Helloween (SP)

A formação que ficou conhecida como Pumpkins United é algo mágico, independentemente do número de vezes que se tenha assistido. O talento individual de cada um é visível por si só, mas juntos, é algo verdadeiramente extraordinário.

Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)

Fotos por: Gustavo Diakov (@xchicanox)


Agradecimentos: Mercury Concerts e Catto Comunicação


Já dizia o ditado que ninguém sabe dar uma boa festa como o povo brasileiro. O estrangeiro sempre viu em nós um público mais engajado, comemorativo e intenso do que em outros lugares do mundo e aqui talvez seja justo expandir essa noção ao povo latino-americano como um todo.


Então, quando o Helloween resolveu fazer da América Latina a etapa final de sua turnê comemorativa de 40 anos, eu digo que foi de caso pensado. Que lugar melhor para dar aquele gás final, vibrar e comemorar aos gritos de milhares, do que um pedaço do continente que já serve como uma segunda casa desde a década de 90?


O resultado foi imediato. Sold out completo em São Paulo. A data, o último 19 de setembro, no Suhai Music Hall, uma casa que acabara de completar seu primeiro ano de existência, com proposta de uma infraestrutura moderna, mas que, como você verá mais adiante, tem alguns ponteiros a ajustar.


Desde cedo com a fila formada, entre as camisas pretas havia também aqueles utilizando tons de laranja e adereços que iam de jalecos, fazendo alusão à música “Dr. Stein”, e até um elaborado cosplay do Keeper, personagem tão icônico ao legado do Helloween quanto a própria abóbora do seu logo.


Dentro da casa, o preenchimento da lotação não demorou, e aqui fica um ponto positivo da disposição do espaço, que não nos deixou espremidos como latas de sardinha. Talvez, reflexo também da disposição do palco que continha uma pequena extensão em “T” e que fazia com que as pessoas se enfileirassem em um “U”.


Estendido de ponta a ponta pelo espaço do palco, o gigante backdrop da abóbora cobria o cenário, fazendo com que a ansiedade do público apenas crescesse minuto a minuto, tendo, em seus cinco minutos finais, um completo coro de vozes que gritava “Helloween! Helloween! Helloween!”.


Preces atendidas, a cortina caía à medida que “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, terminava, dando espaço para um rápido vídeo que mostrava a discografia da banda, onde só pude escutar um “estamos vivendo a história”, de alguém da plateia. E de fato, vivíamos a história, com as primeiras batidas de “March of Time”, música que não via os palcos há alguns bons anos, iniciando os trabalhos e colocando o Suhai abaixo.

Com Dani Löble na bateria, conforme Sascha Gerstner (guitarra), Michael Weikath (guitarra), Markus Grosskopf (baixo) e Kai Hansen (guitarra) entravam, os gritos ensurdecedores dos fãs eram de tamanho que disputavam tranquilamente com as vozes de Andi Deris e Michael Kiske, conforme estes se encontravam em plataformas opostas ao lado da bateria, em perfeita sincronia e em igual potência.


Essa disputa, no entanto, evidenciou um problema que teríamos pelo show, que era o baixo volume, principalmente dos microfones, que nos impedia de ouvir a dupla dinâmica em ação. Isso foi um problema para o público? Aparentemente não, já que todos estavam ensandecidos a cantar, pular e vibrar junto à banda, com os músicos correndo de um lado para o outro do palco, no desafio constante de “perseguir” com os olhos o supersepteto, que, se tivesse uma palavra para definir a síntese do clima entre as faces dos mesmos, seria nada outra senão felicidade.


Felicidade também é uma boa palavra junto à emoção que se veio logo na sequência com "The King for a 1000 Years", outra música que retornou ao setlist da banda, que, anterior a esta turnê, não via os palcos desde 2008. Para muitos ali, mesmo fãs mais ávidos dos “abóboros”, era a primeira vez testemunhando esse épico que trazia um show dentro de si, entre a teatralidade interpretativa nas vozes de Kiske e Deris, com a música crescendo aos poucos, passando da balada até a velocidade do power prog. Tranquilamente um dos pontos altos da noite logo na segunda música, que, como diz a mesma, “Eu sei os seus segredos”, e ele se chama: talento.


A formação que ficou conhecida como Pumpkins United é algo mágico, independentemente do número de vezes que se tenha assistido. Seja pelo dueto de vozes — às vezes até um trio, quando Kai Hansen entra em cena —, seja pela “conversa” entre as guitarras, o baixo estralado sempre em destaque, ou a bateria, ritmada, rápida e cheia de personalidade, o talento individual de cada um é visível por si só, mas juntos, é algo verdadeiramente extraordinário.

Isso se refletia também em outro nítido elemento, que era o carisma. Aquela sensação do “gente como a gente”, que, entre as “palhaçadas” de Michael Weikath, sempre com uma careta ou movimento estereotipado em contraste com sua cara mais apática enquanto toca, ou nas interações constantes de Andi, Kiske e Kai com o público, respondendo cartazes, acenando, dando soquinhos na galera ou simplesmente fazendo uma expressão com o rosto, o Helloween tem a grande qualidade de, ao mesmo tempo em que entrega um show digno de estádios, trazer a proximidade de um pequeno bar.


O show passou a se intercalar nas vozes, tendo seus momentos de “protagonismos”, como vimos com Deris saindo para dar espaço para Kiske cantar “Future World”, outra direta da obra-prima Keepers of the Seven Keys Pt. I, que simplesmente pedia pelo coro dos fãs, que tentavam da melhor forma acompanhar o vocalista.


Juntos novamente, tocaram a nova “This is Tokio”, que soava como um clássico pela resposta do público. Era então momento de Kiske sair, dando destaque a Andi Deris em “We Burn”, de The Time of the Oath. Sozinhos, cada vocalista se mostrava gigante por si só, com as características próprias que marcaram suas passagens individuais pela banda. Mas unidos, era algo tão natural e complementar que você entendia ali o quanto a banda ganhou desta parceria que, diga-se de passagem, só com um ‘pacto’ para preservar ambas as vozes por tantos anos.


Os momentos de “quebra” desse fluxo eram também da mais pura comemoração. Pois, se antes de Deris veio Kiske, antes ainda veio quem muitos chamam de “pai do power metal”, Kai Hansen, que assumia dupla jornada junto à sua guitarra, empregando sua voz em “Walls of Jericho/Ride the Sky”, trazendo aquele lado mais agressivo, direto, rápido e sem concessões que marcou os primeiros anos do Helloween.

Aqui, vale comentar outro fator que ajudou nessas transições e “atos” da apresentação, que foram os elementos visuais. Jogo de luzes na medida, sempre quentes e vibrantes, com telões laterais e o central servindo ora como backdrops digitais, ora como cenários animados, tendo ainda um elemento que roubou a cena, com uma animação do próprio Keeper que apareceu algumas vezes servindo como interlúdio. Um tipo de imersão cinematográfica que, infelizmente, se quebrou um pouco, já que algumas placas apresentaram defeitos, piscando e, em alguns momentos, apagando completamente.


Outro problema, talvez mais para quem estivesse nos mezaninos, foram as serpentinas arremessadas pelos canhões de confete que se prenderam aos refletores de luz do teto, criando uma “cortina de serpentinas”, como aquelas que sua avó usava para fazer a divisória da cozinha, não escondendo os integrantes por completo, mas certamente incomodando quem via de cima. E, falando em incômodo, o crescente calor à medida que as pessoas pulavam, cantavam e curtiam foi se acumulando exponencialmente, transformando o Suhai em um pequeno inferninho após poucas músicas.


Nada grande o bastante para se tornar um “grande problema”, mas bobo demais para não fazer você se perguntar como algo assim acontecia, dada a proporção da banda e da pré-produção envolvida em um evento deste porte. Mas estes não foram os maiores dos incômodos, como ouvi relatos, tanto quanto aqueles que decidiam gravar quase que o show inteiro com os braços estendidos ao seu celular, tampando algumas visões — a minha inclusa — ao longo do show.


Não foram somente os incomodados e os cineastas que se encontravam ali. Havia também os sonhadores, os corajosos e os apaixonados. Adjetivos estes que representaram talvez um único jovem, que, junto à entrada de “Into the Sun”, primeira power ballad da noite, colocava seu joelho sobre o chão para retirar uma aliança e pedir a mão de sua amada. O tipo de coisa que mostra o quão vivo um show pode ser e tantas histórias, percepções e universos diferentes acontecem em um mesmo espaço.

Falando ainda de universos, “Universe (Gravity for Hearts)”, outra de Giants and Monsters, foi outro ponto alto da apresentação. Uma das músicas mais bem escritas do Helloween nos últimos tempos, essa é uma daquelas músicas que se destacam por ter todos os elementos mais quintessenciais da banda: riffs grudentos, rápidos, solos poderosos, emoção e potência vocal, com participação ainda na ponte do Kai Hansen, acelerando cada vez mais a música. Um verdadeiro espetáculo, tão gigante quanto as grandes clássicas e que, tendo sido escrita pelo Sascha, reforça o quão habilidoso o guitarrista é, deixando-o no mesmo patamar de Weikath, de Hansen e até mesmo de seu antecessor, Grapow.


Àquela altura, todo o público se encontrava no mais puro êxtase e sem sinal de cansaço. Com direito a um solo de bateria de Dani Löble, provocando o público e mostrando o quão ágil ele podia ser, os ritmos, viradas e velocidade serviram muito bem para dar aquele respiro, e fôlego era algo importante de se tomar.


Pois, na sequência, a banda já retornava com os dois pés na porta com o riff rítmico e melódico que iniciava “I Want Out”, seu hit absoluto, que colocou todos a pularem de um lado para o outro e gritarem o refrão a plenos pulmões. E, se não havia mais fôlego após isso, uma ótima hora então para outra power ballad, que começou em um dueto acústico de Kiske com Andi e um violão, onde ambos cantaram alguns breves covers entre “Suspicious Minds”, do Elvis, e “Yesterday”, dos Beatles, antes de engatarem “A Tale that Wasn’t Right”.


A música permaneceu acústica até o solo de Weikath, simplesmente apaixonante, daquelas que te pega em admiração e que dá toda a atmosfera necessária até o retorno do refrão mais uma vez. Outra coisa bacana da música está no acompanhamento de Andi junto a Kiske, elevando completamente a música e fazendo dela outro grande ponto alto da noite.

A sensação era a de ter acabado de cantar o “parabéns” em um aniversário, onde mesmo com o bolo em mãos, sabemos que não significa que a festa acabou. O próprio Andi começava a brincar, provocando o público sobre a próxima ser a última canção, com a parede sonora de objeção que chegava até o mesmo. Ele riu, então dizendo tratar-se da última música do setlist que era do novo álbum, “A Little is a Little Too Much”, que começava a tocar com todo aquele clima leve e meio galhofa.


Dali em diante, foi só a mais pura pancadaria. Primeiro, com o retorno de Kai Hansen puxando as rédeas, agradecendo o público e imediatamente tocando “Heavy Metal (Is The Law)”, música que já havia incendiado todos novamente, só não mais do que a quase “auto-intitulada”, “Halloween”, outra música que é um verdadeiro épico teatral que colocou todos a gritarem em uníssono “it’s Halloween”.


Com um último intermission junto à imagem do Keeper no telão, a sequência “Eagle Fly Free”, “Power” e “Dr. Stein” foi uma daquelas para gastar o gogó até não poder mais. A primeira, outra icônica música interpretada somente por Michael Kiske, dando um show de voz e de humanidade até mesmo, errando algumas vezes o tempo, como já tinha feito inclusive em outros momentos do show, dando um certo charme que te faz reconhecer a importância do orgânico, do humano e do real.

O público? Cantava junto, mostrava seu suporte e amor, sem se importar um segundo. Na sequência tivemos Andi Deris sendo o destaque em “Power”, outra música que marcou sua entrada na banda e uma daquelas clássicas que nunca pode faltar no setlist. Uma rápida pausa então para comemorar um aniversário real, o de Jan Bayati, manager da banda, com direito a bolo, fecharam a grande festa com “Dr. Stein”, com o público cantando, pulando e brincando com as já recorrentes bolas laranjas gigantes que são jogadas para o mesmo.


Ainda tivemos um chorinho com Keepers of the Seven Keys a partir do refrão e o finalzinho, antes da chegada do fim. Um show que foi show do começo ao fim, sem muitas pausas para grandes diálogos ou conversas, é claro que houve aquele momento de apreço, de “Obrigado” e “Como é bom estar em São Paulo” (leia aqui com aquele sotaque forte do gringo falando em português).



Mas, curiosamente, a interação através da interpretação, da música e do repertório foi muito mais do que o suficiente para o Helloween expressar, para o público presente, seu apreço ao brasileiro, por ser o maior consumidor de sua música no mundo (segundo os dados do Spotify). Ali, cada um deixou um pedaço de si, onde só se podia sair com um sorriso no rosto e a expectativa de um breve retorno que sabemos muito bem que deve acontecer em um futuro não tão distante. Que venha 45, 50 e além para uma das principais bandas do gênero.


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