Johanna Platow - Lucifer
"Mas a inspiração sempre vem de tudo o que eu vivi. Toda a dor acaba criando algum tipo de atmosfera muito sombria.
E eu acho que o humor é extremamente importante. É por isso que eu amo Type O Negative".
Entrevista por: Rato de Show (@ratodeshow)
Agradecimentos: Bangers Open Air
O Lucifer se consolidou ao longo da última década como um dos principais nomes do occult rock contemporâneo. Formada em 2014 e liderada pela vocalista e compositora Johanna Sadonis, a banda construiu uma identidade própria ao combinar referências clássicas do hard rock e do heavy metal dos anos 1970 com uma estética sombria, ritualística e fortemente inspirada pelo imaginário do horror e do ocultismo.
Com cinco álbuns de estúdio lançados e reconhecimento crescente dentro do circuito internacional, o grupo atravessa atualmente uma de suas fases mais sólidas. Impulsionado por Lucifer V, trabalho lançado pela Nuclear Blast Records, o conjunto ampliou sua presença em festivais e turnês ao redor do mundo, consolidando uma sonoridade que equilibra peso, melodia e atmosfera sem abrir mão de suas raízes.
À época de sua passagem pela América do Sul, incluindo apresentações no Bangers Open Air e uma extensa sequência de datas pelo Brasil, conversamos com Johanna sobre a relação cada vez mais próxima da banda com o público brasileiro, a força da nova formação, o fascínio permanente pelos anos 1970 e o papel do cinema de horror em seu processo criativo.
Na entrevista, a vocalista também falou sobre composição, humor sombrio nas letras, inspirações para o universo do Lucifer e a expectativa de reencontrar os fãs sul-americanos em uma das maiores turnês da carreira da banda pela região.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para começar, a história do Lucifer com o Brasil é relativamente recente, mas já parece que o país se tornou uma parada recorrente para a banda. Eu estava vendo que somos um dos países que mais consomem o trabalho de vocês atualmente e esta seria a terceira vez que vocês viriam para cá — além de ser a turnê mais longa pela região até então. Como você percebe essa relação? Isso te surpreendeu de alguma forma?
Johanna Platow: Eu me pergunto por quê! (risos)
Não, não. Quer dizer, tudo o que posso dizer é que eu adoro isso. Eu amo vir ao Brasil e aos outros países da América do Sul porque, nas duas vezes anteriores em que estive aí, me diverti muito.
Também foi incrível tocar para um público tão apaixonado e acolhedor. Então estou muito feliz por voltar. Eu não sei exatamente o que existe entre o Brasil e eu para gostarmos tanto um do outro, mas eu guardo isso comigo.
Como eu disse, esta turnê inclui vários shows e a maioria deles acontece em casas fechadas, o que parece combinar perfeitamente com toda a atmosfera obscura e ocultista do Lucifer. Mas vocês também vão tocar no Bangers Open Air, um festival ao ar livre e durante o dia. Existe alguma diferença na forma como você aborda uma apresentação nessas circunstâncias?
Johanna Platow: Na verdade, não.
Claro que a atmosfera é diferente, mas para mim o número de pessoas nunca importa. Eu faria exatamente o mesmo show para cinquenta pessoas ou para dez mil.
Na verdade, eu fico mais nervosa em lugares pequenos, onde as pessoas estão muito próximas de mim, do que em palcos enormes. Quando existe um oceano de pessoas na sua frente, aquilo acaba ficando meio surreal.
Mas quando você está cara a cara com alguém, a um metro de distância, podendo olhar diretamente nos olhos daquela pessoa, isso se torna uma experiência muito íntima. É aí que eu fico mais autoconsciente, mas também mais emocionada.
Existe algo muito especial em olhar diretamente para as pessoas durante um show.
A propósito, o palco onde vocês vão tocar no Bangers Open Air é um dos meus favoritos. Acho que vocês vão se divertir muito lá. Mas se eu puder te dar um conselho: coloque protetor solar no topo da lista de coisas para levar.
Johanna Platow: Tudo bem, vou levar óculos escuros! (risos)
Você vai me agradecer depois.
Johanna: Eu acredito!
Já toquei em alguns shows absurdamente quentes na minha vida. Teve um em Las Vegas com 43 graus e também um show no cruzeiro do KISS, tocando no convés às duas da tarde nas Bahamas.
Sem proteção solar. Eu quase morri. Quase vomitei depois do show.
Foi uma loucura. Então obrigada pelo conselho. Vou lembrar.
Falando da banda, a nova formação traz uma presença feminina muito mais forte, com mulheres sendo maioria no grupo. Em termos de química e dinâmica, essa mudança criou algo diferente para você? Talvez algo mais divertido na estrada, nos bastidores ou no palco?
Johanna: Eu não sei exatamente o que é.
Deve ser essa energia feminina incrível.
Eu não gosto de ficar usando essa carta o tempo todo, mas às vezes é um pouco mais difícil para uma mulher estar na estrada. E elas passaram pelas mesmas coisas que eu passei.
Então, quando fazemos isso juntas, é quase uma sensação de “contra o mundo”. Existe uma espécie de irmandade nisso tudo.
Eu gosto muito.
Mas, no fim das contas, o mais importante é que as pessoas tenham o coração no lugar certo, sejam apaixonadas pela música e estejam comprometidas com o que fazem.
O Lucifer bebe muito da fonte dos anos 1970. E mesmo depois de tantos anos, vemos novas bandas surgindo e fãs mais jovens abraçando esse tipo de som e cultura. Por que você acha que isso continua acontecendo?
Johanna: Porque foi quando o rock e o metal estavam no auge.
Essa é a minha opinião.
Cada um tem seus gostos, claro. Mas, para mim, nunca mais foi feito tão bem quanto quando tudo isso foi inventado.
Lucifer V ainda é um disco relativamente recente e, embora mantenha muito da identidade da banda, também adiciona novas camadas. Uma coisa que sempre me chama atenção são os títulos das músicas. Alguns são diretos, mas outros parecem poesia sombria. “A Coffin Has No Silver Lining” e “Cold As A Tombstone”, por exemplo. Como funciona sua criatividade nesse aspecto? Os títulos surgem antes ou depois da composição?
Johanna: Normalmente os títulos são a última coisa.
Mas a inspiração sempre vem de tudo o que eu vivi. Toda a dor acaba criando algum tipo de atmosfera muito sombria.
E eu acho que o humor é extremamente importante. É por isso que eu amo Type O Negative.
As letras deles são engraçadas pra caralho, mas também são escuras e românticas ao mesmo tempo.
Eu cresci com esse tipo de humor negro e me identifico muito com isso. Sempre quis trazer esse elemento para o Lucifer também.
Acho que o humor é uma das melhores formas de lidar com traumas.
Gosto quando as coisas possuem múltiplos significados.
E os títulos surgem naturalmente ou às vezes levam tempo?
Johanna: Simplesmente acontecem.
Pode ser enquanto estou limpando o banheiro. Pode ser passeando. Pode ser assistindo a um filme.
Aí eu preciso anotar imediatamente para não esquecer.
Tenho listas enormes com palavras, frases, ideias, pequenas rimas e pensamentos.
Quando estou trabalhando em uma música, volto a essas listas e penso: “Preciso usar isso”.
Às vezes eu nem sei de onde as ideias vieram.
Pode ser um livro, um filme ou alguém dizendo algo estranho para mim.
Quando você escreve letras, começa a prestar atenção em tudo.
Eu não sou poeta nem nada parecido. Só faço o que sinto que precisa ser feito.
Existe alguma ideia, frase ou título que você guarda há muito tempo esperando o momento certo para usar?
Johanna: Tenho toneladas.
Tenho muitas coisas escritas que ainda não são públicas.
Tenho certeza de que boa parte disso vai acabar aparecendo no próximo álbum.
Você mencionou filmes. Eu adorei a referência a Carrie em “Bring Me His Head”. Qual é o papel do cinema de horror no seu processo criativo?
Johanna: Gigantesco.
Eu absorvo tudo o que amo.
Adoro filmes antigos dos anos 60 e 70. Amo filmes de terror. Isso influencia muito o Lucifer.
Tento trazer isso para os videoclipes também, mesmo trabalhando com orçamentos muito limitados.
Se alguém me desse um milhão de dólares, eu faria coisas incríveis.
Se dinheiro não fosse um problema, existe algum filme específico que você gostaria de homenagear?
Johanna: Muitos.
Mas provavelmente Suspiria.
Aquele visual do horror italiano dos anos 70 é algo que eu amo profundamente.
Então, se alguém aparecer com um milhão de dólares, eu faço acontecer. (risos)
Para encerrar, gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?
Johanna: É muito difícil para mim dar mensagens porque, apesar de não parecer, eu ainda sou uma pessoa tímida.
Mas posso dizer que estou realmente muito animada para finalmente sair da Suécia depois de um inverno longo e escuro e ir para o Brasil.
Estou ansiosa para ver todos aqueles rostos bonitos, aquelas pessoas tão amigáveis e me conectar com elas novamente.
Estou realmente esperando por isso.









