Ragnarök Musik Fest (SP)

Uma imersão direta aos tempos ermos dos rituais, da fantasia e da música

Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Ragnarök Musik Fest e Eddie Junior


Dentro de um extenso calendário de atividades culturais na capital paulista, não é raro acontecerem múltiplos eventos simultâneos, onde muitos deles acabam sendo verdadeiros achados de grata surpresa. Um destes casos se deu no último dia 11 de abril, no Clube A, onde estivemos presentes para cobrir na íntegra o Ragnarök Musik Fest.


O festival, que chegou à sua quarta edição, vem crescendo em tamanho e no gosto dos amantes do folk e do medieval, estando muito longe do simples início em 2023. Estandes dedicados, apresentações de encenação de lutas e danças, hidromel, comida e bebida são alguns dos principais elementos do festival, mas tendo na música seu ponto central.

alestorm em SP

Apostando em nomes nacionais para compor o casting, o Ragnarök acaba servindo não só como um momento de diversão e imersão na cultura medieval, mas também como uma ótima vitrine para bandas impactarem os “aventureiros de passagem”.


Throw Me To The Wolves

Os trabalhos do dia começaram cedo, já às 14h30, quando a banda de melodic death metal mais queridinha do pedaço subiu ao palco. Impulsionados pelo seu debut, Days of Retribution, a Throw Me To The Wolves já é recorrente em nossas resenhas, reforçando sua presença no circuito de shows.


Porém, uma coisa muito legal de reforçar, principalmente para quem acompanha a banda de perto, é o notável crescimento que a mesma tem tido, vide sua primeira turnê europeia, que ocorreu neste ano, e que, mesmo assim, não faz a banda esquecer de onde veio. Seja para tocar ao lado de grandes nomes, como com o Nanowar of Steel na gringa, ou como irão fazer ainda este mês com o In Flames na Áudio, a banda, sempre com muita dedicação e profissionalismo, continua a se expor nos mais diferentes espaços, independentemente da proporção, sempre entregando a mesma qualidade — seja para 10, para 100 ou 1000.

throw me to the wolves em SP

Trazendo músicas potentes como "Tartarus", "Awakening My Demons" e "Chaos", certamente foram o lado mais viking no modo berserker do festival, com toda a agressividade, intensidade e virtuosismo presentes na cozinha da banda. O quinteto formado por Gui Calegari (guitarra), Diogo Nunes (vocal), Maycon Avelino (bateria), Fabrício Souza (guitarra) e Fábio Fulini (baixo) trouxe ainda um pedaço da Terra Média com "An Hour of Wolves" e até mesmo a fúria das terras gélidas com um energético cover de Amon Amarth com "The Pursuit of Vikings", com direito a uma brincadeira entre Diogo e Gui que puxava riffs famosos, cortando a fala do vocalista até o início da música.


Devo confessar que a acústica do espaço não era a das melhores para um som tão intenso, com pedal duplo e guitarras dobradas, em alguns momentos dificultando um pouco a propagação do som, mas longe de ser algo que comprometeu a apresentação, ou que pareça ter sido uma questão para os presentes, que conforme chegavam, sempre abriam caras e bocas de surpresa conforme estavam sendo impactados pela primeira vez com a banda.


O dia estava só começando e podiam não ser muitas as cabeças presentes, mas estas se faziam vistas. Vibrando, pulando e até abrindo uma singela roda, quem chegou cedo se impressionou com a qualidade da performance (e do merch) que a banda sempre entrega. Um jeito muito animado de iniciar as festividades.

throw me to the wolves em SP

The Heathen Scÿthe

Antes do início da próxima atração no espaço interno, tivemos no externo os mais diversos momentos de entretenimento, contando desde danças performadas por Natália Borges até uma intensa competição de Esgrima Histórica, belamente conduzida por uma equipe de árbitros e seus disputantes, em uma acalorada justa que se deu pelo tempo do intervalo.


Feito isso, era a hora de nos voltarmos para o espaço interno, que daria lugar ao mais antigo (e futurista) rito pagão da atualidade. Com um público já mais concentrado, Yesod (baixo), Malkhuth (bateria), Netzah e Hesed (guitarras), Hokhmah (teclados) e Da’at (vocal) derramavam todo o simbolismo e a lore da The Heathen Scythe sobre um público extremamente animado e pronto para embarcar nos cânticos e na ritualística da banda.


Interessante notar que, ao incorporar arquétipos, a execução e a performance se mantiveram de alto calibre e caracterizadas, mesmo contendo três substitutos ocupando suas fileiras devido a problemas de agenda dos membros originais.

the heathen Scÿthe em SP

Aqui vale notar que, sendo uma banda com mais camadas sonoras e uma produção maior, senti as limitações da estrutura um pouco maiores, com um som talvez um grauzinho mais alto do que deveria estar, mas igualmente não aparentando ser um problema para as já mais cabeças empoleiradas que se colocavam ao longo da pista pelo show.


Passaram pelos seus principais singles e EP, da imponente e antêmica "The Magus", a potente "Into the Fire" e a melodiosa "The Heathen Scÿthe", a banda ainda passou por um repertório de músicas que vão compor seu álbum debut, dando um belo gosto para os fãs do que está por vir.


Sempre curioso o quanto não importa onde estão — seja em um evento medieval, seja na Ásia (de onde acabaram de voltar) — a The Heathen Scÿthe sempre para e rouba a cena, mas não por um elemento específico, e sim pela somatória deles. Seja na composição e parede sonora que permite a adição dos mais variados elementos e estilos que, de alguma forma — talvez a dos ancestrais — funcionem junto aos refrões chicletes e no vestuário, reforçando a clara dedicação dos integrantes, o resultado é sempre o mesmo: sorrisos, pessoas impressionadas, câmeras para o alto e sempre uma galera disposta a entrar para o sacrifício — digo, para o ritual — não! Para a imersão do show proposta pela banda.


Ainda que sendo uma banda de retorno ao festival, impossível imaginar uma edição sem a presença marcante e o conceito único que certamente prende a atenção de qualquer amante do medieval.

the heathen Scÿthe em SP

Taberna Folk

Para os sobreviventes dos ritos pagãos, não houve tempo para descanso. Se do lado externo a Luta Ordo Draconis Belli impressionava pelas encenações de batalha, fazendo escudos, espadas, lanças e adagas se chocarem contra a armadura de latão, do outro, um quinteto muito conhecido no circuito medieval se aprontava para transportar os presentes para as tavernas e os tempos antigos.


Impossível ser do meio e não ter ouvido ao menos uma vez o nome Taberna Folk, que desde 2008 agracia os palcos em que pisa, aquecendo o coração e colocando os pés e mãos do público para trabalhar. Com Karina Moreno (percussão e voz), Henrique Romagnolo (violão, bandolim e voz), Bardo (violino, harpa, banjo e voz), Hugo Taboga (percussão e voz) e Ricardo Amaro (voz, violão, flauta, mandola e gaita de fole), a banda sempre executa com maestria músicas típicas, apresentando o folk em seu estado mais puro, simples e belo.

taberna folk em sp

De "Fee Ra Huri" a "Drunken Lullabye" e "In Taberna", a músicas icônicas como "Sieben", fique você encantado pela versatilidade dos músicos e de seus mais diversos instrumentos, ou eufórico ao ponto de não se aguentar e bater com mãos, pés e se pôr a dançar — seja pela sutileza de Karina, seja pela excentricidade de Ricardo tocando flauta com o nariz —, não tem outra palavra para sintetizar o show do Taberna senão uma verdadeira grande festa.


O ritmo contagiante, simples e bonito cativava, aproximava e esquentava, sendo muito provavelmente a banda que mais tenha se enquadrado dentro da proposta de um imergir profundo na cultura medieval. Não à toa, chegara um momento em que um trenzinho humano corria por entre os presentes, a cada minuto aumentando seus vagões entre pessoas com roupas de bandas, roupas típicas, fadas, duendes, bruxas e afins.


Com uma boa e gelada caneca de cerveja à mão e com aquele som que enaltece os espíritos, o saudar do cair da noite veio de forma mágica para quem estava dentro desta grande e animada taverna.

taberna folk em sp

Toca na Terra

Simultaneamente, do meio para o fim do set do Taberna, rolava do lado de fora outra apresentação igualmente contagiante, que talvez fosse o equivalente aos bardos visitantes que colocavam seu chapéu no centro da cidade para impressionar os transeuntes.


O duo formado por Camila Fracchetta (violino/voz) e Diego Fioroto (ukelele/voz) com certeza provou que não precisa de muito para se dar um belo show. “Folkeando” grandes clássicos do rock, metal e músicas famosas, eles estão aí para provar que, muito antes das IAs, a criatividade humana consegue transmutar as músicas da forma mais orgânica, fluida e interessante possível.

toca na terra em sp

De Iron Maiden a The Animals, Shaman e The Beatles, quem passava parava e ficava para agarrar o amiguinho do lado e cantar a plenos pulmões os diversos hits da cultura pop que eles trouxeram para agitar a galera.


Simplesmente na medida, porém sendo outro conjunto que inspira essa energia medieval. Uma pena que, justamente os dois mais “medievais”, acabaram por disputar um pouco de atenção.


Mas no fim, até que deu certo, pois o fluxo constante (e que aumentava) de pessoas acabou por fluir bem e, certamente, assim como os rufiões que deixaram suas moedas de ouro para o taberneiro do lado de dentro, a algibeira do duo saiu farta após sua apresentação, vide os inúmeros aplausos que rolavam da galera.

toca na terra em sp

Tuatha de Danann

Com o término da última apresentação do lado de fora, todas as atenções começaram a ser voltadas para o palco principal, que se preparava para receber os grandes headliners da noite — mas não antes de uma última apresentação de tirar o fôlego da companhia Symbios, com uma dança coordenada e ritualística de impacto visual simplesmente arrebatador.


Após isso, próximo do horário marcado, subiam então ao palco Bruno Maia (vocal, guitarra, mandolin e flauta), Giovani Gomes (baixo e vocais), Raphael Wagner (guitarra e vocais), Guilherme de Alvarenga (teclados) e Nathan Viana (violinos), com um substituto de última hora na bateria para Rafinha Viana, que se ausentou devido a um acidente (mas passa bem!).


Dali em diante, todo o Ragnarök foi conduzido para a terra dos duendes, das festas e para um lugar onde nada de ruim acontece. Em uma proposta de celebrar os 30 anos de estrada da banda, passaram da auto-intitulada de 99 com "Us", até The Nameless Cry, com o melhor que o folk e o folk metal podem oferecer.

tuatha de danann

Uma das principais instituições do tema em nossas terras — e certamente uma que tem menos reconhecimento do que deveria —, o clima foi o de mais pura festa, em um repertório que contou com "Believe Is True", "The Dance of the Little Ones", "The Last Words" e" Warrior Queen", uma viagem no tempo em que coube tudo: dança, bate-cabeça, canto coletivo e tudo que uma boa e bela baderna pede.


Se a banda animou com o repertório, o público, mais ainda. Aquele tipo de fã ávido, que sabia todas as letras de cabo a rabo, cantando no grito, a plenos pulmões, daquelas que dava para ver que até ligeiramente deixavam os mineiros sem jeito, mesmo após tantos anos de uma relação próxima com São Paulo.


Sempre da forma mais orgânica, despojada e tranquila possível, Bruno do seu jeito engraçado naturalmente fazia piadas, fosse para mostrar o lado mais "artesanal" da banda com o setlist escrito à caneta, ou fazendo um comentário ou outro à medida que as afinações dos instrumentos pediam seu tempo. Não sei se é o "jeitinho mineiro", mas é interessante o quanto a banda faz você se sentir como se estivesse assistindo a um show de bons amigos. É aquele famoso, "gente como a gente".


Curioso pensar também que um festival que carrega o nome do apocalipse nórdico viu em seu fim um de paz, de alegria, de esperança por dias melhores e de celebração, em um sentimento de comunidade e união. A passagem do Tuatha foi uma bem da alegre, que selou mais uma boa edição do Ragnarök, na expectativa de que continuem a promover esse tão necessário movimento de celebração, exposição e perpetuação da cultura medieval no Brasil.


E que o público, é claro, reconheça cada vez mais a importância de colar e fortalecer esse tipo de cena — que sabemos o corre doido que é para conseguir colocar tudo de pé. Skal!

tuatha de danann em sp

Galeria - Ragnarök Musik Fest