Eagle-Eye Cherry (SP)

Eagle-Eye Cherry salva a noite, revisitando clássicos em show para se apaixonar novamente

Texto por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Top Link Music


Você pode não lembrar do nome do Eagle-Eye Cherry, mas provavelmente já ouviu alguma música dele. “Are You Still Having Fun?” fez parte da trilha sonora internacional da novela Uga Uga, que passou na Globo em 2000, “Falling In Love Again”, foi hino dos românticos, “Save Tonight”, que não saía da rotação da MTV - e fez a Elenita (lembra dela?) se empolgar na festa do BBB10 - Eagle-Eye era imbatível nos anos 2000. Trazido pela Toplink Music, ele fez seu retorno ao nosso país após 6 anos no último dia 25 de julho, tocando no Tokio Marine Hall, praticamente lotado.

 

Pontualmente às 21h50, os americanos do Velvet Chains subiram no palco da Tokio, que ainda estava longe de sua capacidade máxima, mesmo com o público em mesas. Já conhecidos pelo público dos eventos da Toplink, a escolha de uma banda de hard rock moderno como abertura pode até soar estranha em um primeiro momento, mas como o próprio baixista, Nils Goldschmit explicou (em seu melhor portunhol), iriam fazer um repertório mais “tranquilo”. Dito e feito, enquanto a casa ia enchendo aos poucos, Chaz Terra (gêmeo perdido do M. Shadows) e o resto da banda deixavam tudo no palco, com uma presença envolvente, apesar dos pesares.

velvet chains

À medida que o público chegava, eles se animavam mais e mais, claramente exibindo uma qualidade técnica para lá de profissional. Faixas autorais como “I Am the Ocean” e sua versão da clássica “Suspicious Minds” (do Elvis) mostraram a força de um grupo que parecia estar jogando fora de casa. Até as faixas mais pesadas, que figuraram no final do setlist - como “Dead in the Head” - foram recepcionadas de forma calorosa por quem estava lá.

 

Ao todo, entregaram exatamente o que precisariam entregar em circunstâncias normais, mas simplesmente não era o público deles. Em um evento mais alinhado com sua sonoridade, como o Masters of Voices, que aconteceu na mesma casa, na semana anterior, o retorno do público certamente seria mais condizente com o que foi apresentado pelo quinteto.

velvet chains

Com a casa visivelmente mais cheia, pouquíssimas mesas vagas, assim que o relógio marcou 22h, Eagle-Eye e sua banda assumiram o palco. Desde o primeiro acorde da primeira música, o público, que antes parecia quieto, contido, se soltou completamente, gritando o nome do artista, e até soltando diversos “I love you”s ao longo da noite. Em termos do Eagle-Eye em si, ele parecia confortável, como se estivesse reencontrando velhos amigos, refletindo perfeitamente o sentimento de adoração vindo dos fãs.

 

Neste início do show, seu repertório foi bastante variado, contemplando desde faixas de Become a Light, seu projeto mais recente, lançado no ano passado, como faixas clássicas de seu primeiro álbum, Desireless, como “Death Defied by Will,”, que viu um mar de celulares ir ao ar para registrar o momento. As faixas mais novas estavam sendo bem-recebidas, sim, não tem o que dizer, mas as músicas antigas estavam em outro nível.

 

Seguindo nesta mesma linha, o primeiro momento estrondoso da apresentação veio quando o sueco iniciou “Falling in Love Again”, hino dos românticos, e uma das joias de sua coroa. O volume em que cada verso foi cantado pelo público era realmente impressionante, quase igualando a voz do próprio cantor. Geralmente, as pessoas faziam barulho entre uma música e outra, aplaudindo, gritando, tudo normal, mas “Falling in Love” teve acompanhamento ininterrupto.

eagle-eye cherry

Vale comentar também sobre a qualidade de sua banda de apoio. Seu baterista, especificamente, tocava com a precisão de um relógio suíço, sem errar por um único segundo. Os riffs de seu guitarrista, quando acompanhados pelo tecladista, serviam como a base perfeita para a voz marcante de Eagle-Eye, e seu baixista, quieto, mas carismático, era a cola que segurava tudo ali. Falando em carisma, o próprio frontman deu aulas de presença de palco, contando breves relatos e interagindo com o público antes de certas músicas.

 

Um ótimo exemplo disso veio antes de “Strong Enough”, originalmente cantada pela Sheryl Crow, onde ele contou a razão de executar uma faixa tão inesperada. Pouco antes da virada do milênio, logo após ter lançado Desireless, Eagle-Eye embarcou em turnê com a Sheryl, e ao longo da excursão, descia ao palco toda vez que tocava “Strong Enough”. Sabendo do significado da música, que explora vulnerabilidade, exaustão emocional e os desafios de amar alguém com falhas pessoais profundas, ele achou que seria interessante uma “resposta”, que veio na forma desta mesma faixa, porém, executada por um homem.

eagle-eye cherry

Pulando um pouco mais à frente, ele revelou a profundidade de sua conexão com o Brasil, destacando “Down and Out” que teve seu clipe filmado em São Paulo. A música começa narrando uma mulher que espera seu amor em uma estação de trem, mas ele nunca chega, e visto que algumas linhas de trem estiveram “Down and Out” aqui em São Paulo por conta das recentes privatizações, houve um pouco de ironia não intencional.

 

“Remember What You Did Last Night” veio na sequência, deixando de lado o fundo quase folk/country, bem tradicionalmente “singer-songwriter” de seus hits, trocando-o por uma sensibilidade pop e breves flertes com o rock, evidenciando bem sua versatilidade e evolução enquanto artista. Ele pode ser majoritariamente conhecido como “one hit wonder”, mas certamente não é um músico que se prende a um estilo só, ou só consegue fazer um tipo de música.

 

O final do show veio com uma sequência certeira de hits. Para fechar o bloco principal, “Are You Still Having Fun”, o grande hit de Living in the Present Future, e após uma saída relâmpago, voltaram com “Atlantic City”, cover do Bruce Springsteen

eagle-eye cherry

Finalmente, veio o momento que todos estavam esperando: “Save Tonight”. É até difícil colocar em palavras a verdadeira catarse que foi aquele momento. Percebendo o ânimo que já dominava a casa, o vocalista pediu para que levantassem, e de pé o Tokio Marine cantou a plenos pulmões, palavra por palavra.

 

Ao todo, o Eagle-Eye Cherry provou que ele é muito mais do que apenas “Save Tonight”, apesar de ela ser indubitavelmente o ponto alto da noite. Contemplando velhos clássicos e novos clássicos, ele mostrou exatamente por que ele se manteve no coração do povo brasileiro por todos esses anos.


Setlist


  1. She Didn't Believe
  2. Been Here Once Before
  3. I Like It
  4. Death Defied by Will
  5. Falling in Love Again
  6. Golden (cover de Pep Garnerik)
  7. Top of the World
  8. Strong Enough (cover de Sheryl Crow)
  9. Streets of You
  10. Down and Out
  11. Rainbow Wings
  12. Remember What You Did Last Night
  13. Go Simmer Down
  14. One of Those Days
  15. Are You Still Having Fun?
  16. Atlantic City (cover de Bruce Springsteen)
  17. Save Tonight

Galeria de Fotos


Outras coberturas

Cobertura: Oliver Tree (SP)
Por Rato de Show 23 de julho de 2026
A sensação que ficava era a de ter vivenciado um verdadeiro privilégio. Mesmo sem saber que aquela seria a primeira e última vez que o público brasileiro iria presenciar o show.
Cobertura: Massari Fest (SP)
Por Rato Rodrigues 7 de julho de 2026
O carisma e a presença da banda é absurdo, com todos os integrantes tocando com uma energia e animação difícil de se encontrar em shows hoje em dia.
Cobertura: Redd Kross (SP)
Por Rato Rodrigues 4 de julho de 2026
O show foi excelente, e é certo que irá ficar marcado na memória de todos os presentes ali. Um show histórico para amantes de música, que é aguardado por décadas.
Cobertura: Dale Crover (SP)
Por Eduardo Domingues 3 de julho de 2026
O show foi mágico, e mostra como o público brasileiro está ansioso para um novo show de Melvins em terras brasileiras.
Cobertura: Marcão Britto e Thiago Castanho CBjr (SP)
Por Chato de Show 12 de junho de 2026
Após algumas turnês de sucesso, os guitarristas decidiram simplificar a fórmula e celebrar um dos projetos mais emblemáticos da banda, o CD acústico.
Cobertura: Venerus  (SP)
Por Chato de Show 12 de junho de 2026
Atração da 3ª Semana da Música Italiana mostrou a verdadeira versatilidade da música milanesa contemporânea.
Cobertura: Cult of Fire (SP)
Por Rato de Show 28 de maio de 2026
Uma enorme mesa adornada com estatuetas, incensários, flores e frutas diversas aparecia diante de nós, além de tapeçarias com imagens da deusa Kali.
Cobertura: Vader (SP)
Por Heitor Lamana 26 de maio de 2026
Sob o som da Marcha Imperial, tão épico quanto o tema de John Williams, o Vader fez um show espetacular ao lado da fina leva do metal extremo nacional.
Cobertura: Vapors of Morphine (SP)
Por Rato de Show 23 de maio de 2026
Quando o “mais é mais” se torna a norma, seria a simplicidade o novo diferencial? Ou simplesmente um lugar de constante e natural retorno?