A Flock of Seagulls (SP)
"Uma catarse? Sem dúvida. Mas sem o peso da velhice, sem escapismo. Pura celebração da arte em sua forma mais rica".
Texto por: Rogério S. M.
Fotos por: Ferris Bueller (@fbueller1986)
Agradecimentos: Tedesco Mídia, Maraty Concerts e Agênicia Powerline.
Para o bem ou para o mal, a década de 1980 foi única. Arte, moda, design e comportamento tiveram, talvez, seu último respiro de pura originalidade na chamada (para nós brasileiros) de “a década perdida”. Apesar de domesticamente estarmos enfrentando uma crise econômica brutal, com inflação galopante, recessão, desemprego e colapso de saúde e educação, a cultura vivia alguns de seus momentos mais marcantes. E, claro, muito disso estava presente na música em seus mais diferentes gêneros, incluindo aí, com galhardia, o malfadado pop.
Porque se existe algo que os anos 80 proporcionaram foi uma avalanche de hits e grupos que mostravam, cada um à sua maneira, que mesmo os sons mais comerciais poderiam apresentar qualidade e relevância. Muitos desses artistas conseguiram construir carreiras sólidas, crescendo à medida que suas carreiras avançavam. Outros batalharam por um lugar ao Sol depois de um único hit.
Curiosamente, o A Flock of Seagulls está bem ali no meio-termo. Porque é inegável que o quarteto inglês estourou, de fato, com apenas uma de suas músicas. Porém, ao olharmos sua carreira, fica difícil colocá-los na categoria de “one hit wonder”. Sim, o sucesso comercial teve seu apogeu com um único single, mas a verdade é que o vocalista e membro fundador, Mike Score, merecia muito mais.
Isso ficou ainda mais claro após o primeiro (e único, por enquanto) show da banda no Brasil, ocorrido dia 7 de outubro, uma quarta-feira, no charmoso
Cine Jóia. Ok, a maioria do público era de pessoas acima dos 40 anos e o clima era de total nostalgia. Mas essa verdadeira celebração do synth pop estava longe de ser apenas uma homenagem aos anos 80.
A noite, que teve uma bela contribuição do DJ Magal e seu set certeiro, começou com um clima de expectativa e ansiedade de quem esperou a vida inteira para poder cantar a trilha sonora que embalou sua juventude. Mas, a verdade é que a apresentação dos “liverpudlian” trouxe de volta não apenas uma memória afetiva, mas a constatação de que já houve maior preocupação da indústria fonográfica em apresentar um esmero mesmo naquilo que, teoricamente, tinha um objetivo mais mercadológico.
E assim, com uma pontualidade britânica (que é uma falácia, mas isso é papo para outro momento), Score e cia. subiram ao palco para iniciar o que seria uma noite marcante. Sem falar nada, o A Flock Of Seagulls mandou "Modern Love Is Automatic", faixa de seu debut auto-intitulado. Contando com a segurança da cozinha formada pelo baterista Kevin Rankin e o baixista Pongo, quem brilhou foi o guitarrista Gordon Deppe e seus timbres que, muitas vezes, pareciam verdadeiros sintetizadores. O público, claro, foi ao delírio.
As roupas da banda não são mais as mesmas e a tecnologia se mostrava insistentemente presente em uma chuva de celulares em punho na plateia, mas cada nota, cada efeito de teclado (tocado magistralmente por Score) e cada composição saudava os anos 80. Isso mesmo em composições como "Hearts On Fire" e "Rainfall", ambas lançadas no álbum de 1995
The Light at the End of the World e que são puro suco de New Romantic. Logo depois, "Nightmares", de
Listen
(1983), deixou a casa com clima de
Madame Satã (aquela dos anos 80 mesmo…). Aliás, os amantes de música “dark” estavam em profusão na plateia e muitos dançavam “pegando pezinhos” nas músicas mais sombrias do quarteto.
Entretanto, o grupo mostrou que a estética oitentista não foi apenas uma moda passageira para suas composições. Isso ficou claro em "Him", do mais recente disco da banda, Some Dreams (2024), que poderia tranquilamente estar presente em qualquer um dos primeiros discos do grupo, mas sem soar datada. O A Flock Of Seagulls, aliás, faz exatamente isso atualmente: trazer a nostalgia sem incluir o saudosismo, mostrando que ainda há espaço para um bom synth pop.
Assim foi com "The More You Live, the More You Love", que, indo em sentido oposto, poderia facilmente ser uma música nova, e não um single de 1984. Já a plateia respondia mais com danças e emoções do que com gritos. Não estava exatamente morna, mas “compenetrada”, absorvendo cada instante daquele momento único que levou mais de 45 anos para se concretizar. Assim, clássicos como "Transfer Affection" eram mais apreciados com a linguagem corporal do que com histeria de voz. Score conduzia tudo com a leveza e naturalidade que apenas os muitos anos de experiência podem proporcionar.
A sequência com "Say You Love Me, Lovers And Strangers" e "Some Dreams" reforçou o apuro artístico do grupo, assim como a atmosférica "Man Made", única a ter Score também nas guitarras. No entanto, já nesse ponto era claro a ansiedade dos presentes para a chegada da hora do grande sucesso do quarteto. Embora muitos cantassem outros sucessos da banda, como "Telecommunication" e, especialmente, "Space Age Love Song", aqui o clima já era de pura ansiedade e expectativa. E, após uma belíssima versão de "Wishing (If I Had a Photograph of You)", era chegada a hora da explosão.
O comecinho atmosférico já foi o suficiente para que todos gritassem tudo o que guardavam na garganta o show inteiro. Sim, pela primeira vez no Brasil, ouvíamos um dos maiores hits oitentistas de todos os tempo: "I Ran (So far Away)". E ela veio carregada de emoções além da nostalgia. Claro, o saudosismo nesse momento era inevitável para todos os que puderam viver uma das décadas mais mágicas de todos os tempos. Mas havia também uma alegria incomparável, de celebrar o que, talvez, seja aquilo que nos move em vida: a experiência estética.
Uma catarse? Sem dúvida. Mas sem o peso da velhice, sem escapismo. Pura celebração da arte em sua forma mais rica. E quem ficou para o bis pode ainda aproveitar uma das melhores da noite, "Messages", que Score disse ter sido composta em 1979. Ao final, apenas risos, alegria e a certeza de que, em momentos difíceis, a arte serve para reter na memória o que temos de melhor. Curiosamente, em breve teremos a chance de reviver o que a década de 1980 teve de pior. E, infelizmente, a arte talvez não seja suficiente para olharmos para trás, daqui alguns anos, com boas memórias. Pouca sorte…
Setlist
- Modern Love Is Automatic
- Hearts on Fire
- Rainfall
- Nightmares
- Him
- The More You Live, the More You Love
- Transfer Affection
- Say You Love Me
- Lovers and Strangers
- Some Dreams
- Man Made
- Telecommunication
- Space Age Love Song
- Wishing (If I Had a Photograph of You)
- I Ran
- Messages











