Stick To Your Guns e Bane (SP)
Colisão de gerações do hardcore ocorreu em sábado no histórico Hangar 110
Texto por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Tedesco Mídia e Solid Music
Ao longo dos anos, o hardcore mudou. Muito. Com isso, cada era, cada cena, cada região teve - e ainda tem - seu som próprio. Nesse sábado, logo após o dia do trabalhador, tivemos direito a um evento histórico, que trouxe tanto o Stick To Your Guns, representante da nova geração de Orange County, na Califórnia, com um som enérgico, com floreios melódicos e refrães chicletes que remetem ao metalcorte, quanto o Bane, pilar da cena de Boston do final dos anos 90, começo dos anos 2000, que aposta numa sonoridade mais reta e direta, mas que ainda dá para cantar junto, lembrando os hinos straight edge das décadas passadas.
Antes das atrações gringas quebrarem tudo no palco do
Hangar, a abertura dos serviços da tarde ficou por conta dos goianos da
Uttara. O show foi curto, por volta de meia hora, mas serviu perfeitamente para aquecer a casa, que àquela altura já estava perto de lotar, e ainda apresentar um pouco do repertório do quinteto. O projeto ainda é recente, nascendo em 2022, e contando com apenas um EP lançado,
Chapter One: Becoming.
Sua sonoridade é um hardcore simples, mas bem feito, perfeito para abrir mosh até com a pia da cozinha, com riffs quase groovados, lembrando vagamente o início do nu metal, quando ainda era fortemente influenciado pelo HxC. Vale destacar especificamente a faixa “Ad Hominem”, ainda não lançada, que foi o auge da brutalidade do show. A galera ainda não estava completamente solta, mas logo nos primeiros acordes, já era perceptível que a banda sabia bem o que estava fazendo.
Setlist:
- What is Done is Done
- Look at Me Now
- Our Strength
- Ad Hominem
- Words to World
- Poisoning
- Give Me / Push / Step / Crush
Com o relógio se aproximando das 18h30, a energia dentro da casa mudou completamente, e quando “Take On Me” começou pelo sistema de PA, já rolava aquele clima pré-apocalíptico que só os shows de hardcore conseguem proporcionar. O STTYG subiu no palco a todo vapor, começando logo com a faixa-título de Diamond, uma verdadeira joia de sua discografia. Assim que a música começou, a pista foi tomada por um vórtice humano que consumiu a parte do meio, e o palco parecia mais um aeroporto, com a quantidade de gente voando.
O grande destaque do Stick to Your Guns não foi apenas a qualidade técnica dos músicos em cima do palco, ou sua presença contagiante e envolvente, mas também os comentários que
Jesse Barnett fazia entre uma música e outra. A essência do punk, do hardcore, é e sempre foi política, não existe punk sem crítica social, e a banda entendeu isso perfeitamente, e incorporou-os ao show de uma maneira que não parecia forçada e que se insere perfeitamente ao contexto nacional. Por exemplo, o Jesse chegou a dedicar algumas músicas ao MST, dizendo que vindo dos Estados Unidos, um país que “tirou tanto da América Latina”, ele admirava movimentos como o MST, exaltando a importância de toda e qualquer forma de resistência.
O Stick To Your Guns tem só 4 músicos no palco, mas de verdade, parecia que os fãs eram parte também, já que a banda e o público estavam em sintonia perfeita. A consideração dos integrantes com seus fãs mereceu aplausos; não era difícil ver o vocalista distribuindo garrafas de água entre as músicas, sempre preocupado com o bem-estar dos outros. Inclusive, o show teve que ser paralisado após um fã ficar desacordado por conta de uma queda de mau-jeito durante “Married to the Noise” (logo na sequência da “Empty Heads”). Visto isso, tiveram que cortar “Married” e “Keep Planting Flowers”, faixa-título do seu último álbum, que teve bastante destaque no setlist. Mesmo assim, o resto das músicas compensaram, com hinos como “What Choice Did You Give Us?” e “Amber” sendo cantados a plenos pulmões.
Setlist:
- Diamond
- Nobody
- Such Pain
- What Goes Around
- Invisible Rain
- What Choice Did You Give Us?
- We Still Believe
- Severed Forever
- Empty Heads
- Nothing You Can Do to Me
- More Than a Witness
- Spineless
- Amber
- This Is More
- Against Them All
O Bane subiu no palco com uma missão difícil: igualar a energia do STTYG. Com o tanto que o público deixou de energia no show anterior, parecia ser algo inatingível, e a própria banda reconheceu. Ainda no começo da apresentação, o vocalista Aaron Bedard mostrou transparência completa com seus fãs: “eu sei que o Stick To Your Guns fez um show incrível, é uma das bandas favoritas do Gus [produtor da Solid Music], e consigo ver que se divertiram muito, mas espero que ainda tenham um pouco de energia para despender com o Bane”.
Apesar deste desafio, a banda conseguiu driblar perfeitamente, e mostrou porque são considerados lendas dentro da cena de Boston. O começo do show foi praticamente uma climatização do público, mas a adaptação ao som do Bane não demorou, pois já em “Ante Up”, clássica do álbum Give Blood, a galera já praticamente pulava para cima do vocalista quando ele estendia seu microfone, ansiosa para cantar junto. O final, por sua vez, foi uma sequência de hits, “Calling Hours”, “Some Came Running”, “My Therapy”, “Count Me Out” e “Final Backward Glance”, uma síntese perfeita da carreira do quinteto, justificando perfeitamente o fato de serem headliners.
Era notável que a banda tinha uma conexão profunda com o público brasileiro, que ainda estava ali para vê-los, com a energia lá em cima, cantando cada palavra em uníssono, com força. Isso culminou em um momento que pareceu profundamente pessoal: o vocalista sentou-se na plataforma elevada da bateria e começou a conversar com os fãs, dizendo que se sentia honrado de estar tocando em uma casa de shows tão histórica quanto o Hangar 110, e deixando clara a importância da receptividade da cena punk, especialmente com a galera mais nova, que frequenta seus primeiros shows.
No geral, aquela noite não foi apenas uma noite de shows, mas sim, uma verdadeira aula de hardcore, uma ode à história (e ao futuro) do hardcore.
Setlist:
- Non-Negotiable
- Can We Start Again
- Ante Up
- Superhero
- All the Way Through
- Swan Song
- Calling Hours
- Some Came Running
- My Therapy
- Count Me Out
- Final Backward Glance
































