Dale Crover (SP)

"Normalmente quando um show é muito bom, sempre recomendo no final dos textos a quem for fã da banda, tentar assistir o artista na próxima vez que ele viesse ao Brasil, mas infelizmente esse show provavelmente nunca acontecerá de novo, virando uma memória histórica na cabeça dos sortudos que estiveram lá."

Texto por: Eduardo Domingues

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


O Brasil é um lugar muito interessante quando se trata de shows. É difícil, se não impossível, pra certos artistas conseguirem vir para o nosso país, por diversos motivos. Falta de público, problemas pra trazer estrutura, entre outros. Mas, ao mesmo tempo, diversas vezes acontecem alguns shows lendários no país, shows que são raros até de acontecerem lá fora. Na quinta-feira do dia 25 de junho, eu pude presenciar um desses shows lendários.


O show que estou falando aconteceu no bar Porta, que fica em Pinheiros, e se trata de ninguém mais que Dale Crover. Se você não lembra quem é esse homem pelo nome, me permita refrescar sua memória. Ele é conhecido principalmente por ser o baterista do Melvins, mas também já tocou previamente com Nirvana, sendo um amigo de infância do Kurt Cobain, Altamont, Men of Porn, e atualmente faz parte do Sleep e do Redd Kross, que por sinal é o motivo de ele estar no Brasil. A sua carreira é ainda mais extensa, mas esses nomes são suficientes para mostrar o nível de talento de importância de Dale no meio musical.


O show foi anunciado com poucos meses de antecedência, pelo Instagram da Cecília Cultural, e causou um certo barulho entre os fãs de música pesada. O show não chegou a esgotar os ingressos, mas ainda assim lotou o bar em uma quinta-feira fria e chuvosa.


Para iniciar a noite, chamaram para abertura o duo brasileiro Qmar, que leva uma pegada de jazz experimental com elementos de post-rock e post-punk. O duo é composto pela Paula Rebellato e por Cacá Amaral, músicos já ativos na cena underground brasileira em projetos como Rakta e Rumbo Reverso.

E depois de assistir ao show do Qmar, posso afirmar que a escolha de abertura foi perfeita. Além de o som ter combinado perfeitamente com o estilo musical da carreira solo de Dale, a performance foi extremamente energética e cativante.


Eles chamaram o saxofonista Oscar Cuca Ferreira para participar em algumas músicas, e casou perfeitamente com a atmosfera do show. A performance dos 3 chegava a ser hipnotizante, com Cacá arrebentando na bateria, e Paula tocando teclado e cantando com uma paixão que você sabe que eles amam a música que fazem. O Qmar é um daqueles artistas que você normalmente descobre ao vivo, e depois que descobre, fica com raiva de você mesmo por nunca ter ouvido antes. O show deles acabou com uma forte salva de palmas, completamente merecida.

Depois de tirarem o equipamento do Qmar, começaram a ajeitar tudo para o show de Dale, o que foi relativamente rápido. Seu show, por ser mais focado em sua carreira solo, é uma performance acústica, apenas com Dale no violão, tocando e cantando. E quando chega a hora do show, Dale simplesmente passa pelo meio do povo em direção à plataforma do palco, pega seu violão, dá uma leve afinada, e então inicia seu show.


E quando Dale inicia seu show, você entende o motivo do pôster do evento colocarem ele como se fosse um mago com seu violão. Ele é um mago. Ele iniciou o set com uma música de seu segundo álbum, Rat-A-Tat-Tat!, “I Can’t Help You There”.


Era visível o quanto todos ali estavam atentos e admirando cada segundo do set. E Dale, mesmo sendo um tiozinho com uma cara meio fechada, mostrou que é bem simpático, e que só tem cara de ser rabugento. Volta e meia parava para conversar com a plateia, contar algumas histórias, e fazer algumas piadas.

dale crover

A maior parte do set foi de músicas de seu álbum solo mais recente, Glossolalia, que foi explicado pelo próprio Dale como uma palavra utilizada para descrever o ato de falar em línguas. O álbum lembra o som das bandas de grunge e rock alternativo – afinal, ele é um dos pioneiros do gênero – que são gêneros que combinam perfeitamente com essa pegada acústica.


Mais pro meio do set, ele anunciou que ia tocar uma música que ele havia escrito com Jeff Pinkus do Butthole Surfers para o álbum do Melvins, Pinkus Abortion Technician, o que já deixou todos animados só de ouvir que algo do Melvins entrou no set, e acabou brincando que ninguém deveria ficar animado, pois a música não parece nada nem com Melvins, nem com Butthole Surfers. Mesmo assim, quando deu início a “Flamboyant Duck”, havia algumas pessoas cantando junto com ele. A empolgação foi tanta que levou ao comentário de algum fã: “VOCÊ PARECE O BOLSONARO, MAS TOCA MUITO!”.


Deu sequência à faixa-título de seu próximo EP, “Get Yer Ba-Ba’s Out”, nome de possível referência ao Blind Boy Fuller, que possui a música “Get Your Ya Yas Out”, e inspirou o nome do álbum ao vivo dos Rolling Stones. Essa foi a estreia da música mundial, sendo a primeira vez que algum público chegou a ouvir o material, o que acabou me deixando completamente desligado de tudo por um momento, para focar mais na faixa nova.

dale crover

Eu particularmente amo a carreira solo de Dale. É bem diferente, e é um som que me agrada, especialmente pra ouvir nessas tardes frias que estamos tendo atualmente, e uma das minhas músicas favoritas é a “I Waited Forever”, do já citado Glossolalia. Então, quando os acordes da faixa se iniciaram logo em seguida, devo admitir que me emocionei um pouco com a mágica de Crover.


Perto do final, Dale começou a contar como ele participou de um clipe do Neil Young nos anos 90, fazendo o papel de “young” Neil Young no clipe de “Harvest Moon”, e sobre como ele dirigiu – e bateu – o carro de Neil. Então, quando ele lançou seu cover da música algumas semanas atrás, não foi apenas uma escolha aleatória de música que ele gosta, foi algo mais pessoal em sua carreira. E, dito isso, ele iniciou seu cover da música, que levou a casa inteira a cantar o refrão junto. Na sequência, já emendou “The Bit” do Melvins, uma das faixas favoritas dos fãs da banda, que encerrou a noite com chave de ouro.

dale crover

O show foi mágico, e mostra como o público brasileiro está ansioso para um novo show de Melvins em terras brasileiras. Dale prometeu que vai tentar convencer Buzz e Stephen a trazer a banda nos próximos anos. Espero que aconteça mesmo, pois a única vez que vieram, em 2008, eu ainda ia fazer 4 anos, então é meio difícil de ter visto a banda.


Normalmente quando um show é muito bom, sempre recomendo no final dos textos a quem for fã da banda, tentar assistir o artista na próxima vez que ele viesse ao Brasil, mas infelizmente esse show provavelmente nunca acontecerá de novo, virando uma memória histórica na cabeça dos sortudos que estiveram lá. Dito isso, se por algum milagre ele voltar ao Brasil com show solo, você PRECISA ir. É uma experiência imperdível de um dos melhores músicos vivos.


Setlist:

1.   I Can’t Help You There

2.   Doug Yuletide

3.   Rings

4.   Jane

5.   Spoiled Daisies

6.   Flamboyant Duck (Melvins Song)

7.   Get Yer Ba-Ba’s Out (New Song)

8.   I Waited Forever

9.   I Quit

10. Little Brother

11. Kitten Knife

12. Harvest Moon (Neil Young cover)

13. The Bit (Melvins Song)

dale crover

Galeria de Fotos


Outras coberturas

Cobertura: Marcão Britto e Thiago Castanho CBjr (SP)
Por Chato de Show 12 de junho de 2026
Após algumas turnês de sucesso, os guitarristas decidiram simplificar a fórmula e celebrar um dos projetos mais emblemáticos da banda, o CD acústico.
Cobertura: Venerus  (SP)
Por Chato de Show 12 de junho de 2026
Atração da 3ª Semana da Música Italiana mostrou a verdadeira versatilidade da música milanesa contemporânea.
Cobertura: Cult of Fire (SP)
Por Rato de Show 28 de maio de 2026
Uma enorme mesa adornada com estatuetas, incensários, flores e frutas diversas aparecia diante de nós, além de tapeçarias com imagens da deusa Kali.
Cobertura: Vader (SP)
Por Heitor Lamana 26 de maio de 2026
Sob o som da Marcha Imperial, tão épico quanto o tema de John Williams, o Vader fez um show espetacular ao lado da fina leva do metal extremo nacional.
Cobertura: Vapors of Morphine (SP)
Por Rato de Show 23 de maio de 2026
Quando o “mais é mais” se torna a norma, seria a simplicidade o novo diferencial? Ou simplesmente um lugar de constante e natural retorno?
Por Rogério S.M. 18 de maio de 2026
"Um evento histórico que dificilmente sairá da memória dos presentes."
Cobertura: Midnight (SP)
Por Heitor Lamana 16 de maio de 2026
Continuando invicto com sua sequência de vitórias, o Kool Metal Fest permanece sendo o bastião da boa música e defensor do underground, seja ele do estilo que for - do punk ou do metal.
Cobertura: Stick To Your Guns e Bane (SP)
Por Chato de Show 14 de maio de 2026
No geral, aquela noite não foi apenas uma noite de shows, mas sim, uma verdadeira aula de hardcore, uma ode à história (e ao futuro) do hardcore.
Cobertura: Thy Catafalque (SP)
Por Chato de Show 14 de maio de 2026
O post-metal europeu chega, de surpresa, em terras brasileiras, diretamente em SP.