Oliver Tree (SP)

"A sensação que ficava era a de ter vivenciado um verdadeiro privilégio. Mesmo sem saber que aquela seria a primeira e última vez que o público brasileiro iria presenciar o show, Oliver alcançava ali sua redenção pessoal, pela estreia frustrada que não ocorrera em 2022 após o cancelamento dos shows e pela alegria de finalmente ter mostrado às terras tupiniquins o seu amor e a si próprio através da música".

Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)

Fotos por: Milene Zaminiani (mizallini.jpeg)


Agradecimentos: Numb Produções e Catto Comunicações


Escrever esta cobertura não foi fácil. Como consequência, inclusive, há um expressivo atraso nessa publicação em relação ao que é costume para a Rato de Show, e não por se tratar de uma resenha de um show diferente, que aconteceu em um local pouco conhecido na capital paulista, de um gênero e de disposições a que não estamos habituados. Ainda que seja tudo verdade, o que pesa mais é saber que esta foi a cobertura da primeira e, consequentemente, última passagem de Oliver Tree pelo Brasil, no que viria a ser a sua última performance em vida.


O sentimento de tecer comentários, agora póstumos, da performance que ocorreu no último dia 06 de junho não é uma simples tarefa, pelo trabalho duplo de tentar ser verdadeiro em relação ao que foi vivido, ao mesmo tempo em que buscando honrar os últimos dias de vida de um artista que, pelo último mês e meio, povoou as redes sociais com momentos, memórias e histórias sobre sua vida.


Mais do que um monólogo introdutório e relutante, no fim, parafraseando o próprio Oliver em sua música "Cowboy's Tears", eu também não sou bom em dar "adeus", e é frustrante saber que um jovem tão cheio de vida e potencial agora ocupa os mesmos assentos daqueles que se foram cedo demais.


Saber que a "Mais uma?", expressão que você, leitor, irá compreender mais à frente, nunca mais irá acontecer, dói até mesmo em mim, apenas um apreciador e curioso sobre a persona de Oliver Tree Nickell em vez de um real fã, mas que posso dizer ter me tornado um ao longo do show. Portanto, espero, com esta, conseguir não só honrar a memória do mesmo, como também a daqueles que estiveram por lá no mês passado.

oliver tree

E por lá eu me refiro ao Studio Stage, espaço de eventos pouco usual para os frequentadores dos shows internacionais em São Paulo, mas que impressionou pelo seu tamanho e estrutura, em um evento que, mesmo sendo comentado na internet ter tido pouca visibilidade e inclusive ter sido veiculado como um momento intimista, pela hora do início do show a casa, que comporta pouco mais de 1.500 pessoas, se encontrava consideravelmente cheia, em um choque de cultura que parecia ter saído do resultado de um passeio em uma loja de brechó.


Isto porque, identificando-se com a esquisitice e bizarrice do cantor americano, as pessoas trajavam as mais variadas roupas, muitas em estilos "pouco ortodoxos", no que era também um encontro de tribos.


Do metaleiro ao gótico, ao trapper, passando pelo fã de pop e pelo hipster, todos, independentemente da idade — que também era variada, ainda que tendo em sua maioria a geração Z presente —, se colocavam em ansiedade e gritos à medida que o tão aguardado início do show se aproximava.


Próximo do horário marcado, com as luzes apagadas e o grito ensurdecedor da juventude, pouco a pouco entrava Oliver Tree, com seu icônico corte de cabelo meio tigela, meio comprido, seus óculos rosa e uma camiseta branca oversized com um boné vermelho, fazendo, claro, tributo à lendária banda de nu metal Limp Bizkit.

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Cinco segundos depois e os gritos se tornavam risadas, conforme o público ia percebendo que aquele não era Oliver, mas Amir Oosman, baterista do mesmo. Na sequência, outro sósia do cantor entrava, dessa vez com o público mais esperto, rindo também da entrada triunfal de Jmsey, guitarrista e também tecladista do trio.


Após todo o misto de humor com tensão ter sido criado, somado a um vídeo no telão que construía as boas-vindas, finalmente chegava então Oliver Tree, completamente ovacionado à medida que imediatamente iniciava o show com "Jerk", do álbum Ugly Is Beautiful (2020).


A performance era completamente orgânica, meio cômica e intuitiva, com Oliver indo de um lado para o outro, cantando e, curiosamente, fazendo muito headbang, energizando o público, mas, até ali, sem muita interação direta.


Seguiu com "Deep End", fazendo jus ao visual e passando por "Bounce" e "One & Only". Era visível que o público era composto para além das pessoas impactadas pelos seus hits que explodiram no TikTok e no Instagram, com um fiel público que cantava a plenos pulmões.


Confesso que, por um tempo, talvez como fruto de um preconceito enraizado acerca de performances que contemplam o trap e, de certa forma, o pop, foquei em me certificar da parcela entre a real música ao vivo versus o uso de playback, que bem sabemos que existe na indústria, mas que, salvo alguns usos pontuais de efeitos, a voz de Oliver sempre se fazia presente, reforçando o caráter extravagante e real da apresentação.


O medley de "All That"/"Alien Boy" foi definitivamente a primeira daquelas músicas que realmente deixaram o público polvoroso, com direito a uma dancinha bem cômica de Oliver, que continuava a ir de um lado para o outro.

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Complementar a este, seus outros dois companheiros faziam um ótimo trabalho, fosse na batida rítmica de Oosman ou no trabalho, principalmente, dos teclados de Jmzy, que acompanhava os beats, somado ao lado eletrônico pré-gravado da performance, que não quebrava nem um pouco a imersão produzida.


Imersão essa que tinha ainda o auxílio dos telões que, hora ou outra, sempre passavam clipes e vídeos do próprio cantor, em um blend bem agradável entre o jogo de luzes que percorria a casa de show.


Mas a apresentação começou a tomar realmente outra forma mais à frente, em "Cash Machine", com os fãs arremessando coisas para o palco, dentre elas, uma bandeira do Brasil que Oliver passou a usar como uma bandana em seu boné. Um segundo à frente e ele estava vestido também com uma camiseta do Brasil. Mas o selo do "abrasileiramento" só começou a dar as caras quando os intervalos entre as músicas começaram a se espaçar mais, dando espaço para momentos de verdadeira gargalhada com o músico ao longo do show, em uma conexão única com o público.


Se por um lado tínhamos o mesmo arriscando algumas palavras em português e até mesmo dizendo ser natural de São Paulo, com direito à "sua avó estar nos fundos assistindo", Oosman se provou ainda o mais abrasileirado, sabendo um português decente e servindo como um tradutor entre Oliver e o público, que correu de momentos de trocação de palavras de amor ao "ódio", com xingamentos cruzados e posteriormente em uníssono junto ao artista para com os Estados Unidos.


O clima leve, quase beirando um stand-up comedy, nunca se saturava ou se tornava excessivo, pois, no instante em que isto parecia ocorrer, outra música se iniciava e alguns bons minutos de braços ao alto, pulos e uma vibração sensacional entre público e banda aconteciam.

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O músico tinha a plateia nas mãos e sabia disso. Mas derivava daí um outro fator ainda mais interessante, que era o fato de, a todo momento, a relação soar e ser sentida como horizontal. Não parecia que era o cantor e produtor Oliver Tree ali em cima no palco performando. Não. A sensação era a de que era aquele seu amigo, que você acompanha há longa data e que fez questão de estar ali, prestigiando.


Em certa altura, passadas as palavras de amor, os xingamentos uns para com os outros (também com amor) e até xingamentos em uníssono direcionados à Argentina e aos Estados Unidos novamente, Oliver começou a se utilizar da palavra em português na qual parecia estar mais afiado, agitando o pessoal após algumas falas com os dizeres:


"Mais uma?"


O grito da plateia era o suficiente para galvanizar a banda, que entregava tudo de si, passando pelo repertório com músicas que foram de "Sideways", do novo Love You Madly Hate You Badly (2026), a "Cowboys Don't Cry", de Cowboy Tears (2022), "Miracle Man", de Ugly Is Beautiful (2020), e tantas outras.


Fosse para pedir que pulássemos, lançássemos os horns para o alto, jogássemos os braços de um lado para o outro ou até fizéssemos um mosh, entre a disputa de gritos entre os lados do público e as vaias recebidas ao chamar os brasileiros (e posteriormente corrigindo só para os homens) de feios, fosse cantando ou apenas fazendo alguma dança esquisita ao ritmo da batida eletrônica que rolava, era visível a alegria genuína de Oliver e o quanto o mesmo realmente parecia viver sua verdade em cima dos palcos.


Passando pelo grande hit "Let Me Down", seguido de "Dirty", do álbum novo, e "Hurt", também de Ugly Is Beautiful, tivemos um merecido descanso tanto para a banda quanto para o próprio público, que se recuperava da sequência ininterrupta de interações, mas que, é claro, precisou de apenas um pouco de tempo antes de todos já se colocarem a clamar pelo nome de Oliver Tree.

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Aos poucos retornando, o visual dos artistas já denunciava o que vinha por aí: com a icônica jaqueta roxa/vermelha, não demorou para que, junto ao coro da plateia gritando "C4R@LHO", Oliver entrasse rápido, em cima do clássico patinete, gritando "Te amo, Brasil!", antes, é claro, de tomar um tombo e fazer drama, dizendo que não conseguiria mais fazer o show.


Após um último — ainda que na manha — "Mais uma?", o público foi recebido pelo combo de talvez suas duas músicas mais conhecidas e virais: "Miss You" e "Life Goes On". Nem é preciso dizer que naquele momento todos se colocavam em coro a cantar, filmar e aproveitar um momento inesquecível, que inclusive teve direito a, por algum motivo, um momento de luta livre, com Oliver sendo içado ao ar e girado por um roadie.


Um daqueles momentos que não fazem sentido, mas que, até aqui, pareciam fazer sentido dentro de um show que não era para fazer sentido.


A sensação que ficava era a de ter vivenciado um verdadeiro privilégio. Mesmo sem saber que aquela seria a primeira e última vez que o público brasileiro iria presenciar o show, Oliver alcançava ali sua redenção pessoal, após a tentativa frustrada que não ocorrera em 2022, na visível alegria de finalmente ter mostrado às terras tupiniquins o seu amor e a si próprio, através da música.

oliver tree

A tragédia muitas vezes acompanha a poesia e, neste caso, o músico que conseguiria realizar seu desejo de tocar no Brasil acabara por se apaixonar tanto por nossas terras, que decidira estender sua estadia por mais alguns dias, o que nos leva até o fatídico dia de seu infeliz acidente.


Uma dor global, compartilhada por todos os estranhos, deslocados e perdidos no mundo. Mesmo agora, Oliver continua a trazer suas bênçãos e seu amor através da música. Seja através da doação de sua fortuna e de todos os seus royalties para um programa de fomento à arte, seja até mesmo pelo evento de celebração à sua vida que acontece no próximo dia 25 de julho no USCS Quarry Amphitheater e que também irá contar com uma live de transmissão.


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Oliver, foi um prazer imenso poder experienciar a sua visão de mundo e os braços estendidos que você deu ao seu público, mostrando que é possível encontrar aceitação no mundo independentemente de sua aparência.


Um privilégio ainda maior poder tecer esta breve resenha e eternizar um fragmento ou, ainda, um corte perceptivo do que foi seu último show na Terra.


Acho que, no fim, temos que olhar para o feio da vida e tentar ver esta beleza, por mais que doa, por mais revoltante e injusto que pareça, e tomar isto como movimento para nunca nos negligenciarmos, diminuirmos ou escondermos.



Pelo contrário: viver intensamente, assim como você o fez.


Setlist

  1. Jerk
  2. Deep End
  3. Bounce
  4. One & Only
  5. All That / Alien Boy
  6. Do You Feel Me? (música de Oliver Tree & Whethan)
  7. Cash Machine
  8. Sideways
  9. Death Ray
  10. Cowboys Don't Cry
  11. My Only Friend
  12. Fuck The Whole World
  13. Miracle Man
  14. Fuck
  15. When I'm Down (música de Oliver Tree & Whethan)
  16. Superhero
  17. Let Me Down
  18. Dirty
  19. Hurt
  20. Miss You
  21. Life Goes On
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