Midnight (SP)

Continuando invicto com sua sequência de vitórias, o Kool Metal Fest permanece sendo o bastião da boa música e defensor do underground, seja ele do estilo que for - do punk ou do metal.

Texto por: Heitor Lamana

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Kool Metal Fest

 

Em um mundo onde o digital pode facilmente lapidar e manipular a música até a mais límpida perfeição, o que para um ouvido destreinado pode soar como erro ou barulho, para outros é uma declaração de guerra ao artificial e um manifesto da autenticidade da mente humana. Do punk ao black metal, diferentes estilos ao longo do tempo incorporaram essa crueza em suas gravações como forma de oposição a um sistema - seja ele ideológico, político ou mesmo comercial. Isto posto, no último dia 3 de maio, a Burning House foi palco de mais uma edição do baluarte do alternativo que é o Kool Metal Fest, com quatro bandas distintas se unindo em um lineup de pura devoção e expressão do underground. Apresentando as bandas Phane Punks, Velho, Whipstriker e Midnight num domingo friorento do Satanás, o evento reuniu hereges e subversivos em uma noite caoticamente erguida por muito barulho de qualidade.

 

Assim, quando os portões da casa se abriram às 17h30, os fãs rapidamente encheram a pista – tanto como forma de escapar do frio e da garoa que assolavam o lado de fora quanto como meio de garantir um lugar privilegiado para assistir às apresentações. O clima por todo o canto era de confraternização, com os músicos da programação bebendo e conversando casualmente entre amigos e seguidores sem qualquer distinção. Próximo do horário combinado, os membros do Phane Punks pararam de circular pelo espaço e se dirigiram ao palco para dar início aos trabalhos.

 

Formado em 2017 na cidade de Vancouver, o Phane tem aquele som muito característico da segunda onda do punk britânico. Sendo influenciado por nomes como Discharged e The Varukers, o grupo naturalmente usa e abusa dos d-beats, adicionando longuíssimos solos de guitarras que em outro contexto poderiam até ser virtuosos. Composta por Tim (vocal), Cordie (guitarra), Pask (baixo) e Pedro (bateria), a apresentação da banda foi condizente com seu som; veloz, agressiva e sem qualquer tipo de melindre. Rápido como um foguete, não posso precisar, mas diria que a pancadaria durou bem menos de 40 minutos, porém, entregou muito além de um simples aquecimento. Invadindo o ambiente com o mais genuíno espírito punk, os músicos saíram do palco da mesma forma que entraram – sem cerimônia –, e depois foram vistos participando nas rodas e da convivência como se fossem apenas parte do público.   

 

Diretamente da Baixada Fluminense, era chegado o momento de ouvir tormentos e maldições. Tornando-se um símbolo culto por suas letras envoltas em misantropia e alguns flertes com o horror cósmico, o Velho é um antigo conhecido da cena underground. Com 4 álbuns de estúdio e uma série de splits e EPs, o grupo vem conquistando uma legião de seguidores que verdadeiramente cultuam a banda como uma potência do black metal que é. Os maldizeres proferidos pelo vocalista Caronte junto da tempestade conjurada pelo baterista Thiago Splatter trazem um certo ar cabalístico e nebuloso ao show, que teve as primeiras rodas da noite. Nos destaques, faixas como "Retorne ao Caos Primevo" – primeira do álbum Vingando as Bruxas, lançado no ano passado – e "Cadáveres e Arte" – do disco Decrepitude e Sabedoria – levaram a plateia à histeria, seja balançando a cabeça ou participando dos moshpits dionisíacos que se faziam presentes. Mais para o final, tivemos como surpresa a participação especial de Jonathan Hellthrasher, vocalista da banda Orgia Nuclear, no hino apocalíptico "Satã, Apareça" – cantado em egrégora e euforia por todos de forma uníssona.

velho em SP

Ainda no Rio de Janeiro, tivemos a presença dos cariocas do Whipstriker preparando o terreno para a vinda do Midnight. Presentes na cena desde 2008, a banda liderada por Victor Whipstriker faz um speed metal unido ao punk regado a muito estilo e profanações sortidas. Carismático e cômico, o frontman mostrou o porquê de ser considerado uma lenda no underground com sua postura insanamente divertida, chegando a fingir lamber o ombro do seu guitarrista e soltando impropérios enquanto consertava seu pedestal (que estava apresentando problemas). Além disso, chegou a jogar cerveja na plateia aleatoriamente, arrancando risos daqueles que estavam no local. Momentos como estes se tornaram curiosos e marcantes pela forma como o ambiente se transformava a cada anúncio de música; era como se o público só pausasse a roda para ouvir o vocalista, intercalando seu humor ácido com o caos e violência do mosh – que, a partir daqui, durou até o final da noite. Honrando seu som rústico, tocaram faixas como "Troopers of Mayhem", "Lucifer Set Me Free" e a bem ilustrativa "Crude Rock’n’Roll", fechando sua louca apresentação sob muitos aplausos e euforia.

whipstriker em SP

Não faltavam dois minutos, mas já era a hora do Midnight. Nascida em Cleveland, no estado americano de Ohio, a banda estava comemorando os 15 anos do seu álbum Satanic Royalty – lançado em 2011 pela Hells Headbangers Records –, amplamente aclamado e considerado uma obra-prima tanto pela mídia especializada quanto pelo público. Tocando na convergência entre o black metal, o punk e o rock’n’roll – estilo chamado por muitos de black’n’roll – o Midnight causou um alvoroço na casa assim que as luzes se apagaram. Entrando com um dos seus carros-chefes, "Unholy and Rotten", não havia para onde correr; todos gritavam, se mexiam e balançavam ao som das podreiras. Depois de "Evil Like a Knife", começaram a tocar "Satanic Royalty" na íntegra, a começar pela faixa-título – uma ode à própria banda e aos seus fiéis.

 

Daí em diante, as amarras do caos, que já estavam meio frouxas, foram pro escambau; fãs se digladiavam nas rodas enquanto outros se jogavam como se não houvesse amanhã de cima do palco - incluindo um que, no auge da empolgação, arremessou seu boné sem pensar muito em como buscar na direção do bar. Dança, bebidas, risos, gritos – tudo acontecia por ali em meio ao delírio do show dos encapuzados. Até mesmo Whipstriker chegou a aparecer no palco, juntando-se um pouco ao microfone antes de saltar em direção à plateia. Dando uma de Motoqueiro Fantasma e laçando alguns fãs com sua corrente, o vocalista e fundador da banda Athenar estava completamente buliçoso - chegando a estourar uma embalagem com uma espécie de pó não identificado naqueles que estavam na grade e, em outro momento, brincando com um balão feito de camisinha jogado para a banda.

midnight em SP

Inteiramente composto por pedradas, não há muito do que falar do "Satanic Royalty". Repleto de clássicos como "You Can’t Stop Steel", "Rip This Hell", "Necromania" e "Violence on Violence", todo o repertório foi acompanhado por olhos e celulares buscando eternizar na memória a sua música predileta do disco. Mesmo finalizando o CD, o setlist não havia chegado ao seu fim, pois ainda tocaram mais algumas músicas como "Black Rock’n’Roll" e "Fucking Speed and Darkness".

 

Completamente bestial e insano, o show do Midnight na Burning House dificilmente será superado. Único e com uma atmosfera orgiástica – no sentido de descontrole e excesso –, o evento uniu diferentes tribos em uma experiência catártica, fraterna e louca. Continuando invicto com sua sequência de vitórias, o Kool Metal Fest permanece sendo o bastião da boa música e defensor do underground, seja ele do estilo que for - do punk ou do metal.

midnight em SP

Setlist Midnight


  1. Unholy and Rotten
  2. Evil Like a Knife
  3. Satanic Royalty
  4. You Can't Stop Steel
  5. Rip This Hell
  6. Necromania
  7. Black Damnation
  8. Lust Filth and Sleaze
  9. Violence on Violence
  10. Savage Dominance
  11. Holocaustic Deafening
  12. Shock Til Blood
  13. Endless Slut
  14. Black Rock'n'Roll
  15. Fucking Speed and Darkness


Não foi possível confirmar o setlist completo tanto do Phane Punks, quanto do Velho e Whipstriker até o momento.


Galeria - Midnight


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