Vader (SP)
"Aqueles que foram direto do serviço para a pancadaria foram recompensados com uma noite de extrema qualidade musical, que com certeza valeu o esforço de derrotar o cansaço e a preguiça e ficará na memória como um dos grandes shows do ano."
Texto por: Heitor Lamana
Fotos por: Andre Santos
Agradecimentos: Caveira Velha Produções
Poucas bandas desfrutam de uma discografia tão intensa e coesa quanto o Vader. Pioneiros do death metal na Polônia desde 1983, o grupo possui mais de 12 álbuns de estúdio, além de vários singles e EPs do som mais infernal e sanguinário possível. Tão icônicos quanto o personagem da saga Star Wars que os nomeia, também já chegaram a gravar músicas promocionais de jogos como The Witcher e, mais recentemente, de eventos como o Mystic Festival – caso do single ‘Unbending’, que se tornou tema do famoso festival. Revisitando alguns de seus trabalhos ao longo de seus mais de 40 anos de carreira, o Vader encerrou sua turnê ‘Reign Forever in Kingdom of Blood – Latin America’ no último dia 15 de maio, na Burning House, ao lado das bandas Antrvm e LAC em uma noite de absoluta devastação.
Infelizmente por problemas no traslado do Vader de Fortaleza para São Paulo, tivemos uma mudança no horário dos shows, mas que serviu para que ninguém se atrasasse e perdesse alguma das atrações. Era uma sexta-feira turbulenta na cidade, o trânsito irritava com sua presença e muitos vinham diretamente do serviço, cansados e carregando mochilas, mas sem perder o ânimo de prestigiar os artistas.
Diretamente de São Paulo, coube ao Antrvm dar início à pancadaria. Formada em 2023 em
São Paulo, a jovem banda de death metal trouxe uma pegada mais moderna e groovada ao elenco, esteticamente mais sombria e carregada que as demais.
‘Sombria’ também foi uma das faixas presentes no repertório do grupo, falando sobre o peso esmagador do mundo do trabalho sobre a vida humana, utilizada como combustível de uma engrenagem sádica – mensagem bem representativa para todos ali buscando um pouco de lazer após uma semana inteira na correria. A apresentação dos paulistas foi marcada pela cadência e pela técnica, sem se render a qualquer tipo de tecnicismo robotizante. Exemplos são a performance visceral do vocalista e fundador
Victor Cutrale e do baterista
Kevin Bosio – que espancava seu equipamento com um semblante de tranquilidade estampado na cara. Aproveitando ao máximo seu curto espaço – tanto físico quanto temporal –, a banda se mostrou uma grande revelação no cenário do metal extremo, sabendo unir modernidade e conteúdo sem perder sua aura, no sentido empregado por
Walter Benjamin.
Após uma rápida troca de equipamentos, o LAC subiu no palco para dar sequência no ritmo ditado pelo Antrvm, apresentando seu autointitulado death metal de terceiro mundo. Com quatro álbuns de estúdios lançados desde 2005 (ano de fundação da banda), os cariocas são conhecidos na cena por suas letras afiadas e repletas de críticas aos problemas sociais vivenciados tanto no Brasil quanto no mundo afora. Dentro do gênero, o quarteto atua com um estilo um pouco mais tradicional, sem se tornar batido ou ficar no convencional – adicionando um leve gingado brasileiro e acidez à sua mistura. No repertório, uma música mais viciante que a outra, incluindo faixas como ‘Bangu 3’ (do álbum Narcohell, de 2016, e que conta com a participação especial de Marcus D’Angelo, vocalista do Claustrofobia), ‘Third World Slavery’ (faixa do álbum The Core of Disruption, de 2013) e o hino ‘Hell de Janeiro’ (também de Narcohell) - pegajoso e tragicamente cada vez mais atual. Composto pelo vocalista e fundador Jonathan Cruz ao lado do guitarrista Leandro Pinheiro, do baixista Arthur Chebec e do baterista Fernando, o LAC fez jus ao seu tamanho e seu status no underground. Muito embora o público estivesse receoso em abrir rodas (provavelmente poupando as forças para o Vader), a apresentação manteve aquecidos os espíritos naquela noite geosa e que ainda estava muito longe de terminar.
“Are you ready to burn this house?”; era chegada a hora do Vader. A pista estava cheia e todos urravam ensandecidamente conforme Peter, Spider, Hal e Michal assumiam seus postos e se preparavam para a sanguinolência. Sem frescura, abriram o setlist com ‘Sothis’, clássico do álbum De Profundis, de 1995. Uma sensação catártica e raivosa tomou conta da casa e rapidamente todos foram seduzidos pelo brutal encanto que pairava no ar; os sentimentos que até então estavam reprimidos se afloraram e rodas começaram a irromper em descargas de violência descontrolada - que mais pareciam um interminável surto elétrico. Após ‘Fractal Light’ – única do álbum Black to the Blind tocada naquela noite – seguiram com a vertiginosa ‘Wings’, um teste de stress e terror para qualquer kit de bateria.
Existem vocalistas cujos timbres são tão marcantes que se tornam inconfundíveis mesmo em meio à infinidade de artistas que o algoritmo e a indústria nos bombardeiam todos os dias. O que cantores como
Klaus Meine do
Scorpions e
Phil Collins do
Genesis representam para o rock, com toda certeza Peter Wiwczarek representa para o death metal. Cheio de expressões faciais que vão do regozijo demoníaco ao sadismo, o vocalista continua com a mesma potência vocal e presença de palco de sempre, com berros infernais longuíssimos e ainda soltando algumas palavras em um português impecável. Entre bate-cabeças sincronizados, a salva vinda da percussão e o piscar das luzes, o que se viu ao longo do show foi uma rajada ininterrupta de truculência e brutalidade - uma palavra que já é difícil de se evitar quando se escreve sobre death metal, ainda mais sobre o Vader. Duas gratas surpresas no setlist foram as músicas
‘The One Made of Dreams’ – que, junto com Wings e Cold Demons, vem do álbum
Litany, lançado em 2000 – e
‘The Book’ – última faixa do grande
Impressions in Blood, de 2006.
Estávamos diante de um massacre sonoro. À medida que a noite avançava, ficava cada vez mais claro como o Vader chegou aos seus 40 anos de carreira de uma forma tão sólida. A energia exalada pelo quarteto não era a de veteranos cansados após uma extensa campanha militar (embora estivessem no final da turnê), mas sim de uma máquina de guerra inexorável e pronta para o próximo combate. Lamentavelmente, a apresentação em São Paulo não contou com nenhuma passagem pelo excelente trabalho ‘Kingdom’ – lançado em 1998 e um dos meus favoritos –, mas tivemos a faixa-título
‘Reign Forever World’, do EP de mesmo nome. Ainda referente ao repertório, na já citada
‘Unbending’ tivemos um solo eletrizante por parte de Spider - que estava endiabrado durante todo o show - casando bem com o teor da canção. Por fim, não poderiam faltar as joias da coroa que são
‘Triumph of Death’ – do álbum Tibi et Igni, de 2014 – e
‘Helleluyah! (God is Dead)’ – esgoelada pelo público em plena comunhão diabólica.
Honrando suas influências antes de se despedir do público, tocaram seu já conhecido cover devastador de ‘Raining Blood’, do Slayer. As rodas ganharam um último gás e a banda se despediu sob o som da Marcha Imperial e segurando a bandeira do Brasil. Tão épico quanto o tema de John Williams, o Vader fez um show espetacular ao lado da fina leva do metal extremo nacional. Aqueles que foram direto do serviço para a pancadaria foram recompensados com uma noite de extrema qualidade musical, que com certeza valeu o esforço de derrotar o cansaço e a preguiça e ficará na memória como um dos grandes shows do ano.
Setlist
1. Sothis
2. Fractal Light
3. Wings
4. The One Made of Dreams
5. Reign Forever World
6. What Colour Is Your Blood?
7. The Book
8. Unbending
9. Cold Demons
10. This Is the War
11. Lead Us!!!
12. Dark Age / Carnal
13. Triumph of Death
14. Helleluyah!!! (God Is Dead)
15. Bis: Hell Awaits / Raining Blood











