Total Chaos (SP)
O punk um dia irá morrer? Não temos como prever. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que até 24 de abril de 2026, ele continua mais vivo, inconformado e contestador do que nunca.
Texto por: Rogério SM
Fotos por: Rogério SM | Foto de capa pelo @laiglesia.sp
Agradecimentos: La Iglesia
As dificuldades e obstáculos em manter uma banda de rock são enormes mesmo quando se está no mainstream. Agora, quando colocamos tudo isso no underground a coisa aumenta 1000%. Imagine começar lá nos anos 1980 e chegar até hoje não apenas com fôlego, mas entregando cada vez mais energia e autenticidade. O Total Chaos é um exemplo dessa perseverança. Ainda que formado na Califórnia, o grupo não tem a sonoridade do chamado “punk californiano” (bem, talvez em Anthems From the Alleyway, álbum que comemora 30 anos esse ano, mas aí já é outra conversa…), indo mais naquela linha dura do punk, com riffs secos e vocais raivosos. Manter a relevância assim por dois discos seguidos já é uma tarefa hercúlea. Imagina então seguir sendo referência por quase 40 anos.
Pois o vocalista e fundador Rob “Chaos” Clawson conseguiu, de alguma forma, seguir adiante no underground com seu Total Chaos, mas sem viver apenas do nome que o grupo com méritos conquistou. Hoje acompanhado por Shawn Smash (guitarra), Miguel Conflict (bateria) e Chema Zurita (baixo), Rob segue entregando a mesma raiva e atitude, sem perder um pingo de energia. E seria isso que veríamos no La Iglesia, em São Paulo, mas a história de dificuldades do rock insiste em crescer…
De toda forma, o local não poderia ter sido mais perfeito: o La Iglesia é a casa onde o underground se sente mais confortável, tanto o público quanto as bandas. A “aura” do lugar combina e muito com o punk agressivo do Total Chaos, criando uma simbiose única entre músicos e plateia. E, como vamos conferir mais adiante, também combina com resistência e resiliência.
Antes, porém, o underground brasileiro mostrou sua cara. Primeiro, com o Distravaätravä, que faz um hardcore poderoso e sem concessões. HC direto, tradicional, com letras fortes de protesto, riffs rápidos e levada cheia de adrenalina. Com letras sem curvas, como em "Odeio Dinheiro e Foda-se a Paz", o vocalista passou a maior parte do show cantando da plateia mesmo, agitando com a galera.
Depois, o “dono da casa” participou da festa com um show do maravilhoso Jão e os Periféricos. Jão (guitarrista do Ratos de Porão e um dos sócios do La Iglesia) sofreu um acidente no começo do ano e teve fratura exposta do dedo médio da mão esquerda. Vê-lo em cima do palco, detonando seus riffs com a competência de sempre, foi, além de uma alegria, um alívio. Porém, no underground nem sempre tudo dá certo. Antes de começar a apresentação, Jão explica que Rob Chaos e Miguel Conflict não conseguiram visto a tempo para entrar no Brasil. Um balde de água fria que o guitarrista e a banda logo trataram de esquentar com um show certeiro recheado de clássicos.
"Vida Ruim", a maravilhosa "Poluição Atômica" (que está mais do que na hora de voltar pro set do RDP) e "Agressão/Repressão" levantaram o público. Jão anunciou também um mini-set do
Ratos de Porão para compensar a ausência de Rob e Miguel. Assim,
Juninho
e
João Gordo subiram ao palco para executar alguns clássicos do RDP com o baterista
Gian Coppola
fazendo às vezes do
Boka. Muito mais descontraídos, mas igualmente afiados, detonaram músicas como "Amazônia Nunca Mais", "Crianças Sem Futuro" e "Morrer". O público agitava sem parar, parecendo mais contente por presenciar em primeira mão a “volta” do RDP com Jão do que lamentando a ausência dos músicos do Total Chaos.
E assim aquele 3/4 de RDP seguiu detonando músicas pra lá de especiais do rock brasileiro, como "Beber Até Morrer". Com os fãs gritando juntos o refrão, fecharam a mini apresentação com "Aids, Pop, Repressão" e a surpresa da noite com "Asas da Vingança". Um show especial, não programado, mas que foi a primeira demonstração da noite de como o punk e o underground superam sempre as adversidades e continuam seguindo em frente, não importa o que.
A segunda demonstração dessa resiliência foi presenciarmos Shawn Smash e Chema Zurita subirem ao palco para ajustar seus instrumentos. Público apreensivo, banda também. Mas a festa sempre continua e logo vemos Edgar Avian também subir ao palco e sentar na bateria. Conhecido na cena por “apagar incêndios”, dessa vez Edgar foi mágico. O baterista, que já tocou com nomes como Toy Dolls e Cockney Rejects, topou esse desafio que a maioria dos músicos mainstream não teria coragem. E assim, como um trio, o improvisado Total Chaos entregou o que pôde para um público que estava mais preocupado em curtir as músicas. E talvez por isso mesmo tenha dado certo.
Após uma rápida explicação de Zurita, que misturava um espanhol com inglês de forma rápida, o novo “power trio” do punk já foi detonando "Voices Of The Streets" e "What You Gonna Do", que fez os presentes pogarem e gritarem o refrão a plenos pulmões. Zurita e Smash revezavam nos vocais, muitas vezes cantando juntos, para suprir a ausência de Rob. Uma tarefa que alguns diriam ser impossível, mas a atmosfera da casa mostrava que, no punk, o importante é atravessar as adversidades e seguir lutando. E aqui vale destacar de novo o talento e competência de Avian. Munido apenas de uma lanterna e algumas anotações, ele foi levando todas as músicas com agressividade e confiança.
E assim a banda foi levando como pôde um show que, em qualquer outro cenário que não fosse o underground e, principalmente o punk, jamais iria ocorrer. A energia vinda do palco encontrava uma resposta dobrada da plateia, que agitava e gritava sem parar, como foi em "Police Rat. Stage-dives"? Pode apostar! Por mais decepcionante que possa ter sido não contar com a banda completa, ninguém estava disposto a perder tempo lamentando. O grupo, inclusive, chamou ao palco um fã para ajudar nos vocais e foi ovacionado pela plateia com gritos de “Juninho! Juninho!”. Mais um exemplo de como, no underground punk, a coisa é diferente.
E assim, com mais competência do que sorte, aquela formação improvisada do Total Chaos foi levando adiante um show que tinha tudo para dar errado, mas que seguiu divertido e energético por conta dos responsáveis e também pela qualidade de sons como "Be What You Want", "Lost Boy" e "Street Punx". Desprezado por alguns por ser “simples”, garanto que muitos músicos gabaritados não conseguiriam levar um show punk adiante, muito menos nessas condições. Um show que, mesmo não sendo o que todos queriam e esperavam, não decepcionou quem ficou para conferir.
O punk um dia irá morrer? Não temos como prever. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que até 24 de abril de 2026, ele continua mais vivo, inconformado e contestador do que nunca. E forte, muito forte. Que o caos nunca deixe de reinar enquanto houver motivos para se protestar e também, claro, para se festejar.
We Are The Future. We Are The Punks!










