Anette Olzon (SP)
"Houve tempo também para o descanso, o respirar e o se emocionar. A dupla “Turn Loose the Mermaids” e a icônica “The Islander” se fizeram presentes, em uma dobradinha de power ballads simplesmente de tirar o fôlego. Talvez o ponto do show onde Anette se fez mostrar mais a força de sua voz e fazer a todos brilharem os olhos vendo sua interpretação".
Texto por: Rato de Show
Fotos por: Amanda Sampaio
Agradecimentos: Estética Torta e Acesso Music
Para quem cresceu na era MTV e pôde assistir dezenas de vezes “Nemo” tocando pela TV, não se estranha com a ideia do Nightwish ser uma banda que caiu no gosto do brasileiro e da América Latina em geral, sendo uma das regiões que mais consome seu material no mundo.
O latino é um tipo de fã apaixonado, comprometido e não necessariamente preso à nostalgia, onde, à medida que a banda amadurecia e mudava, o público parecia seguir junto. Até mesmo em momentos considerados dificílimos de se superar, quando se troca de vocalista, como foi quando Anette Olzon assumiu o manto do Nightwish a partir de 2007, substituindo a icônica Tarja Turunen e entregando, na sequência, duas das obras mais emblemáticas da banda, Dark Passion Play (2008) e Imaginaerum (2011), antes de sua saída da banda em 2012.
17 anos. Esse foi o tempo que marcou a última apresentação da cantora, em sua até então primeira passagem pelo Brasil durante a Dark Passion Play Tour de 2008, até 2025, quando a Estética Torta conseguiu convencer a cantora — como a mesma comentou — a encarar uma turnê e os palcos após quase 10 anos longe deste tipo de ritmo. Um sucesso mútuo tão grande que resolveram repetir a dose em 2026, trazendo a cantora para excursionar em três datas pelo Brasil e com uma nova e ambiciosa missão: unir uma orquestra para trazer uma experiência elevada aos espectadores.
E foi assim que, no último dia 26, no Teatro APCD em São Paulo, Anette Olzon chegou com seu carisma e amor para uma vez mais aquecer os corações de seus fãs e dos fãs de Nightwish de uma fase que deveria ter um reconhecimento muito maior do que de fato tem.
Antes, outra parceria que se iniciou no ano passado e veio a se repetir foi a abertura da noite, ficando pela banda curitibana Magistry, trazendo todo o seu “metal alquimia”, como a vocalista Lya Seffrin intitulou a banda. Contando ainda com João Borth e Leonardo Arentz nos vocais e guitarras, Johan Wodzynski na bateria, Leonardo Rivabem no baixo e Thiago Parpineli nos teclados, a banda realmente traz uma alquimia sonora ao mesclar elementos do metal sinfônico com uma pitada de metal extremo, música atmosférica e diferentes camadas que tornam sua sonoridade verdadeiramente interessante.
Entrando sob o som de um ponto de Umbanda, a banda iniciou os trabalhos com Lya dando “boa noite, iniciados”, reforçando a união entre os elementos sonoros e interpretativos, seguido de “Full Moon”, música inédita ainda não disponível da banda que, trazendo todos os elementos citados acima, serviu perfeitamente como uma boa introdução sobre o que esperar da performance.
Teatralidade, intensidade e paixão exalavam do sexteto, trazendo um repertório que, apesar de enxuto, mostrou a variedade de tempos e emoções evocadas, como em “Divine”, música dedicada por Thiago ao público LGBTQIA+ ao reforçar que o metal é um local de ocupação, existência e resistência de diferentes formas de ser.
Na sequência, mostrando que quem sabe faz ao vivo, o músico sentou-se a uma harpa, tocando-a junto aos ritmos dos instrumentos em “Hummingbird”, do álbum The Delightful Companion (2026), e criando toda uma textura ambiente que foi um prazer de se ouvir (e ver). “Black Abyss” continuou esse lado, mas também mostrando um lado mais obscuro, servindo como a sonoridade para introduzir “The White Shores”, que trouxe o sentimento de pesar das guitarras, criando uma atmosfera que se intensificava junto ao gutural no refrão.
Por trazer um peso mais agressivo e agudos viscerais, a sonoridade da banda acabou indo um pouco além, talvez, da capacidade acústica e talvez até de infraestrutura do espaço, causando um som embolado em algumas passagens e um áudio que talvez tenha limitado um pouco a qualidade que visivelmente estava ali. Uma questão menor e que não aparentou incomodar o público, que aplaudia e mostrava seu apoio a essa jovem banda, mas que já impressiona pela sua proposta.
Finalizaram com um toque folk com “Lost Paradise”, em um ritmo que mais se parecia com um ritual sob a luz do luar, mostrando toda a capacidade alquímica entre “luz” e “trevas”, “quente” e “frio”, da sua discografia, brincando perfeitamente com este conceito em sua interpretação.
Magistry setlist:
- Full Moon
- Swing to the Circles of Time
- Divine
- Hummingbird
- Black Abyss
- The White Shores
- Frozen Heart Fades
- Lost Paradise
Com o espaço certamente aquecido e sendo preenchido até próximo de sua capacidade máxima, ainda que sentados, os burburinhos e as pernas ansiosas balançavam para cá e para lá, até que o silêncio, seguido de aplausos e gritos, veio acompanhado da Orquestra Guarany de Indaiatuba, que pouco a pouco foi preenchendo o espaço, junto também a membros da própria Magistry que acompanhavam a orquestra e o coral que se formava. Então, os acordes de “Taikatalvi”, de Imaginaerum, se fizeram, servindo como entrada para Vithor Moraes (teclados), Kiko Lopes (bateria), Edu Megale (guitarra) e Filipe Duarte (baixo e vocais), até a derradeira entrada de Anette Olzon.
Aquecendo os motores e já mandando logo de cara “Storytime”, também de Imaginaerum, não tem outra palavra para descrever o momento senão mágico. Sendo um teatro, ainda que a dinâmica da noite prevalecente fosse sentado, era possível ver as pessoas pulando e indo de um lado para o outro onde quer que estivessem, cantando junto e devolvendo em intensidade todo o brilho e alegria expressados por Anette.
A cantora, hoje com seus 55 anos, mostrava uma voz preservada, que em muito lembrava sua época no Nightwish, onde, é claro, alguns tons, alcances e timbres eram adaptados, mas nada que não deixasse claro que sua essência resiste.
Intercalando entre os álbuns, tivemos uma sequência de “7 Days to the Wolves”, “Ghost River” e “Song of Myself”, onde é importante ressaltar o ótimo trabalho da banda da cantora, em especial o trabalho de Filipe Duarte, com louvor se fazendo presente e com uma voz marcante, fazendo jus ao de Marco Hietala.
Era difícil também saber onde manter os olhos e isso como sendo um diferencial de uma proposta com orquestra. Ainda mais se falando de Nightwish, uma banda que possui tantas camadas e arranjos intrincados e que se misturam e complementam tão lindamente as músicas, ver essas facetas em cada um de seus instrumentos era uma beleza incrível, ficando aqui o elogio ao ótimo trabalho da maestra Natalia Laranjeira, que fazia todos os músicos estarem alinhados como um relógio suíço.
Um dos pontos altos da noite, daqueles que fizeram com que o público já começasse a não aguentar mais ficar sentado e a cantar junto com Anette, foi em “Amaranth”, uma das músicas mais emblemáticas do Nightwish e definitivamente a principal de sua passagem pela banda. Ouvir os coros de vozes cantando os “oooooh’s” iniciais era simplesmente de arrepiar, assim como no refrão, conforme o Teatro APCD ficava pequeno próximo de tantas vozes cantando em sintonia.
“Scaretale”, outra que é uma verdadeira joia da coroa de Imaginaerum, teatral, circense e desafiadora pelo emprego de diferentes técnicas vocais. Foi outro momento divertidíssimo e certeiro, com o público engajado, sempre soltando um “eu te amo” e fazendo questão de, a todo instante, reforçar o carinho e a consideração por Anette.
Anette então fez uma leve pausa do universo dark sinfônico para apresentar ao público seu material autoral com “Like a Show in My Head”, música mais branda, introspectiva, mas igualmente forte, que encaixa bem em sua voz atual. Longe de parecer um momento “alheio” em meio ao show, pelo contrário, pelo acompanhar de vozes na plateia, reforçava o quanto que ali não eram simplesmente fãs de Nightwish, mas da cantora.
Houve tempo também para o descanso, o respirar e o se emocionar. A dupla “Turn Loose the Mermaids” e a icônica “The Islander” se fizeram presentes, em uma dobradinha de power ballads simplesmente de tirar o fôlego. Talvez o ponto do show onde Anette se fez mostrar mais a força de sua voz e fazer a todos brilharem os olhos vendo sua interpretação.
Retornando para o bis, tivemos ainda uma sequência que contou com “The Poet and the Pendulum”, retorno performático e instrumental de ponta para o restinho do show e uma música que destacou toda a magia de se ter uma orquestra e um coral. Um tipo de experiência realmente único que qualquer um deveria ver ao menos uma vez na vida.
Depois, a música que, segundo Olzon, é sua favorita de toda a discografia do Nightwish, “Meadows of Heaven”, por se apoiar em um eixo religioso e dada a cristandade da própria, que foi recebida entre aplausos e um coro que gritava “Pastora! Pastora! Pastora!”. A cantora recebia a brincadeira o carinho com bom humor. Dito isso, a música foi linda de se ouvir, com destaque ao trabalho de Vithor nos teclados e o solo para lá de apaixonante executado perfeitamente por Edu Megale. A música foi outra perfeita para o timbre de Anette, que cantou com tanta paixão que foi recebida aos aplausos em pé pela plateia.
Para selar a noite e seu retorno ao Brasil, “Last Ride of the Day” foi a escolhida, com o público se mantendo em pé e até mesmo indo até mais à frente para celebrar junto à cantora com essa música que, como o nome já dizia, era aquele último km percorrido e a escolha perfeita para finalizar.
Porém, logo após e também ao mencionar e agradecer todos os brasileiros que a acompanham, de banda a tour manager, produtora e afins, Anette foi surpreendida pelos mesmos, com simplesmente um “CPF” oficial, mostrando simbolicamente o reconhecimento do Brasil para com a cantora, que agradecia enquanto dizia que já havia até convencido a família a se mudar ao Brasil.
Dizendo ainda ser uma boa ouvinte e, portanto, ter ouvido o seu próprio fã-clube, Anette cantou uma última música, um pedido dos fãs, que não era sobre Nightwish, mas outra música de sua carreira solo, “Rapture”, mais recente single lançado, que se mostrou um grande sucesso.
Finalizada, a cantora ainda se manteve sob o limite do palco, assinando, cumprimentando e tirando fotos, mostrando o carinho e reconhecimento que tem pelo povo que passou a acolher essa figura que sempre foi querida e que, por alguma razão, aparentemente vinha enfrentando dificuldades e seus demônios internos nos últimos anos no que tange à ideia de performar no palco. E que talvez, só talvez, descobriu que o problema no fim era uma questão geográfica e que existe, sim, um lugar para chamar de seu: o amor do brasileiro.
Anette Olzon - setlist:
- Taikatalvi
- Storytime
- 7 Days to the Wolves
- Ghost River
- Song of Myself
- Amaranth
- Rest Calm
- Last of the Wilds
- Scaretale
- Like a Show Inside My Head
- Turn Loose the Mermaids
- The Islander
- The Poet and the Pendulum
- Meadows of Heaven
- Last Ride of the Day
- Rapture











