originalmente escrito por Paul Stanley para o álbum Crazy Nights, do KISS, mas que acabou descartado e repassado aos alemães. Aqui, fazer um cover já seria difícil por si só — tendo em vista a dinâmica entre se manter fiel ao material original e fazer uma releitura do mesmo —, quanto mais quando se trata de uma banda do mesmo gênero, mas os galãs brilham pela forma genial como modernizam e aceleram o som.


Como qualquer banda de hard rock que se preze, as baladas também fizeram parte do conjunto da obra tocado durante a apresentação. É o caso de “Hunt for Danger” e “Blame It on Love” — que trouxeram a sofrência típica da farofa para os corações dos presentes, que se balançavam na melodia.


Elétrica, a passagem do Crazy Lixx pelo segundo dia de Bangers Open Air foi um esmero. Sem medo de abraçar o espetáculo, a banda não vive apenas do passado; se molda a partir dele trazendo tudo o que se pode esperar do bom e velho hard rock. Não à toa, a mensagem final foi a música “Who Said Rock ‘n’ Roll Is Dead”, mostrando que o gênero se reinventa e não para no saudosismo.


Setlist


  1. Rise Above
  2. Hell Raising Women
  3. Whiskey Tango Foxtrot
  4. Sword and Stone (cover do Bonfire)
  5. Never Die (Forever Wild)
  6. Hunt for Danger
  7. XIII
  8. Midnight Rebels
  9. Anthem for America
  10. Blame It on Love
  11. Who Said Rock ’n’ Roll Is Dead
crazy lixx no bangers open air

PALCO ICE: Winger (Hard Rock/Estados Unidos)


Texto por Rato de Show

Mostrando que serve como um local de inícios e fins, da mesma forma que tínhamos o retorno do Angra no último dia de Bangers, o público presente recebia a turnê de despedida dos palcos do Winger, nome clássico — ainda que relativamente nichado — dentro do hard rock.


Capitaneado por Kip Winger (vocal/baixo) e Rob Morgenstein (bateria), únicos membros fundadores da banda, e acompanhados por Reb Beach (guitarra), Paul Taylor (guitarra/teclados) e John Roth (guitarra), o show do Winger veio para colocar à prova o coração dos fãs do gênero.


Uma, pela concorrência de horários com outra banda que reside em um guarda-chuva próximo (Crazy Lixx); outra, pelo gosto agridoce dos fãs que, ao mesmo tempo que celebravam e cantavam a plenos pulmões junto à banda, sabiam que muito possivelmente o estavam fazendo por uma última vez.


Essa sensação esteve presente ao longo da apresentação como um todo e serviu inclusive como um incentivo para que a banda derramasse cada centímetro de energia, alto astral e qualidade sonora como quem pretende dançar um último tango.


Ainda que abrindo com “Stick the Knife and Twist”, de seu mais recente Seven (2023), reforçando a continuidade que a banda tivera e já impressionando os desavisados pela mescla entre a farofa, o virtuoso e o técnico, somado à marcante e rasgada voz de Kip, não teve jeito: o show foi uma ode à sua trajetória, com enfoque em seus dois mais celebrados álbuns, In the Heart of the Young (1990) e o autointitulado de 1988.


Isso porque, na sequência, já colocaram seu maior — e mais problemático — hit, “Seventeen”, que mesmo datado não impediu o público de cantar junto, assim como “Can’t Get Enough” e “Down Incognito”, único representante de Pull (1993).


Se por um lado a despedida teve energia, técnica, velocidade e espaço para brilhar, vide os solos de tirar o fôlego, tanto de Reb mostrando melodia, técnica e ginga quanto a marretação rítmica, divertida e rápida de Rob, por outro, se tratando de uma última oportunidade de se performar, diria que talvez o tempo poderia ter sido revertido em mais músicas para os fãs.


Sabendo equilibrar bem entre as músicas para cantar junto a plenos pulmões, as baladinhas de encostar a cabeça no ombro e os momentos eletrizantes de se brilhar os olhos, se esta foi realmente a última vez do Winger no Brasil, certamente foi uma a ser celebrada pelos que conheciam e talvez de se lamentar por aqueles que estavam conhecendo e sentem que gostariam de ver mais, principalmente em uma era de revival em que vivemos.


Setlist


  1. Stick the Knife In and Twist
  2. Seventeen
  3. Can't Get Enuff
  4. Down Incognito
  5. Miles Away
  6. Rainbow in the Rose
  7. Guitar Solo (Reb Beach)
  8. Time to Surrender
  9. Drum Solo
  10. Headed for a Heartbreak
  11. Easy Come Easy Go
  12. Madalaine
winger no bangers open air

PALCO HOT: Smith/Kotzen (Hard Rock/UK)


Texto por Eduardo Domingues

No finalzinho da tarde, o duo de hard rock Smith/Kotzen subiu ao palco Hot Stage. O duo é composto pelos guitarristas Adrian Smith (Iron Maiden) e Ritchie Kotzen (The Winery Dogs), que são dois dos maiores nomes deste instrumento entre headbangers. Dizer que este era um dos shows com os quais eu mais estava animado é até um eufemismo. Mas, infelizmente, o show não foi tão perfeito quanto eu gostaria.


Começando pelo som, que estava bem embolado durante o início do set. O baixo de Julia Lage era quase impossível de se ouvir, e as guitarras, especialmente a de Adrian, estavam bem estouradas, com o vocal de Ritchie meio abafado. Felizmente, durante o show, o som foi melhorando bastante e, pouco da metade para frente, já estava no nível dos ícones que estavam no palco.


A plateia, por outro lado, estava dividida entre pessoas que já estavam esperando por Within Temptation (e até pelo Angra) e pessoas que só queriam ver os dois no palco, mas nem conheciam as músicas da banda. E isso acabou resultando em uma recepção bem morna.


Como essa é a turnê de seu álbum mais recente, Black Light / White Noise, a maioria do set foi composta por músicas dele, como “Darkside” e “Blindsided”, que é de longe a minha favorita (e a melhor do disco, por sinal). Esse fato, porém, pode ter ajudado na falta de empolgação da plateia, que talvez ainda não conhecesse as novas músicas, pois agitavam um pouco mais durante faixas como “Scars” e “Taking My Chances”, que fazem parte do álbum autointitulado da dupla.


Mas, se parecia que a plateia não estava tão animada quanto deveria, tudo mudou quando Adrian começou a tocar o lendário riff de “Wasted Years”, do Iron Maiden, um dos maiores hinos do heavy metal em geral. A música não só aqueceu os corações dos metaleiros, como contou com todo o Memorial cantando em uníssono, fechando o set com chave de ouro.


Setlist


  1. Life Unchained
  2. Black Light
  3. Wraith
  4. Blindsided
  5. Taking My Chances
  6. Darkside
  7. Got a Hold on Me
  8. White Noise
  9. Scars
  10. Running
  11. Wasted Years (cover de Iron Maiden) 
smith/kotzen no bangers open air

ICE STAGE: Within Temptation (Symphonic Metal/Holanda)


Texto por Rato de Show

Retornando ao festival após sua participação no lendário “dia do melódico”, como ficou conhecido na passagem do até então Summer Breeze junto ao Lacuna Coil e ao Epica, o Within Temptation é uma daquelas bandas “fáceis” de se colocar em um lineup pela certeza do sucesso.


Da certeza de uma entrega espetacular, somada à certeza de um público cativo, comprado e compromissado, não à toa um mar de cabeças já se empoleirava ao longo dos últimos acordes do lendário Adrian Smith, preparados para aquela dose de orquestração necessária para se deixar derramar as emoções.


Emoções essas impossíveis de serem contidas logo de cara conforme entravam Mike Coolen (bateria), Vikram Shankar (teclados), Jeroen van Veen (baixo), Ruud Jolie (guitarra), Stefen Helleblad (guitarra) e Sharon den Adel (vocal), iniciando com “We Go To War”, do mais recente Bleed Out (2023), quase como um grito de guerra para que os fãs se preparassem para embarcar em uma intensa performance de fechamento do palco Ice.


Sharon logo de cara roubava a cena, sim pelo carisma e a voz doce e apaziguante como sempre, mas pelo estonteante visual em branco, com sua máscara dourada que a colocava como um avatar divino, um conduíte entre os sentimentos e o outro, do interno para o externo.


Os fãs desavisados, que se julgavam prontos para a experiência catártica e curiosamente típica da banda, foram pegos de surpresa, pois sabendo muito bem como impressionar uma segunda vez e tendo em mente a forte ligação da banda com o nosso país, o WT tirou a poeira de diversas músicas que não viam os palcos há anos, como “The Howling”, “The Heart of Everything” e “Forsaken”.


Quase como um pacto selado pelo olhar e pelos lábios, a retribuição do mar de vozes pelo presente na forma de músicas há tanto tempo não vistas era uma mistura de gritos, choros e cantorias a plenos pulmões que se estendiam da grade até o fundo e até para o lado daqueles que aguardavam o Angra.


Houve também as indispensáveis, como “Stand My Ground”, “Faster”, “Paradise (What About Us?)”, “Ice Queen” e “Mother Earth”, que colocou boa parte do Memorial em uníssono de frequência e celebração. Trazendo um contraponto interessante em relação à sua última vez, o palco, ainda que preenchido, era mais simples, menos produção e mais foco na qualidade sonora, que estava impecável e embarcou a todos através das melodias, dos riffs e das camadas sonoras.


Quando na dúvida — se é que ela exista —, chame uma banda de melódico, que você com certeza acertará em cheio em execução, performance, mas principalmente, entrega.


Setlist


  1. We Go to War
  2. The Howling (primeira vez desde 2016)
  3. Stand My Ground
  4. Bleed Out
  5. Ritual
  6. In the Middle of the Night
  7. The Heart of Everything (primeira vez desde 2019)
  8. Faster
  9. Wireless
  10. Lost
  11. Forsaken (primeira vez desde 2021; primeira vez em público desde 2008)
  12. Paradise (What About Us?)
  13. Don't Pray for Me
  14. Ice Queen
  15. Mother Earth
within temptation no bangers pen air

SUN STAGE: Krisiun (Death Metal/Brasil)


Texto por Heitor Lamana

Honesto, direto ao ponto e brutal. É assim que poderíamos definir de maneira sucinta qualquer show do Krisiun. Onde quer que ocorra, faça chuva ou faça sol, o trio de gaúchos atrai um público fiel e sedento pelo death metal mais grosseiro possível. A princípio, a presença dos irmãos no Bangers não estava programada, mas uma rápida sucessão de eventos e cancelamentos de última hora fez com que a coisa acontecesse e o Sun Stage fosse palco de muita porradaria e violência sonora na presença do todo-poderoso.


Assim, aglutinando a maioria dos fãs de metal extremo presentes no domingo do festival, a banda fez um show de uma hora com um repertório similar ao que havia se apresentado na semana anterior, no Wacken Warm Up Party. Longe disso ser um problema, como disse naquela ocasião, o Krisiun tem tantas músicas indispensáveis em seu setlist que se torna difícil largar qualquer uma delas. Um show do Krisiun sem “Blood of Lions”, “Combustion Inferno” e “Scourge of the Enthroned”, por exemplo, não é um show completo. Se não estivesse dando certo assim, os fãs não clamariam tanto pelo nome da banda e tampouco se quebrariam em meio ao enorme redemoinho de gente que se formou durante a apresentação.


O fato indiscutível é que o Krisiun é um nome que impõe respeito “doa a quem doer” (parafraseando o próprio Alex) pela singeleza com que trabalha dentro e fora dos palcos. Muito se fala sobre como bandas devem construir sua marca e conquistar a aderência do público, mas pouco se fala sobre o papel da naturalidade nesse cenário — e disso o Krisiun entende muito bem.


Setlist


Não foi possível confirmar o setlist completo da banda até o momento

krisiun no bangers pen air

SUN STAGE: Dirkschneider (Heavy Metal/Alemanha)


Texto por Eduardo Domingues

Enquanto o Angra tocava seu set no palco principal, o ex-vocalista da lendária banda de heavy metal Accept subiu ao Sun Stage para encerrar as atividades do palco. Mesmo não chegando nem perto da quantidade de pessoas que estavam do outro lado da passarela, e utilizando seu sobrenome como nome da banda — o que acabou confundindo diversas pessoas —, o grande (baixinho) Udo Dirkschneider conseguiu atrair um público decente para seu show no Bangers, lotando toda a área do Sun Stage.


Antes de iniciar seu set oficialmente, com as luzes já apagadas, começou a tocar nas caixas de som a música “The Number of the Beast”, do Iron Maiden, para anunciar que o show estava para começar — sendo, de forma inesperada, a segunda música do Iron no mesmo dia de festival. Então, finalmente, Udo iniciou realmente seu show com a faixa do Accept “Fast as a Shark”, do álbum Restless and Wild (1982).


Na realidade, o set inteiro foi composto de faixas do Accept, contando até com uma parte especial em que tocou o álbum Balls to the Wall (1983) na íntegra, para comemorar o aniversário de 40 anos do mesmo. E obviamente todos ali presentes amaram a escolha, gritando com toda a força clássicos como “Turn Me On”, “Head Over Heels” e, obviamente, a própria “Balls to the Wall”.


Mesmo contando com um público em sua maioria com mais de 50 anos (eu possivelmente sendo um dos únicos na casa dos 20), o povo deu sua energia máxima, realmente mostrando o quanto ama cantar e agitar nas músicas que provavelmente os acompanharam a vida inteira.


A energia que esse show trouxe acabou me renovando e me dando mais uma carga para animar um show inteiro depois de um dia corrido e cansativo, sendo uma das maiores surpresas do festival para mim. Udo provou que, mesmo estando com seus 74 anos e com um público majoritariamente mais velho, consegue entregar um show de peso e respeito que muitas bandas novas sonhariam em ter. Acho que faz parte de ser um dos nomes mais conhecidos do meio do metal.


Udo encerrou o set com “Burning”, do álbum Breaker, que terminou de botar fogo no parquinho do Sun Stage. A única coisa realmente triste do show, para todos com quem conversei após a apresentação — e para mim também —, é que ele não tocou a faixa “Metal Heart”, do álbum de mesmo nome. E realmente, foi a única coisa que faltou para fazer o set pretérito — mais que perfeito.


Setlist


  1. Fast as a Shark
  2. Living for Tonite
  3. Midnight Mover
  4. Balls to the Wall
  5. London Leatherboys
  6. Fight It Back
  7. Head Over Heels
  8. Losing More Than You've Ever Had
  9. Love Child
  10. Turn Me On
  11. Losers and Winners
  12. Guardian of the Night
  13. Winterdreams
  14. Princess of the Dawn
  15. Burning
dirkschinder no bangers pen air

HOT STAGE: Angra (Prog Power/Brasil)


Texto por Heitor Lamana

Anos atrás, se alguém dissesse que Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt se reuniriam nos palcos novamente com Aquiles Priester e Edu Falaschi, essa pessoa seria chamada no mínimo de ingênua ou iludida — tamanha a improbabilidade da situação. O Angraverso sempre foi conhecido por ser o universo compartilhado de uma infinidade de tretas, desentendimentos e alfinetadas entre seus integrantes que nunca parecem acabar — disputando lado a lado com as grandes empresas quadrinistas (como Marvel Comics e DC Comics) a quantidade de personagens presentes e de fascículos lançados.


Assim, o anúncio da reunião da formação Rebirth como headliner do segundo dia de Bangers Open Air 2026 foi um choque completo que abalou o noticiário e a mídia especializada brasileira por semanas. As preces dos fãs que fantasiavam e sonhavam com esse dia finalmente foram atendidas, e os ingressos para ver o primeiro headliner brasileiro do festival venderam que nem água, mas nem tudo era tão idílico e perfeito como parece.


O Angra estava em hiato há menos de um ano. Neste ínterim, anunciaram a saída do vocalista Fabio Lione sob circunstâncias ainda um pouco turvas — que só o tempo irá esclarecer — e que a apresentação no Bangers também seria sua despedida da banda. Logo depois, oficializaram Alirio Netto na vaga deixada pelo italiano e também que sua estreia seria no show do Memorial. Menos de um mês antes do evento, a banda encerrou sua indecisa pausa, planejando comemorar os 30 anos do álbum Holy Land (1996). Tudo isso acontecendo e a formação Nova Era nem havia se reunido ainda.


Essa celeuma toda acabou reverberando para mim na apresentação. Não me entendam mal, o show foi maravilhoso — tecnicamente impecável e irrepreensível —, mas parecia um pouco estranho. Abrindo seu primeiro ato com a nova formação tocando “Nothing To Say” e “Angels Cry”, a última participação de Lione na banda só começaria depois, com “Tides of Changes”, partes I e II. Se a ideia era fazer uma saída em grande estilo, celebrando sua contribuição com a banda ao longo desses 14 anos, faltou planejamento; colocaram ele para cantar “Lisbon” ao invés de qualquer outra canção ou balada de sua fase na banda, cheia de possibilidades que ficariam melhor no recorte temporal proposto.


O fato de o novo vocalista ter entrado sem cerimônia antes mesmo do Mago — que não fez a passagem do cajado adiante —, embora possa ser justificado pela anacronia da montagem cênica, soou um pouco anticlimático e um sinal de um foco demasiado nos próximos capítulos, celebrando partes do passado ao mesmo tempo em que joga para o escanteio o passado mais recente. Depois de cantar, Lione agradeceu os fãs e se despediu, sendo visto momentos depois em meio ao público, conversando e tirando fotos normalmente. Demos as boas-vindas a Alírio e adeus para a fase Fabio Lione.


Era chegada a hora do terceiro ato e do momento que todos estavam esperando. No escuro, “In Excelsis” foi o prenúncio da entrada triunfal de Edu, Aquiles e Kiko — com direito a fogos de artifício — ao som de “Nova Era”. Um coro percorria todo o Memorial da América Latina com um clima de comemoração de Copa do Mundo — tamanha a importância histórica da reunião. Antes de Falaschi dar oi ao público, uma surpresa no setlist: “Waiting Silence”, uma das três faixas tocadas do incontestável Temple of Shadows, para o delírio coletivo.


Tivemos toda a suntuosidade que se poderia esperar de um encontro como esse; a classe de Kiko na guitarra, a precisão milimétrica de Aquiles e o carisma de Edu continuam singulares — parecendo que fomos transportados de volta aos tempos áureos da formação. Em “Millennium Sun”, Kiko sentou-se ao piano — que já havia sido usado por Alírio em “Wuthering Heights” —, cena captada lindamente pelas câmeras. Ainda passamos por clássicos como “Ego Painted Grey” (a única tocada de Aurora Consurgens), “Bleeding Heart” (famosa na mão do Calcinha Preta) e a heroica “Spread Your Fire”, nos encaminhando para a finalização do ato na faixa-título “Rebirth” — cantada por todos emocionadamente.


No interlúdio, “Silence and Distance” foi dedicada por Rafael à figura e memória do maestro Andre Matos, com sua imagem projetada no telão e sendo cantada por Alírio e Falaschi. A dupla ainda cantou a simbólica “Late Redemption” antes de se retirar do palco.


Duas baterias, três guitarras e muita pirotecnia; o grand finale chegou com “Carry On”. Todos subiram ao palco ao mesmo tempo esbanjando muita, mas muita energia e talento. A cena lembrava aqueles episódios em que vários times diferentes de Power Rangers se uniam em prol de um bem comum. Alírio dividia os vocais com Fabio e Edu enquanto Kiko assistia Bruno e Aquiles sincronizando perfeitamente as viradas de bateria no que foi um final completamente apoteótico para o show de reunião — um marco igualmente importante tanto para o Bangers quanto para o Angra.


Apesar de ter uma proposta um pouco confusa — não sabendo dosar se comemorava os anos Lione, a entrada de Alírio, o legado da banda ou a formação antiga —, o show de reunião do Angra no Bangers foi uma experiência única em termos de importância histórica e qualidade técnica. Primeiro show de uma nova era — tanto para a banda quanto para o festival —, a apresentação estremeceu toda uma geração que sonhava com esse dia e movimentou toda a cena brasileira envolta do evento. Resta saber se essa reunião foi um ponto final ou um novo capítulo de união na história do metal brasileiro.


Setlist


  1. Nothing to Say (com Alírio Netto nos vocais)
  2. Angels Cry (com Alírio Netto nos vocais)
  3. Tide of Changes – Part I (com Fabio Lione nos vocais)
  4. Tide of Changes – Part II (com Fabio Lione nos vocais)
  5. Lisbon (com Fabio Lione nos vocais)
  6. Vida seca (com Fabio Lione nos vocais)
  7. Wuthering Heights (cover de Kate Bush; com Alírio Netto nos vocais)
  8. Carolina IV (com Alírio Netto nos vocais; primeira vez desde 2018)
  9. Nova Era
  10. Waiting Silence
  11. Millennium Sun
  12. Heroes of Sand
  13. Ego Painted Grey
  14. Bleeding Heart
  15. Spread Your Fire
  16. Acid Rain
  17. Rebirth
  18. Silence and Distance
  19. Late Redemption
  20. Carry On
angra no bangers pen air

Já ao fim e diante da inevitável tristeza de mais um ano que se vai — ainda que acompanhada da felicidade e da certeza de outro no horizonte —, sentimos também por não termos sido capazes de narrar na íntegra todos os outros shows que certamente tiveram seus quês de momentos especiais e novas memórias formadas.


Infelizmente, não chegamos a tempo também para o Ambush, quando, após finalmente vencer o mar de pessoas que se afastava do momento de animação coletiva com o Angra, as portas do anfiteatro já se encontravam encerradas — fosse pelo horário ou pela capacidade máxima alcançada —, vide a boa energia dos vídeos que recebemos.


Muito mais do que um grande festival, o Bangers Open Air de 2026 proporcionou ainda um senso de nacionalidade raro, no sentimento de orgulho de poder dizer que tivemos um grande headliner verde e amarelo que colocou milhares de pessoas de prontidão.


Aprendendo com seus erros e fortalecendo ainda mais seus acertos, a edição mostrou que a nova gestão sabe para onde quer ir e está fazendo isso de forma louvável. Na certeza de um próximo ano tão intenso quanto, agora, por hora, restaria nos debruçarmos sobre os próximos e finais shows ao longo da semana que se seguiria, resquícios de side-shows do festival e da antecipação sobre o que será que 2027 nos trará em forma de novas experiências, sensações e momentos.


Até lá!

angra no bangers open air

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