Anime Friends - Quinta
"Mostrando a força da nova geração, o primeiro dia de Anime Friends se por um lado foi conturbado, quente e lotado, por outro ele foi curioso, agitado e extremamente divertido, especialmente por provar que dizer “cultura oriental” é reduzir absurdamente a pluralidade de expressões que podem ser encontradas em seus palcos."
Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)
Fotos por: Maru Division
Agradecimentos: Maru Division e Anime Friends
118 anos separam os dias atuais da chegada do Kasato Maru ao porto de Santos, trazendo consigo as primeiras famílias de imigrantes japoneses em junho de 1908. De lá para cá, nossas terras foram muito influenciadas pela cultura que aportava, pouco a pouco tendo criado suas próprias raízes e indo muito além do Dia da Imigração Japonesa no Brasil.
Da gastronomia aos costumes, disciplina, esportes e arte, a cultura do entretenimento nipônico também chegou e caiu rapidamente no gosto do brasileiro, vendo seu “boom” principalmente nos anos 80, dos tokusatsus, produções fantasiosas com grandes efeitos práticos como Ultraman e Kamen Rider, aos animes, animações derivadas dos mangás, os comics orientais, que, impulsionados pela TV Manchete com títulos como Cavaleiros do Zodíaco, Fly e Yu Yu Hakusho, marcaram uma geração.
A chegada da era digital estreitou ainda mais esse laço, com uma distribuição e alcance ainda maiores e em diversas expressões de arte, incluindo a música. Um fenômeno que engoliu o Ocidente, de repente, nos vimos em uma realidade realmente sem barreiras e a manifestação deste interesse se traduziu em comunidades cada vez maiores e mais organizadas.
Uma, em específico, se iniciou em 2003 com o ambicioso objetivo de reunir e concentrar os amantes deste nicho em um só local, pouco a pouco se consolidando e, 23 anos depois, o Anime Friends se tornou uma das maiores referências na América Latina quando o assunto é uma convenção da cultura oriental. Um nome que dispensa comentários, que no mês de julho, anualmente, reúne dezenas de milhares de pessoas, hoje, ao longo de quatro dias, ofertando os mais diversos conteúdos: de stands de grandes marcas e artistas independentes, a painéis de conversas com artistas, dubladores, creators e músicos, a competições de cosplay, cardgames, itens de colecionadores, dentre outros.
E para aquilo que nos diz respeito e interessa, a música também é um importante pilar do festival, trazendo anualmente grandes artistas, dos mais consolidados aos em ascensão e que, claro, acabam direta ou indiretamente tocando o universo midiático, em sua maioria dos animes através de músicas de abertura e encerramento.
Neste ano, estivemos presentes cobrindo os quatro dias de festival, onde você confere abaixo o primeiro dia de evento, neste que é uma de quatro publicações contando nossas principais impressões sobre o Anime Friends, sua curadoria sonora e como foram as apresentações.
O primeiro dia de evento, para alguém caindo de gaiato, como eu, se mostrou inicialmente um grande desafio. Das boas surpresas, como o transfer gratuito, a ampla estrutura e cuidado com a sala de imprensa, aos desafios do primeiro dia e de casa cheia como na quinta-feira (02), onde em parceria com o Estado de São Paulo, parte dos ingressos foram distribuídos, em uma ação que resultou no soldout do dia.
Do lado dos desafios, sistema caindo — e, consequentemente, resultando em um atraso de mais de uma hora e meia para conseguirmos entrar pelo credenciamento —, calor extremo e um vuco-vuco danado foram os principais pontos negativos da minha experiência, mas não o suficiente para se sobressair aos pontos positivos do evento. O que interessava, estava para além dos grandes stands e artistas independentes, entre os talk-shows e os inúmeros cosplays que se colocavam a passear pelo espaço, mais especificamente na Arena AF, um super espaço dedicado a música, que para dizer o mínimo, esbanjava uma qualidade de estrutura a par de grandes festivais.
Um grande palco, repleto de um jogo de luzes de alta tecnologia e monitores de LED que, somado as diversas caixas de som, tornavam o espaço literalmente no que seu nome já denunciava, uma grande arena.
Externas a elas, o evento possuía ainda palcos menores, onde rodaram de eventos de k-pop a jams, karaokês e pequenos shows ao longo dos dias, mas que aqui nos concentraremos somente no palco principal.
Infelizmente, o atraso na entrada impediu a possibilidade de ver a banda YUYU 20, encabeçada por Luigi Carneiro e Hans Zeh, mas que já adiantando um leve spoiler, teremos uma pequena palinha destes mais à frente no último dia, com o Super Friends Spirits.
Passando à frente, chegava o Miura Jam, que animou os presentes, deixando o calor como uma sensação de fundo em contrapartida à euforia de poder cantar grandes hinos dos animes que percorreram de Naruto a Dragon Ball, passando por One Piece, Sakura Card Captors e tantos outros. É uma experiência bem diferente presenciar o peso emocional das músicas no público e consequentemente na própria banda, de forma a ser algo quase ritualístico.
Não para menos, o octeto, número surpreendente, se diga de passagem, era afiado, preciso e dentro do tempo, soando como se estivesse sendo dado um “play” no Youtube e ouvindo a música de abertura. Criando ainda uma maior imersão, não bastava ouvir, mas ao fundo do telão, se tinha ainda imagens da animação em questão sendo exibida, o que certamente foi um elemento a mais muito bem apreciado.
Na sequência, o primeiro conjunto internacional provou que nem sempre uma boa performance tem que estar vinculada necessariamente a instrumentos musicais. Isso porque Ryoji, Suzuki, Ghee e Hiroto entravam na maior marra, mostrando que o poder de uma boy band oriental não se limita somente a Coréia do Sul.
O Wolf Howl Harmony from Exile Tribe foi uma surpresa tanto por fugir - em muito - do escopo que estou acostumado a cobrir, mas pela grata surpresa de não ter sido algo desprazeroso de se ver (e ouvir). Intercalando entre movimentos, coreografias e música realmente cantada, os beats concediam ao quarteto uma atmosfera que tendo a barreira sonora dos gritos da plateia em direção ao mesmos, serviam como confirmação do sucesso.
Outro ponto, que pegou muitos de surpresa, foi pela proximidade construída com o público, devido a Ghee, ou devo dizer, Guilherme, um brasileiro radicado no Japão a muitos anos, que visivelmente tendo dificuldade em falar o idioma, mostrava domínio, entendimento e até a capacidade de ajudar seus companheiros a proferirem algumas frases, que para qualquer fã ao ouvir o “Brasil, eu te amo”, vindo do grupo cheio de sex appeal, gerava identificação imediata.
Ora indo para o inglês, ora mantendo o japonês, entre baladas, pop e até um pouco de rap, o conjunto se mostrou versátil e extremamente carismático, fazendo questão ainda de mostrarem a admiração pelo universo dos animes ao cantarem também músicas como Cha-la Head Cha-la do Dragon Ball e até fazendo um kamehameha em conjunto.
Visivelmente prontos para atacar o mercado brasileiro, tanto pela interação, quanto pelo aceite e já claramente com seu fandom também presente, os Fandangos - o melhor nome de fandom se diga de passagem - é nítido que a produção e o investimento por trás são de um profissionalismo extremo, reforçando o poder do mercado das boy bands orientais no século XI e aparentemente, abrindo as portas destas também, para o Anime Friends.
Fechando a noite, outro grupo internacional e desta vez um mais diretamente conectado ao mundo dos animes, o Burnout Syndromes mostrou o poder de seu power trio e o porque de serem uma banda da nova geração ao já chegar com os dois pés no peito do público, iniciando com a quente, rápida e energética Blizzard, abertura de Those Snow White Notes.
Seguindo com Good Morning World, abertura de Dr. Stone, o metro cúbico se tornava inabitável com a quantidade de pessoas que se aprumava para cantar a plenos pulmões, deixando uma bela impressão e um sorriso no rosto do trio de Osaka.
Aquele rock energético, cheio de refrão, mas também com um lado melódico que em alguns momentos flerta com o indie e o pop, no mais alto dos elogios, passam aquela energia meio “Malhação”, com Kazuumi Kumagai nos vocais e guitarra, Taiyu Ishikawa no baixo e Takuya Hirose na bateria, a banda mostrou muita substância, provando que a qualidade sonora vai além dos hits de animes e apresentando musicas que rapidamente caíram no gosto do público.
Agradecendo o tempo todo, bem daquele jeito nipônico, o trio quebrava de certa forma o estereotipo do japones timido e reservado, mostrando muito carisma e presença de palco, principalmente em Taiyu que corria de um lado para o outro do palco. Takuya fazia um ótimo trabalho ritimo dando cadência e Kazuumi, por sua vez, era magnético ao mostrar uma voz que ao mesmo tempo que tinha peso, era mansa.
Brincaram ainda sobre o futebol, e a desclassificação do Japão, mas deixando claro que a rivalidade ficava apenas no campo, querendo tomar o momento do show, para apresentar seu novo quarto integrante: o público.
A banda então resolveu se utilizar deste quarto membro ao ensinar a introdução de High Score Girl com um cheat code de jogos de videogame, que mais tarde serviria ainda como os passos de dança da própria música gamificada. Algo que só posso resumir como a mais pura diversão.
E falando em gamificação, ao saírem do palco e antes do bis, o aguardo veio em forma de mais interação, relacionando jogos com o fim da apresentação e o “Continue”, que trouxe outros hits como Rocket, PHOENIX e FLY HIGH!.
Mostrando a força da nova geração, o primeiro dia de Anime Friends se por um lado foi conturbado, quente e lotado, por outro ele foi curioso, agitado e extremamente divertido, especialmente por provar que dizer “cultura oriental” é reduzir absurdamente a pluralidade de expressões que podem ser encontradas em seus palcos. E isso, falando apenas de música.
Assim chegava o fim do primeiro dia, mostrando que ainda teria muito chão pela frente. E se você quiser continuar a acompanhar esta jornada, acesse os links logo abaixo.











