Angra Reunion (SP)
Bem-aventurados aqueles que estiveram neste dia e que podem dizer ter feito parte deste momento.
Texto por: Rato de Show
Fotos por: @MarcosHermes
Agradecimentos: Honor Sounds, Bangers Open Air e Agência Taga
Para muitos, a semana pós-Bangers foi uma regada de analgésicos, sentimentos de depressão pós-show e malabarismos bancários tanto pelas contas por vir quanto pelas novas a serem feitas. Porém, para aqueles inseridos no circuito paulista de shows, os resquícios do Bangers ainda se faziam muito presentes pelos side-shows que aconteceram ao longo da semana.
Do Nevermore, Crypta e Lucifer, havia um outro nome que continuava a causar burburinhos, ainda mais após sua “estreia” — ou devo dizer, reunião — nos solos do Memorial da América Latina, que ficou marcada por um “bis” no Espaço Unimed na última quarta-feira (29) de abril.
Falo, é claro, do show especial anunciado do Angra Reunion, o formato que parou a internet ao trazer Edu Falaschi, Aquiles Priester e Kiko Loureiro em uma proposta de reunião da formação Nova Era junto a Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli que, ao contrário do que muitos possam falar e torcer o nariz, rendeu casa cheia no Bangers, provando a força do metal nacional, seguido de um show sold out para cerca de 9 mil pessoas.
O feito por si só já era gigante. Mas confesso que, ao adentrarmos a casa em seu horário programado, não pude deixar de me pegar pensando no desafio que a trupe do “Angraverso” teria pela frente, com a missão de causar um segundo impacto de algo que tinham acabado de fazer com mais produção, mais grandiosidade e até mais pessoas.
Adianto que, posteriormente, durante o show, ao ser perguntado pela banda quantos ali tinham ido ao Bangers versus aqueles que estavam vendo a formação da reunião pela primeira vez, a maioria esmagadora dos que optaram por estar apenas lá, ao invés do Bangers, fez primeiro com que eu me sentisse burro pelo meu questionamento anterior e, em seguida, reforçou ainda mais a força que o nome Angra carrega em termos do metal nacional.
Quanto aos demais pontos, sim, a produção, ainda que muito próxima do show do Bangers, era ligeiramente reduzida (no que se refere principalmente aos rojões e efeitos) e tinha também o fato da apresentação não contar com Fabio Lione, que havia realizado seu último show com o Angra no Bangers. Mas, em contrapartida, fomos agraciados com um show muito maior e, diria, até mais especial naquela noite.
Em seu início, ou
Ato I, tivemos uma sequência similar, com a entrada triunfal de
Alirio Netto
chegando com “Nothing to Say”, seguido de “Angel’s Cry” e “Tides of Changes I” e “II”. Aqui, a diferença fundamental foi na execução contínua por Alírio, onde, ainda que talvez da perspectiva do fã possa levar um tempo até se habituar com o vocalista e se desvencilhar da “era do Mago”, é inegável que o novo vocalista não precisava de esforço para engajar com o público e trazê-los para seu lado.
Um verdadeiro showman, talvez fruto de sua experiência com o teatro, Alírio traz esse lado mais interpretativo, dramático e de quem sabe o que faz e o momento em que faz para criar gatilhos de proximidade, conexão e entusiasmo com aqueles que o veem. Visivelmente mais à vontade, mais confiante e mais ligado com a banda, a evolução do grupo de um show para o outro era realmente impressionante, como quem passa a ideia de estarem fazendo isso juntos há mais tempo do que realmente estão.
Após uma segunda (contando o Bangers) interpretação de “Wuthering Heights”, que ao contrário do que os críticos de internet possam comentar, é sim uma bela e digna interpretação, daquelas que irão impactar sempre que tocadas, e passando por “Carolina IV”, tivemos ainda o primeiro gostinho da “novidade” com “Make Believe” e, para a surpresa de alguns, “Waiting Silence”, música de Edu inclusive tocada pelo mesmo no final de semana, mas que aqui fora interpretada por Alírio em máximo respeito. Tivemos também um intenso e energético solo de bateria por Bruno Valverde, provando o quão diferenciados são os músicos do nosso país. Ainda que presentes os demais membros e fazendo um belo trabalho, estava na cara que aquele primeiro momento era o momento de Alírio, expansivo, correndo toda a extensão do palco e sempre esboçando um sorriso no rosto.
Quando as “cortinas caíram” e o telão pouco a pouco começou, através de imagens e da crescente orquestração de “In Excelsis” ao fundo, a revelar que havia chegado “o momento”, mesmo vendo uma segunda vez em poucos dias, a sensação era a de completo fascínio gerada pela silhueta de Kiko, Edu, Aquiles, Rafael e Felipe na meia-luz — ao técnico de luz posso só tirar o chapéu.
A euforia ia ao teto e os fãs pareciam incrédulos com a “viagem no tempo” que estávamos passando ao ver a formação de uma geração e cantar junto músicas como “Nova Era”, “Acid Rain”, “Rebirth” e “Heroes of Sand”. A dinâmica do quinteto em sua simplicidade era algo que soava como quando não se vê aquele bom amigo há muitos anos, por motivos que nem se lembram mais ao certo, e parece que se retoma a conversa como se nada tivesse acontecido.
Edu em seu carisma singular, sempre brincando com seu jeito despojado; Kiko e Rafinha se complementando entre riffs e solos, nas caras e bocas e no movimento mútuo na proeza e agilidade do som; sem falar em Andreoli com seu gingado e toda a malemolência acompanhando do "Polvo" que se colocava atrás dos pratos em toda sua potência.
Era o Angra. O Angra que os mais velhos aprenderam a gostar e que os mais novos conheceram, bem ali, em carne e osso.
Praticamente tocado na íntegra,
Rebirth teve “Unholy Wars”, “Judgement Day” e “Running Alone” como presentes aos fãs que estiveram por lá, celebrando, revisitando e curtindo cada segundo. Tivemos ainda, assim como no ato anterior, outro eletrizante solo de bateria, desta vez protagonizado por Aquiles, que demonstrou toda a experiência, fúria e técnica, mostrando que não fica para trás da nova geração e que segue sendo referência em seu ofício. E claro, não podia faltar “Bleeding Heart”, com aquela saudosa referência ao
Calcinha Preta, interpretada de forma bilíngue por Falaschi, mas que aqui confesso que chegou uma hora em que até confundiu a mente sobre como seguir na interpretação, rs.
O Ato III, já caminhando para o nosso finale, começou com desafios. Rafinha teve problemas com seu instrumento, mostrando sinais de frustração, mas que se dissiparam após o problema ser resolvido. Alguns minutos daquele silêncio que para uns pode soar constrangedor, mas que são importantes de serem apreciados por revelarem a natureza orgânica e real da apresentação.
Ajustado o problema, seguiram com “Reaching Horizons”, da demo de mesmo nome de 92, que serviu como uma forma de limpar o paladar e ancorar o público após a bomba de dopamina do ato anterior. Uma interpretação sóbria, honesta e, principalmente após a falha técnica anterior, vulnerável, perfeita para servir como ponte para a homenagem a
André Matos
que corria pelo telão junto a “Silence and Distance” e quase a formação
Nova Era, porém com Valverde junto a Barbosa.
Aqui, já podendo ver a dinâmica do “passado” e “presente” juntos, a sensação que se tinha era a de uma grande família que, como qualquer outra, é barulhenta, pode soar até bagunceira, que tem seus desafios, dissabores e questões, mas que no fim do dia é unida. Que protege e defende os seus. Era isso que parecia acontecer conforme estes interagiam entre si com seus instrumentos e vozes em uma grande homenagem ao Maestro.
“Late Redemption” manteve a energia, invertendo apenas os bateristas, mas só temporariamente, até a chegada de “Carry On”, a grande cereja do bolo que trouxe todos os músicos ao palco ao mesmo tempo, no que foi uma última bomba de energia para a casa lotada que pulava, chorava e gritava a plenos pulmões junto à banda conforme estes davam o melhor de si.
Impossível não destacar, no meio de toda a cacofonia que rolava, o quão impressionante era o alinhamento perfeito entre Valverde e Priester, em pé de igualdade, ritmo e tempo entre cada batida. Ao som de “Visions Prelude”, os músicos, em completo êxtase e felicidade pelo momento, se abraçavam, mas logo em seguida estavam lá com aqueles que realmente importam: os fãs. Entre acenos, palhetas, baquetas e sorrisos, independentemente de qualquer coisa, o legado do Angra segue vivo e de vento em popa.
Ainda que sendo um momento para celebrar o passado, mas de olhos bem vivos para o futuro, a banda, que inclusive já tem um vasto calendário pela frente, mostrou que nunca sabemos o dia de amanhã e que é justamente onde mora este inesperado que a beleza da vida e das surpresas pode surgir.
Bem-aventurados aqueles que estiveram neste dia e que podem dizer ter feito parte deste momento.
Setlist
- Nothing to Say
- Angels Cry
- Tide of Changes – Part I
- Tide of Changes – Part II
- Lisbon
- Vida seca
- Wuthering Heights (cover de Kate Bush)
- Carolina IV
- Drum Solo
- Make Believe
- Waiting Silence
- Nova Era
- Millennium Sun
- Acid Rain
- Heroes of Sand
- Unholy Wars
- Rebirth
- Drum Solo
- Judgement Day
- Running Alone
- Bleeding Heart
- Ego Painted Grey
- Spread Your Fire
- Reaching Horizons
- Silence and Distance
- Late Redemption
- Carry On











