Evergrey (SP)

A passagem do Evergrey neste side-show foi um acalento para o coração e para a alma, servindo como um ótimo início das muitas festividades que estão por vir.

Texto por: Rato de Show

Fotos por: Vinicius Vieira | Manifesto

Agradecimentos: Honor Sounds, Bangers Open Air e Manifesto Bar


E foi dada a largada oficial para a semana do Bangers Open Air. Uma das semanas mais agitadas e aguardadas do calendário do headbanger brasileiro. Este ano, uma vez mais, teremos o prazer de acompanhar, registrar e cobrir o evento na íntegra, tentando exprimir da melhor forma possível nossa experiência para que chegue até você.


Mas antes sequer de chegarmos ao final de semana, o Bangers promoveu uma sequência de side-shows de algumas das atrações ao longo da semana prévia e pós do festival, tanto para quem quer ter um momento de imersão e proximidade maior, quanto para aqueles que talvez, por uma razão ou outra, não atendam ao festival, mas que ainda assim poderiam desfrutar de algo trazido por este.


E nesta última quarta-feira, estivemos presentes no Manifesto Bar, tradicional casa paulista, para acompanhar a primeira atração oficial: os suecos do Evergrey, que desde 1993 servem de referência e redefinem o prog power mundial.


Abrindo os trabalhos, contamos também com os estreantes em solo brasileiro do Silver Dust, banda vinda da Suíça que tem em seu trabalho mais recente o álbum Symphony of Chaos, lançado em 2025, e inclusive uma banda que já tivemos o prazer de entrevistar anteriormente e que você pode conferir clicando aqui.

silver dust  em SP

Silver Dust, os góticos alto astral

Em um primeiro momento, pensar na união entre uma banda que traz elementos melódicos, góticos e uma estética vitoriana parece cair como uma luva para uma noite que tem como reduto os sofredores melancólicos e intensos que são os fãs de Evergrey. Uma combinação quase perfeita, não fosse, na realidade, o extremo alto astral trazido pelo Silver Dust (e não que seja uma coisa ruim).


Iniciando em pontualidade, o cair das luzes, as imagens simbólicas e ritualísticas que corriam pelo telão e a entrada quase fúnebre do quinteto composto por Kurghan (baixo), Mr. Killjoy (bateria), Neiros (guitarra) e o vocalista, guitarrista e mentor da banda, Lord Campbell, rapidamente quebraram qualquer senso de estereótipo através dos sorrisos que corriam de orelha a orelha na banda.



Teatral, intenso e muito divertido seriam alguns dos adjetivos para descrever a performance. Suas vestes, cartola, pancake e lentes brancas poderiam até assustar um desavisado, mas a todo momento agradecendo, pedindo por palmas, “hey hey hey’s” e até uma espécie de “high five”, mas com os chifrinhos em mãos, o frontman foi um verdadeiro show de carisma à parte.

silver dust em SP

Mas a teatralidade e o carisma não eram a única coisa que a banda tinha para propor. Com um setlist centrado exclusivamente em seu último álbum, a cerimônia do Silver Dust ia para além dos gestos, mas nos acordes, em uma sonoridade intrigante que mescla diversos elementos modernos entre sintetizados, eletrônico e orquestrações em títulos como “Fire!” e “Devil’s Dance”. Uma bateria frenética e uma guitarra que trazia riffs rítmicos e cadenciados. O baixo, arrastado e pesado, casava perfeitamente com a voz mais baixa e grave do cantor, que na maior parte do tempo fica em um ritmo mais lento, até se mesclar a drives e guturais, evocando também intensidade como em “Salve Regina” e “No Matter How Far Away”.


Uma banda que parece saída do Madame Satã (quem sabe, sabe): ora você batia cabeça, outra dançava ao ritmo frenético do “putz putz”, tentando acompanhar a insanidade nos olhares e mãos velozes de Mr. Killjoy. Lord Campbell ainda fez questão de se jogar na plateia, desafiando os joelhos de todos ao nos convocar a abaixar e então levantar em pulos (duas vezes), o que serviu como um ótimo teste de resistência para o dia — e o final de semana — e que selou também uma bela estreia para a banda, que continua sua serenada da morte no domingo (24), às 18h40, no palco Waves.


Silver Dust - Setlist


  1. Fire!
  2. I Am Flying
  3. Devil's Dance
  4. Guitar Solo
  5. Salve Regina
  6. Lucifer's Maze
  7. Drum Solo
  8. No Matter How Far Away
  9. Symphony of Chaos
silver dust em SP

Uma jornada para dentro de si

Com os ânimos mais tranquilizados, a casa, que começava a se encher um pouco mais, entrou em completo estado de catarse e contemplação à medida que subia ao palco, na sequência, Stephen Platt (guitarra), Simen Sandnes (bateria), Rikard Zander (teclado), Johan Niemann (baixo) e seu líder, Tom Englund (guitarra/vocal).


Sem perder tempo, o Evergrey fez desde o início aquilo que sabe fazer de melhor: vibrar através da sua sonoridade nos corações e emoções de cada um, evocando sensações de um grau introspectivo e inebriante que te faz ponderar sobre a vida e seus acontecimentos.


Já de cara, abrindo com “Falling From The Sun”, do mais recente — pelo menos até o momento — Theories of Emptiness (2024), provando que os fãs não vivem só do passado, mas continuam sendo impactados pela banda até hoje, vide o coral que se fazia ao longo do refrão.


A intensidade do bate-cabeça se fez presente também desde o início, com os músicos provando que idade é só um número, vide o teste de resistência de cervical que acontecia. Em especial Simen, que parecia um polvo ao conseguir coordenar as viradas, quebras, pedais duplos e ainda remexer suas madeixas, e Stephen, que, por ser o mais recente membro, pouco antes da tour iniciar, tinha muita lenha e o que provar, pontuando que, pelo menos no departamento capilar, ele fazia um windmill de respeito.

evergrey  em SP

“Where August Mourn”, “Weightless” e “Say” vieram na sequência, e a competição para entender qual era a música que o público mais gostava era difícil. A cada uma anunciada por Englund, o pessoal ia à loucura, colocando um sorriso na boca do vocalista, que é uma verdadeira força da natureza. Entre a capacidade de coordenar os complexos e melodiosos riffs e trazer à tona sua voz mansa, potente e melancólica, às texturas e os arranjos sonoros que se produziam eram uma coisa linda de se ver.


Fosse nos belos arranjos de Rikard, que serviam como um edredom sonoro, aquecendo e dando aconchego à música, Johan trazia um baixo ainda grosso, impactante e sempre presente em uma harmonia com os demais instrumentos, como comentei anteriormente, que serviam como uma paleta de cores e emoções que provocavam as mais distintas reações a cada nota e música. Ah, e já aproveito para reforçar que, nesse sentido, Platt esteve à altura, entregando simplesmente no ponto cada nota e solo.


Os sofredores de plantão não tiveram do que reclamar. Passando por diversas fases e eras — entre Solitude, Dominance, Tragedy (1999), Hymns for the Broken (2014), Escape of the Phoenix (2021) e até músicas de seu vindouro álbum Architects of a New Wave (2026) — choraram com “Eternal Nocturnal”, choraram com “Call Out the Dark” e choraram mais um pouco com “King of Errors” e “A Silent Arc”.

evergrey em sp

Mas não só de perda de líquidos pelo canal lacrimal viveu o fã de Evergrey, pois as surpresas — e muitas — estiveram por lá. Do live debut de “The World Is on Fire” e “Architects of a New Wave”, até músicas que não viam o catálogo há um tempo, como “Words Mean Nothing” e o belíssimo “I’m Sorry”, era simplesmente lindo de ver a banda e o público se tornando um, conforme o coro de vozes — ora puxado pelo vocalista, ora nem sendo necessário — entrava em uma sintonia catártica que parecia fazer um saravá em toda e quaisquer inquietações e sombras que repousavam sobre os corações dos presentes.


Com uma daquelas pausas pré-encore, tivemos ainda um túnel do tempo da banda através de imagens que iam por cada era, cada uma recebendo mais louvor e gritos do que a outra conforme avançavam, até chegarmos na tríade final composta por “A Touch of Blessing”, a grata surpresa com “Leaving the Emptiness” — a única música que nenhum fã ali saberia cantar, já que ainda não veio a público, mas que certamente em uma próxima já estará decorada — e, para fechar, claro, não poderia faltar “OXYGEN!”, talvez a coisa que mais faltou no meio de geral por ali, dado que em nenhum momento o público parou, sequer para respirar.


Meu único ponto negativo para a apresentação, foram de alguns momentos que ocorreram com persistência ao longo do set, onde de tempos em tempos por meio segundo o som simplesmente desaparecia e retornava, quase como que um bug que gerava certo incômodo e quebra da imersão ao menos para mim, mas que não pareceu ser o caso para aqueles que se colocavam em adoração ao quinteto.


Reforçando o motivo de serem louvados por aqui e do porquê conseguirem transmitir em palavras e em sua sonoridade a complexidade humana do sentir e do ser, a passagem do Evergrey neste side-show foi um acalento para o coração e para a alma, servindo como um ótimo início das muitas festividades que estão por vir.


Vida longa ao Evergrey, vida longa ao Bangers Open Air.

evergey em são paulo

Evergrey - Setlist:



  1. Falling From the Sun
  2. Where August Mourn
  3. Weightless
  4. Say
  5. The World Is on Fire (live debut)
  6. Eternal Nocturnal
  7. Call Out the Dark
  8. King of Errors
  9. A Silent Arc
  10. Words Mean Nothing (primeira vez desde 2019)
  11. I’m Sorry (cover de Dilba; primeira vez desde 2022)
  12. Misfortune
  13. Architects of the New Weave (live debut)
  14. A Touch of Blessing
  15. Leaving the Emptiness (live debut; inédita)
  16. OXYGEN!

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