The Rasmus (SP)
"Longe de mim querer glamourizar a doença ou transformá-la em um produto, mas, assim como acontece com as imperfeições, que às vezes fazem uma coisa acabar ganhando seu destaque, acredito que todas as adversidades permitiram um momento de honestidade no palco, fazendo da noite uma totalmente satisfatória."
Texto por: Rato de Show - @ratodeshow
Fotos por: Ayumi Kranzini
Agradecimentos: Opus Entretenimento
A indústria dos hits certamente vem se adaptando, mas sempre soube como produzir músicas que parecem ter nascido para marcar uma determinada época. O mais interessante é que um som radiofônico não se prende ao mainstream, também chegando ao universo alternativo, dos sofredores de preto e dos desajustados que achavam que nunca encontrariam seu espaço.
Melodias simples, que entram na cabeça e grudam como chiclete, ritmos cativantes e refrões que parecem vir acompanhados de uma sessão de hipnose, daqueles que, mesmo após semanas, você ainda fica cantarolando, são o tipo de sons que pensamos ao ligar o rádio. Mas junte isso a um rímel carregado, um par de penas pretas e uma dualidade entre melancolia e positividade e é impossível não esbarrar no The Rasmus. Uma banda que me espanta não ter um alcance maior, dado o número de vezes que passava pelo rádio durante os anos 2000.
Mesmo tendo unido os desajustados e estranhos e presenteado esse público com diversos hinos ao longo dos anos, poucas foram as vezes que esse fenômeno alternativo finlandês passou por nossas terras, tendo sido a primeira no ponto alto da banda, em 2006, e uma segunda vez após doze anos, em 2018. Em 2023, a banda chegou a fazer uma passagem pela América Latina, porém deixando o Brasil de fora, até que, em 2026, a
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tomou a oportunidade para si e acabou com a fome de outros oito anos sem as borboletas pretas pousarem em um palco nosso.
O que seria uma comemoração quase ganhou contornos tristes quando, às vésperas do show no Brasil, Lauri Ylönen (vocalista) havia compartilhado nas redes que tinha adoecido na etapa latino-americana da extensa turnê da banda, que já passava por 60 cidades, chegando, no último sábado, 31, a ter o show marcado em São Paulo remarcado para o dia seguinte, 1º de novembro. Um susto inicial que gerou frustração e receio, mas que contou com a compreensão majoritária dos fãs.
O expressivo resultado se mostrou logo no dia seguinte, com a extensa fila que dava a volta na quadra, tomada pela expectativa para o show, após a produção e a banda terem certificado que Lauri estaria melhor e que o encontro previsto ocorreria. Com fãs de todas as idades e de diversos pontos do país, assim que as portas se abriram, rapidamente a massa se concentrou em frente ao palco, em uma ansiedade que durou pouco, até que as luzes caíram para as “correntes do azar” se quebrarem.
Ao som de “Break This Chains”, do mais novo álbum Weirdo (2026), Aki Hakala (bateria), Eero Heinonen (baixo), Emppu Suhonen (guitarra) e Lauri Ylönen já chegavam dando tudo de si, com Lauri, especialmente, já trazendo muita interpretação e intensidade vocal, ainda que estivesse debilitado.
Sem brecha para grandes monólogos, a banda emplacou duas de suas principais músicas com “Guilty” e “No Fear”, joias de Dead Letters (2003) e Hide From the Sun (2005), respectivamente, quando nascia uma parede sonora da sincronia de vozes do público, que cantava a plenos pulmões. A intensidade parecia carregar os mais diversos sentimentos: de vivências do passado à felicidade catártica de ver a banda ao vivo e ao alívio de finalmente ver o show acontecer, deixando para trás, como o peso que sai das costas, o receio de um cancelamento.
Nunca teria sido tão fácil para Ylönen não precisar se esforçar tanto, já que havia um coro de vozes que poderia muito bem sobrepor a sua. Mas o profissionalismo e o carinho do músico para com os fãs falavam mais alto, e ele ia de um lado para o outro, apontando, sorrindo e cantando de um jeito meio “olho no olho”, em que você sentia que ele estava presente. Mesmo que isso tivesse um preço, claramente sentido música após música, com a queda da potência vocal, entre tosses e espirros de alguém que não queria decepcionar seu público.
E não era só no calor do público que ele tinha esse apoio, mas também em seus companheiros, que entregavam demais, fosse Eero entre o bate-cabeça e se projetando no limite do palco até os fãs, ou Emppu, subindo na elevação do palco, brandindo sua guitarra e sempre caçando alguém na plateia para cantar junto as músicas. Mesmo Aki, ao fundo, entre as batidas e o ritmo acelerado e cativante, parecia também puxar a energia da galera, reforçando um quarteto coeso e preparado.
Um ponto alto da apresentação foi o cover de “Forever Young”, do
Alphaville
(não confundir com o bairro granfino), que só no cantar junto da plateia denunciou a idade de todos, mas que se destaca tanto por ser um single lançado logo após o recente álbum quanto pelos contornos mais modernos, indo para um screamo, com breakdowns e mostrando um lado mais agressivo da banda, que, mesmo doente, Lauri fez questão de representar e mostrar que ainda tinha lenha para queimar.
Não importava se eram músicas mais recentes, como “Weirdo” ou “Creatures of Chaos”, grandes clássicos como “First Day of My Life”, “Livin’ in a World Without You” ou até mesmo “F-F-F-Falling”, clássica do álbum Into (2001): a catarse coletiva era única, sintetizada em um grupo de pessoas engajadas, cantando letra a letra, pulando, gritando, fazendo juras de amor ao vocalista ou arremessando presentes aos músicos. No geral, o ambiente estava com aquele clima perfeito, em que você sente que, mesmo se vinculando de formas diferentes, todos se encontravam em uma mesma sintonia, que torna um show menor em um verdadeiramente gigante.
Mas nada preparou o coro de vozes para a última potência feita em “In the Shadows”, música mais reconhecível da banda, que colocou o Carioca abaixo, arrancando mais elogios ainda da banda para com seus fãs, que reforçaram do começo ao fim não só seu amor e apreço, mas também a felicidade de ver todos simplesmente cantando juntos.
Nos rápidos momentos de interação, Lauri fez questão de agradecer a todos pela paciência e pela confiança, assim como pedir desculpas pelo ocorrido. Orgulhoso, comentou que a história de 32 anos de banda ainda não possui nenhum show cancelado e que, apesar de desta vez ter sido quase, o recorde se manteria.
Voltando para o bis, tivemos ainda uma versão acústica de “Sail Away”, ligeiramente encurtada, tendo somente Lauri e Emppu na guitarra, calma, apaziguante e talvez aquela em que melhor se pôde conferir o “duo” entre os presentes e o vocalista. Outro “duo” que merece destaque é a própria Emppu, que nem parece ter sido a última a entrar na banda, trazendo uma energia punk rock que parece ter sido feita para preencher as fileiras do The Rasmus.
Um show que, tão rápido quanto veio, se foi. A passagem dos finlandeses foi uma daquelas de se lavar a alma e um verdadeiro teste de constituição, tanto para Lauri quanto para o público, que acreditou até o fim na possibilidade do show. Longe de mim querer glamourizar a doença ou transformá-la em um produto, mas, assim como acontece com as imperfeições, que às vezes fazem uma coisa acabar ganhando seu destaque, acredito que todas as adversidades permitiram um momento de honestidade no palco, fazendo da noite uma totalmente satisfatória. Para os fãs, totalmente satisfeitos, resta agora apenas o desejo de que não demore outra década para o momento se repetir.
Setlist
- Break These Chains
- Guilty
- No Fear
- Rest in Pieces
- Forever Young (Alphaville cover)
- Weirdo
- Immortal
- First Day of My Life
- Creatures of Chaos
- Livin' in a World Without You
- F-F-F-Falling
- Banksy
- In My Life
- In the Shadows
- Sail Away
- Justify











