Vapors of Morphine (SP)

"Se com Dean Wareham fomos levados a apreciar a música ambiente, com o Vapors of Morphine nos tornamos parte dela."

Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Maraty, Agência Powerline e Tedesco Mídia


O que é preciso para saciar sua sede de entretenimento? De sua vontade de ver um bom show, daqueles em que você volta para casa sentindo ter presenciado um verdadeiro espetáculo que fica gravado na memória? Nos dias de hoje, vejo muito essa relação sendo construída por meio de produções cinematográficas, estádios lotados, pirotecnia e um grande apelo ao que é “instagramável”.


Quando o “mais é mais” se torna a norma, seria a simplicidade o novo diferencial? Ou simplesmente um lugar de constante e natural retorno?


Esses foram alguns dos questionamentos que me peguei fazendo após a experiência no último dia 09 (sábado) de maio, no Cine Joia, em uma concorrida noite na capital paulista, onde, em meio a tantos mil e um diferentes shows, aconteceu um que não tem outro adjetivo para utilizar que expresse tão bem a noite como mágica.


Retornando para nossas terras pouco mais de um ano depois — prova do definitivo sucesso —, o Vapors of Morphine, mescla entre tributo e continuação da história do grande nome do slow rock, Morphine, voltava para nos agraciar com mais uma intimista e energética noite. Desta vez, muito bem acompanhados por ninguém menos que Dean Wareham, cofundador do Galaxie 500, para um ato de abertura.

dean wareham em SP

Junto à sua esposa e baixista, Britta Phillips — também parceira de seu projeto subsequente, Luna — e com Roger Brogan na bateria, a aula de minimalismo da noite já começou forte, com uma leva da era Galaxie 500 com “Flowers”, “Temperature’s Rising”, “Snowstorm” e “When Will You Come Home”. A melhor forma que consigo descrever o estilo produzido pelo trio é como se, de repente, você estivesse ouvindo o que poderia ser a trilha sonora da sua vida.


Um som etéreo, ambiente, cheio de texturas, ainda que sem grandes complexidades. Um ritmo cadenciado, talvez primo distante do shoegaze, Dean e cia. geraram um impacto imediato nos presentes, onde era possível ver os corpos valseando de um lado para o outro, entrando na frequência daquele dream pop quente, convidativo e que parecia te chamar para uma jornada.

dean wareham  em SP

Para além da era Galaxie 500, tivemos outros títulos que percorreram desde trabalhos solo, como “Yesterday’s Hero”, à era Luna com “Friendly Advice” e alguns covers interessantes, como “Bonnie and Clyde”, de Serge Gainsbourg, “Listen, the Snow is Falling”, de Yoko Ono, e “Don’t Let Your Youth Go to Waste”, do The Modern Lovers. Cada interpretação, ainda que muito particular de si, parecia transitar dentro do universo sonoro de Dean, Britta e Roger, em uma conversão que, ao mesmo tempo que gerava proximidade com a audiência, não descaracterizava seu próprio som.


As interações com o público foram poucas, mas genuínas, desde Britta arriscando um breve português a Dean por vezes falando uma palavra ou outra que, em alguns momentos, era até um pouco difícil de entender. Mas esse minimalismo até nas palavras era também parte do charme da banda, que fez um belo trabalho traduzindo tudo em sensações e texturas.

dean wareham em SP

Pouco tempo após saírem do palco, o coro do público foi rápido o suficiente para fazê-los voltar, para fechar o set com estilo junto a “Tugboat”, do Galaxie 500, e um cover final para aquecer o coração com “Ceremony”, do New Order, um fechamento forte, agitado e magnético como a apresentação como um todo.


Setlist


  1. Flowers (música do Galaxie 500)
  2. Temperature's Rising (música do Galaxie 500)
  3. Snowstorm (música do Galaxie 500)
  4. When Will You Come Home (música do Galaxie 500)
  5. Yesterday’s Hero
  6. Friendly Advice (música do Luna)
  7. Bonnie and Clyde (cover de Serge Gainsbourg)
  8. Blue Thunder (música do Galaxie 500)
  9. Listen, the Snow Is Falling (cover de Yoko Ono)
  10. 23 Minutes in Brussels (música do Luna)
  11. Strange (música do Galaxie 500)
  12. Fourth of July (música do Galaxie 500)
  13. Don't Let Our Youth Go to Waste (cover de The Modern Lovers)
  14. Tugboat (música do Galaxie 500)
  15. Ceremony (cover de New Order)
dean wareham em SP

Passada essa energia leve e atmosférica, não demorou para que o também trio do Vapors subisse ao palco para, de forma tão despojada, se colocar a organizar e dar os ajustes finais em seus próprios instrumentos. Talvez reflexo do espetáculo construído em outros shows e da imagem que muitas vezes nós mesmos construímos sobre os artistas, a simplicidade e grandeza do trio começavam mesmo antes do show, com estes pequenos atos de quem se coloca em humildade, meramente como um receptáculo do próprio som.


E tão já, Jeremy Lyons (baixo e vocal), Tom Arey (bateria) e Dana Colley (saxofone e vocais) iniciavam os trabalhos com “Have a Lucky Day”, uma alusão talvez à grande boa fortuna que teríamos traduzida em uma noite memorável. E que noite! O impacto inicial — e que se decorre ao longo de um show do Vapors — é de difícil descrição, justamente por ser um tipo de som e swing que te pega na alma e em cada centímetro dos poros sensoriais.


Ainda que receba a alcunha de “slow rock” e, de fato, tenha uma cadência mais lenta e grave por um lado, por outro, associar essa ideia a um show parado ou que gere cansaço seria uma presunção das mais errôneas possíveis.

vapors of morphine em SP

Era como se um enxame de formigas estivesse sob os pés dos presentes — que, diga-se de passagem, não eram poucos, com um Cine Joia praticamente cheio —, onde muitos começavam a dançar e, fosse só pelo movimento do corpo ou dos pés, ninguém ficava parado. Ao som das melhores que o Morphine já compôs, tivemos aquelas que nunca podem faltar no set, como “The Other Side”, “I’m Free Now”, “A Head With Wings”, “All Wrong” e “Sharks”, apenas para mencionar algumas.


Espirituosos, com aquela dose de humor ácido e muito ritmo, o baixo de duas cordas, o sax barítono e a bateria monstruosa traziam uma vida que, misturada com a sensação de intimidade produzida pelo espaço, tornava fácil se pegar fantasiando estar em meio a um daqueles filmes de Hollywood, em um clube taciturno, com a banda tocando ao fundo enquanto a ação acontece por entre o espaço da casa.


E tinha muita “ação” acontecendo inclusive ao longo do show. Era curioso observar as diferentes formas que a música gerava em termos de impacto, mas era nítido que principalmente o sax parecia despertar um certo impulso sexual nos casais presentes, que vamos apenas dizer que, após esta noite, não me admiraria saber que algumas crianças irão nascer no próximo Carnaval.

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Mas não era somente uma energia latente, inebriante e de euforia provocada pelas músicas. A boemia sabia dar espaço também ao dramático, ao emotivo e ao introspectivo, como em momentos com “The Saddest Song”, “Whisper” e “Wishing Well”, músicas inclusive novas em comparação ao último setlist, assim como “Irene”, “All Your Way” e “Eleven O’Clock”.


De um carisma ímpar, Jeremy Lyons fazia uma bela interpretação do saudoso Mark Sandman, mas seu timbre, igualmente único e puxado talvez para um lado mais country e blues, via seu auge nas músicas autorais do Vapors, como em “Drop Out Mambo” e “Irene”. Fica inclusive a leve insatisfação de que mais dessas poderiam compor o set, para celebrar também o presente.


Neste movimento, vale também o destaque para Tom, que com seu semblante de tranquilidade e alegria não parece produzir a parede sonora e rítmica que o faz. Dos momentos mais calmos ao swing e às viradas rápidas, um daqueles bateristas virtuosos que, como um camaleão, sabe se adaptar e se fazer presente a cada passo da música, elevando e se fazendo à altura de seus predecessores, Bill Conway e Jerome Dupree.

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E por último — e longe de menos importante —, era impossível não tirar os olhos, o sorriso e os celulares da bruxaria sonora criada por Dana. Claramente o mais introvertido da trupe, ele transparece ser aquele tipo de pessoa que ganha vida e mostra a si mesmo através de seu dom, no caso, o quão expansiva e rica a música se torna com o instrumento de sopro.


Se mostrando igualmente competente nas partes cantadas, o membro fundador do Morphine se tornava um verdadeiro gigante, em especial no eixo final da apresentação, onde fomos levados para outra dimensão com “Cure for Pain”, “Buena”, “Souvenir” — com um solo de sax que quem não alcançou o Nirvana ali nunca mais o vai — e claro, não podendo faltar, “Radar”, aquela música que não só é estonteante, como sempre impressiona pela capacidade pulmonar de Colley ao assumir dois saxofones ao mesmo tempo.


Se com Dean Wareham fomos levados a apreciar a música ambiente, com o Vapors of Morphine nos tornamos parte dela. Fosse no groove do baixo, na parede sonora da bateria ou na altivez do saxofone, me lembro de ter retornado de minha longa viagem para casa naquela noite justamente ouvindo mais uma leva de Morphine e ainda dançando, completamente apartado do mundo e dos perigos noturnos, ainda ressoando com o ritmo da música, pelas gotas da garoa perene que caíam na noite mais fria de minha cidade, com o coração plenamente em chamas.


Viva o legado do Morphine, viva o Vapors of Morphine e a muitos outros retornos.


Setlist


  1. Have a Lucky Day (cover de Morphine)
  2. The Other Side (cover de Morphine)
  3. All Your Way (cover de Morphine)
  4. A Head With Wings (cover de Morphine)
  5. Let's Take a Trip Together (cover de Morphine)
  6. Eleven O'Clock (cover de Morphine)
  7. Wishing Well (cover de Morphine)
  8. All Wrong (cover de Morphine)
  9. Musicavi Silt (cover de Hailu Mergia)
  10. Drop Out Mambo
  11. The Saddest Song (cover de Morphine)
  12. Whisper (cover de Morphine)
  13. Sharks (cover de Morphine)
  14. Thursday (cover de Morphine)
  15. Honey White (cover de Morphine)
  16. Renouveau / Daman N'Diaye
  17. Irene
  18. I'm Free Now (cover de Morphine)
  19. Cure for Pain (cover de Morphine)
  20. Buena (cover de Morphine)
  21. Souvenir (cover de Morphine)
  22. Radar (cover de Morphine)
vapors of morphine em sp

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