Party On Wacken | Brasil (SP)

Sem sombra de dúvidas, a essência do festival estava ali manifestada, todos unidos sob uma mesma paixão e com uma curadoria artística de um primor incomensurável.

Texto por: Heitor Lamana

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Honor Sounds e Bangers Open Air


Todo mundo conhece o Wacken Open Air. Presente desde 1990, o festival alemão se tornou o sonho de consumo de metaleiros em todo o mundo, ganhando a alcunha de ‘A Meca do Heavy Metal’. Por mais manjado que seja, esse epíteto representa a força e o reconhecimento que a marca tem ao redor do globo, fazendo com que multidões de fãs de diferentes países busquem peregrinar pelo menos uma vez na vida ao seu solo sagrado. Comemorando seu 35º aniversário este ano, o festival decidiu inovar celebrando essa marca histórica mundialmente. Assim, no último sábado, dia 18 de abril — da mesma forma que todos os dias milhares de muçulmanos se voltam à Kaaba —, hordas de headbangers em 35 países diferentes (incluindo países como Egito, África do Sul e China) se voltavam para palcos sob o mesmo nome, celebrando em união o estilo e comungando no Wacken Warm Up Party. No Brasil, a festa ficou a cargo da equipe do Bangers Open Air e foi um total sucesso, sendo realizada na Audio e tendo como lineup as bandas The Mist, Troops of Doom, Korzus e Krisiun.

 

O clima estava ameno na tarde daquele sábado e bem antes de começarem os shows muitos já estavam aguardando no local – dentro e fora da casa. A expectativa era grande e às 15:30, no horário previsto, o The Mist subiu ao palco - já sinalizando que o nível do que estava por vir seria do mais alto calibre.

the mist em SP

A banda belo-horizontina, formada em 1986 sob outro nome, havia entrado em hiato no final do século passado, retomando as atividades apenas mais recentemente em 2018.  Com 4 discos de estúdio e 2 EPs, os mineiros estavam muito dispostos e agitaram o público com um setlist composto majoritariamente por suas músicas mais recentes sem, no entanto, abandonar seu repertório clássico. Faixas como ‘The Enemy’ do álbum Phantasmagoria (1989) e ‘Geppetto’ – lançada como single e depois parte do álbum The Dark Side of The Soul, de 2025 – tornaram o show um baita de um arregaço e de um pontapé inicial para a festa. O vocalista Vladimir Korg chegou a comentar a felicidade de estarem tocando ali – provada pela sua energia e presença de palco, correndo de um lado para o outro e gesticulando com seu pedestal a todo instante. Outros destaques positivos da apresentação vão para o som da bateria de Linassi e dos riffs de Thiago Oliveira – potentes e velozes como o bom thrash metal pede. Em suma, os veteranos demonstraram o porquê de sua escalação para um evento tão especial – mostrando muita técnica e excelência em sua apresentação.


THE MIST – SETLIST

 

  1. The Tempest
  2. The Curse of Life
  3. Peter Pan Against the World
  4. Over My Dead Body
  5. Name + Number = Namber
  6. The Enemy
  7. The Hangman Tree
  8. The Dark Side of the Soul
  9. Geppetto’s Song
  10. My Inner Monster
the mist  em SP

A seguir, sob o som de seu mais novo single ‘God of Thunder’ (homenagem ao lendário Kiss, com participações especiais incluindo Chuck Billy, do Testament), era hora da The Troops of Doom dar as caras. Como verdadeiros rockstars, um a um os músicos foram aparecendo ao público – a essa altura bem mais volumoso – e iniciaram sua pancadaria sonora sem muito lero lero.


A mais jovem na programação, a The Troops of Doom possui uma coesão e uma maturidade de causar inveja a muitas bandas com várias décadas de carreira nas costas. O seu death metal old school é marcado pela fluidez, não dando espaço para respiro mas sem se tornar cansativo. Cansados devem ter ficado os corajosos que se aventuraram nas rodas que se formaram desde o início do show – absolutamente insanas como em um transe de frenesi. Embora teoricamente se possa imaginar que estejam em uma fase de adaptação – se acostumando com a saída recente do grande Marcelo Vasco – o entrosamento da banda continua absoluto, incluindo o guitarrista convidado Guilherme Costa (cuja atuação foi brilhante, parecendo um membro fixo).

the troops of doom em SP

Ao longo de todo o repertório, a cada música tocada, o público respondia com um furor mais e mais agressivo – o que parece ter sido captado pelos músicos no palco, que reagiram visivelmente empolgados. ‘Far From Your God’, ‘Denied Divinity’ e a dobradinha de ‘Dethroned Messiah’ com ‘Dawn of Mephisto’ foram pontos chave da apresentação, sem contar o clássico indiscutível do Sepultura ‘Bestial Devastation’. O ápice da discórdia e do alvoroço, contudo, se deu quando anunciaram a saideira ‘Troops of Doom’ (outro clássico da Era Jairo do Sepultura, é claro), com o baterista Alexandre Oliveira subindo em seu equipamento para atiçar o circle pit. O resultado é, sem nenhum exagero, indescritível; não há quem resista a um cover bem colocado dentro de um setlist autoral de extrema qualidade. Com esse final triunfal, o grupo composto por Jairo Guedz, Alex Kaffer, Alexandre Oliveira e Guilherme Costa se despediram do palco sob muita euforia.


THE TROOPS OF DOOM – SETLIST

 

  1. Act I - The Devil's Tail
  2. Chapels of the Unholy
  3. Far from Your God
  4. Bestial Devastation (cover do Sepultura)
  5. Act II - The Monarch
  6. The Rise of Heresy
  7. Denied Divinity
  8. Morbid Visions (cover do Sepultura)
  9. The Confessional
  10. Dethroned Messiah
  11. Dawn of Mephisto
  12. Troops of Doom (cover do Sepultura)
the troops of doom  em SP

A expectativa para o show do Korzus era grande, quiçá enorme. Também sofrendo mudanças na sua composição – em virtude da saída dos guitarristas Heros Trench e Antônio Araújo – a banda estreava oficialmente uma nova etapa de seus mais de 40 anos de estrada com um single chamado ‘No Light Within’. Com videoclipe dirigido justamente pelos novos integrantes Jean Patton (ex-Project 46, que já tocava na banda como músico convidado) e Jéssica Falchi (ex-Crypta), a música gerou muito burburinho e curiosidade sobre o futuro deste gigante do metal nacional e como ele se sairia ao vivo. 

 

Passados poucos minutos, já tínhamos nossa resposta; começando com a faixa ‘Guilty Silence’ – do álbum Ties of Blood, de 2004 – pudemos presenciar diante de nós como a nova formação está completamente sólida. A adição dos novos guitarristas trouxe vigor ao Korzus, ressurgindo como uma fênix em meio as cinzas da incerteza onde estava (com o perdão do parnasianismo). Sob a luz dos holofotes, Jéssica Falchi parecia contida – provavelmente por ser sua primeira apresentação com o grupo -, o que não ofuscou o seu talento quase sobrenatural nem sua sintonia com os demais colegas - interagindo entre si com muita naturalidade. No decorrer do show, anunciaram o debut da nova canção com um bate-cabeça sincronizado lindo de se ver – reflexo do total foco deles nesta nova fase da empreitada.

korzus em SP

Já falei em outra ocasião sobre como o carisma do vocalista Marcello Pompeu engrandece qualquer evento, e aqui não seria diferente; a sua presença de palco nunca perde o fio, levantando até defunto com seus famosos gritos de ‘Yeah-oh’. Ao anunciar a música ‘Never Die’, comentou que ‘Morrer é fácil, difícil é renascer’ – um reflexo da grandiosidade do Korzus ao se reinventar mesmo depois de tantos anos de trabalho. Pauleira atrás de pauleira, fizeram um setlist equilibrado dentro de sua discografia. Clássicos em português como ‘Catimba’, ‘Vampiro’ e ‘Guerreiros do Metal’ não poderiam faltar de modo algum, mas a grande surpresa foi a participação especial de Mayara Puertas – vocalista do Torture Squad – na música ‘Discipline of Hate’, do álbum de mesmo nome lançado em 2010. Na base de ‘Correria’, o Korzus encerrou sua apresentação mostrando que a banda segue renovada e fortalecida, sanando todas as dúvidas que poderiam surgir sobre seu futuro e reiterando sua presença de peso na cena.


A festa estava próxima do fim, mas os ânimos permaneciam inteiros. Por todo o lado, fãs dividiam o espaço com artistas e veículos de imprensa em perfeita harmonia; o espírito do Wacken se fazia presente.


KORZUS – SETLIST

 

  1. Guilty Silence
  2. Truth
  3. Raise Your Soul
  4. Catimba
  5. No Light Within (estreia)
  6. Agony
  7. Victim of Progress
  8. Vampiro
  9. Discipline of Hate (com Mayara Puertas)
  10. Never Die
  11. What Are You Looking For
  12. Guerreiros do Metal
  13. Correria
korzus em sp

‘O Krisiun não tem fãs – ele tem uma legião’. Em certa ocasião, ouvi essa frase de um amigo e nunca mais consegui esquecer. Formado em Ijuí, no interior do estado do Rio Grande do Sul, o Krisiun é uma dessas forças da natureza que sempre marca sua presença por onde quer que passe. Atraindo verdadeiros devotos no lugar de fãs, o trio de brucutus gaúchos formam aglomerações seja lá onde toquem. Simplesmente um espetáculo do mais puro e brutal death metal, é impossível assistir um show do Krisiun sem ouvir seu nome sendo bradado aos montes pela plateia – beirando um ato de adoração. Composto pelos irmãos Alex Camargo (baixo e vocal), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria), o Krisiun possui 11 álbuns de estúdio ao longo de sua trajetória presente desde a década de 90.

 

Começaram sua onda de brutalidade e destruição com a música ‘Kings of Killing’, do álbum Apocalyptic Revelation, de 1998. Aqui, não é preciso dizer o tamanho e o grau de intensidade dos moshpits que se criaram assim que a bateria começou a descarregar ódio; a barbárie estava solta e desenfreada até o fim da noite. Entre uma música e outra, o nome Krisiun era ecoado como um mantra bestial de forma incansável, e correspondido com agradecimentos dos músicos - que se ajoelhavam e gesticulavam em resposta.

krisiun  em sp

Algo muito interessante sobre o repertório do Krisiun - no que se refere aos seus shows - é como muitas de suas músicas simplesmente não perdem a graça - se tornando clássicos indispensáveis em todo setlist. É o caso de pedradas como ‘Combustion Inferno’, ‘Blood of Lions’, ‘Descending Abomination’ e, do último álbum Mortem Solis (2022), a groovada ‘Necronomical’ e ‘Serpent Messiah’. Para alguns isso até pode soar repetitivo demais, mas para a grande maioria cada uma dessas faixas é um evento especial por si só, sempre garantindo boas memórias. 

 

Também agradeceram nominalmente muitos dos seus fãs que estavam presentes - incluindo seu fã-clube. O Krisiun se tornou patrimônio do metal nacional não apenas pela potência do seu som (já mais do que o suficiente), mas também pela naturalidade e respeito com que lidam com o público. Assim, após finalizarem sua tempestade com ‘Black Force Domain’ (que dispensa apresentações), Moyses leu o nome das bandas de várias camisetas ali na plateia – ressaltando como todo esse ecossistema, nacional e internacional, mantém a chama do metal acessa e sendo mais um indício da felicidade de todos de estarem ali presentes, comungando no estilo.

 

Foi assim que terminou a Wacken Warm Up Party no Brasil. Sem sombra de dúvidas, a essência do festival estava ali manifestada, todos unidos sob uma mesma paixão e com uma curadoria artística de um primor incomensurável.

krisiun em sp

KRISIUN – SETLIST

 

  1. Kings of Killing
  2. Scourge of the Enthroned
  3. Combustion Inferno
  4. Vicious Wrath
  5. Hatred Inherit
  6. Necronomical
  7. Blood of Lions
  8. Serpent Messiah
  9. Messiah's Abomination
  10. Descending Abomination
  11. Drum Solo
  12. Guitar Solo
  13. The Will to Potency
  14. Black Force Domain

Galeria - Party On Wacken