Faces of Death e Selvageria (SP)
"Se este texto se tratasse de uma sentença judicial, minha suspeição com toda certeza seria declarada. Tanto o Selvageria quanto a Faces of Death tem a admirável habilidade de tornar qualquer evento em uma experiência epifânica; é difícil ignorar como o underground se manifesta (quase que de maneira metafísica) na presença das bandas no palco."
Texto por: Heitor Lamana
Fotos por: Heitor Lamana
Agradecimentos: Faces of Death
Muito se debate sobre a natureza do underground; refúgio idílico da retidão e da virtude musical ou puramente uma escala menor do mercado, o fato é que ele existe e se faz presente com seu barulho (seja o literal ou não). Na noite do dia 26 de setembro, duas célebres bandas do underground botaram em xeque aqueles que duvidam da potência do movimento; a banda de speed metal Selvageria e o amálgama do thrash/death metal que é a Faces of Death. Escolhendo a casa de shows La Iglesia para suas apresentações e arregimentando uma legião de fãs e seguidores fiéis, os paulistas calaram os céticos e provaram que o underground além de existir possui uma força enorme, quase que sobrenatural — independente da casuística envolvida.
A data escolhida não perdoava ninguém. Naquele sábado, diversos eventos aconteciam por toda São Paulo, abocanhando diferentes parcelas do público que se dispersava nos mais variados estilos. Do black metal do ex-Dimmu Borgir, Galder, aos sucessos da carreira da diva do metal sinfônico e ex-Nightwish, Anette Olzon, um grande leque de opções era servido aos metaleiros, porém a disputa por audiência era pesada. Assim, não era certa a quantidade de pessoas que estariam presentes nos arredores de Pinheiros naquela noite, mas, quando o momento chegou, não deixou nada a desejar. Fardados com camisas tanto do Selvageria quanto da Faces of Death, os presentes estavam em peso muito antes do evento começar, bebendo e conversando em um clima amigável e de união enquanto as portas da capela não se abriam.
Subindo primeiro no palco, o Selvageria é um velho conhecido da cena, se tornando um ícone cult com seu som que remete diretamente ao metal brasileiro dos anos 80 e atraindo um público de todas as faixas etárias — tanto aqueles que viveram a chamada ‘década perdida’ quanto aqueles que nem ousavam nascer no período. Cantando em português e honrando com láureas a língua de Camões, o trio fundado em 2005 (originalmente como um quarteto com o vocalista Gustavo Trovão) arrebatou os ânimos do público com sua ferocidade e cadência características — a igreja se tornou pequena para a ecclesia reunida e o empurra-empurra das rodas. Composta por César Capi na guitarra, Tomás Toloza no baixo e Danilo Toloza fazendo o surpreendente trabalho de conciliar uma frenética bateria com os vocais, a banda trouxe no seu setlist uma mistura de seus dois álbuns de estúdio, Selvageria (2009) e Ataque Selvagem (2017) — clássicos incontestáveis do underground paulista; não houve música que conseguisse conter a participação da plateia, disputando um lugar cada vez mais próximo do palco e competindo entre si para acompanhar cada uma das letras.
Dentre as pedradas, faixas como ‘Metal Invasor’, ‘Cinzas da Inquisição’, ‘Trovão de Aço’ (essa uma de minhas prediletas) e a saideira ‘Hino do Mal’ são destaque por tudo o que foi citado e muito mais. A capacidade do Selvageria de conscrever sua audiência com seus refrões carregados e seu ritmo impetuoso não é um feito qualquer, envolvendo e conquistando até mesmo aqueles que não são adeptos da proposta da banda. E é preciso reiterar; a competência de Danilo em esmurrar sua bateria enquanto vocifera cada estrofe sem perder o fôlego é impressionante. Além disso, a presença de palco de Tomás e os solos virtuosos de Capi (cujo nome era bradado pela plateia uma vez ou outra) fazem do grupo uma das grandes tempestades do speed metal nacional e com certeza mundial, arrasando tudo por onde passa.
SELVAGERIA – Setlist
- Intro
- Metal Invasor
- Selvageria
- A Maldição
- Na Lâmina da Foice
- Cinzas da Inquisição
- Águias Assassinas
- Trovão de Aço
- Garra do Cão
- Ataque Selvagem
- Legião Invencível
- Hino do Mal
Passada a primeira etapa do evento, tivemos um breve momento de respiro do lado de fora enquanto nos preparávamos para outra força titânica, a Faces of Death. Formada ainda na década de 90 e retomando — após uma pausa nas atividades — apenas em 2015, o grupo faz uma mistura do thrash e do death metal old school sem cair na mesmice e em obviedades. Composta pelos irmãos Laurence e Sylvio Miranda (vocal/guitarra e baixo, respectivamente) e também dos músicos Igor Nogueira (bateria) e Maurício Filho (guitarra), a banda vem ganhando notoriedade na cena por trabalhos como os álbuns ‘From Hell’ (de 2018) e ‘Evil’ (lançado em 2023 e que leva na capa uma arte do ex-Troops of Doom, Marcelo Vasco, (também responsável por capas de artistas como Slayer, Borknagar, Machine Head e Dark Funeral), além do single ‘Terror em Barbacena’ — lançado no ano passado e que bateu recordes de métricas no Youtube. Mais recentemente, a banda anunciou a assinatura de um contrato com a gravadora Combat Records, bem como sua primeira turnê internacional pela Europa. Assim, além de reunir fãs, amigos e dividir o palco com outros músicos de alto nível, o evento era também uma ocasião extremamente especial e única para a banda — uma oportunidade de celebrar sua história, suas origens na cena e seu futuro próximo.
Logo de cara, mostraram a todos que não estavam para brincadeira abrindo seu show com
‘New World Order’. Abordando temas como grandes tragédias históricas e acontecimentos que abalam nossa fé na humanidade, rapidamente continuaram seu ataque com
‘Fucking Human Gods’
e ‘Usurper of Souls’, falando sobre os horrores do nazifascismo e do caso Charles Manson. Com um entrosamento e uma sinergia extremamente afiada, a força da atual formação foi testada na estreia da mais nova música da banda, intitulada
‘Blood on Their Hands’. Discursando no microfone para agradecer o apoio de todos os presentes e anunciar a canção, o baterista
Igor foi ovacionado pouco antes de retornar ao seu lugar. Tratando sobre os casos
Isabella Nardoni (menina de 5 anos jogada do alto de seu apartamento pelo próprio pai e pela madrasta),
Ângela Diniz (vítima de feminicídio ainda na década de 70, quando pouco se falava do tema) e
Suzane Von Richtofen (presa e condenada pelo assassinato de ambos os próprios pais), a nova música foi bem recepcionada pelo público e mostrou a maturidade da banda – seja pela escolha do tema ou pela própria composição da faixa —, colocando o dedo na ferida para questões que nos atormentam diuturnamente.
A performance dos músicos estava impecável; do baixo estridente de Sylvio à maestria do barbado Maurício, todos se mostravam confortáveis e doutos em suas funções. Cabe destacar também a descarga de violência que foi ‘Killer... In The Name of God’, com o grave timbre de Laurence acompanhando a rajada do instrumental. Antes mesmos do anúncio, gritos da plateia pediam por ‘Terror em Barbacena’ – uma prova cabal da recepção positiva do single. Para fechar, escolheram homenagear uma de suas maiores influências e tocaram um cover de ‘Territory’, do Sepultura, encerrando a noite da mesma forma que ameaçavam a estrutura da casa — de forma estrondosa.
Se este texto se tratasse de uma sentença judicial, minha suspeição com toda certeza seria declarada. Tanto o Selvageria quanto a Faces of Death tem a admirável habilidade de tornar qualquer evento em uma experiência epifânica; é difícil ignorar como o underground se manifesta (quase que de maneira metafísica) na presença das bandas no palco. No fim das contas, a noite daquele sábado evidenciou que não se trata de um folclore de saudosistas; o underground não é e nunca será uma mera engrenagem do sistema e sim um manifesto de existência daquilo que muitas vezes é relegado pelos ditames da máquina.
FACES OF DEATH – Setlist
- Priest from Hell (Intro)
- New World Order
- Fucking Human Gods
- Usurper of Souls
- Blood On Their Hands (primeira vez sendo tocada ao vivo)
- Evil (Intro)
- Stronger Than You
- It’s Calling Me Out... suicide!
- Killer… in the name of God
- Anno Domini
- Terror em Barbacena
- Territory (cover do Sepultura)











