Marina La Torraca - Battle Beast
Entre potência e a identidade: Marina La Torraca fala sobre a entrada no Battle Beast, novo álbum e planos para o Brasil
Entrevista por: Bruno Steffen (Porque!Metal)
Agradecimentos: Nuclear Blast e Frank Comunicações
A presença de artistas brasileiros em posições de destaque no metal internacional tem deixado de ser exceção para se tornar um movimento consistente. Em meio a esse cenário, poucos anúncios recentes geraram tanto entusiasmo quanto a chegada de Marina La Torraca ao Battle Beast.
Reconhecida por sua versatilidade vocal, pela forte ligação com o teatro musical e pelo trabalho à frente de projetos como Phantom Elite e Exit Eden, a cantora brasileira foi anunciada em dezembro como a nova vocalista da banda finlandesa de power metal.
A entrada marcou não apenas uma mudança significativa na formação do Battle Beast, mas também um novo capítulo artístico para Marina, que passa a integrar uma banda com agenda global intensa, novo álbum em produção e expectativas naturalmente altas por parte do público.
Conversamos com Marina La Torraca sobre os bastidores do convite, o processo de adaptação à banda, a construção da própria identidade dentro de um repertório já consolidado, a participação no próximo disco e os planos para finalmente trazer o Battle Beast ao Brasil.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para começar, você foi anunciada como nova vocalista do Battle Beast em dezembro, mas você pode contar pra gente como foram os bastidores do momento em que o convite chegou e como foram esses momentos até o anúncio da sua entrada?
Marina: Então, foi uma coisa não muito linear. O primeiro contato que a gente teve foi por e-mail, quando eu recebi uma mensagem perguntando se eu estaria interessada em explorar a possibilidade de ser a front do Battle Beast. E é claro que eu entrei em choque. Minha primeira reação foi “hã? como assim?”. Eu pensei que fosse alguma brincadeira ou algum fã mandando qualquer coisa que não fosse o que era de fato. Mas quando eu percebi que era legítimo, aí veio o choque de verdade. Eu não entendi muito bem por que a Noora estava saindo da banda, porque não fazia sentido para mim naquele momento — eu sabia que eles iam entrar em turnê, lançar álbum novo. Mas era o que era.
Foi num momento muito bom para mim, porque eu estava sem banda. Então eu pensei: “ok, por que não?”. Dá medo, claro, qualquer cantor pensaria isso, mas não dá para dizer não para uma oportunidade dessas. A gente se encontrou online, o papo foi muito bom, já teve boas vibes e uma conexão pessoal. Depois veio a parte musical: eu gravei algumas coisas super rápido em casa e mandei. Eles ficaram impressionados com a rapidez e com o fato de eu realmente estar interessada. A gente continuou trocando arquivos à distância e eu fui para a Finlândia uma ou duas vezes para gravar demos e investigar a possibilidade. Chegamos a fazer passagens de músicas juntos, tudo muito corrido — literalmente uma hora para gravar partes das músicas. Nem as letras estavam decoradas. Foi tudo rápido e, em um ou dois meses, a gente entendeu que a parceria funcionava. A situação exigia rapidez, então não foi nada planejado.
Desde então como tem sido essa sua adaptação tanto com eles, mas também pelo fato que você comentou, o QG da banda é na Finlândia mas, se não me engano, você mora na Alemanha. Vai ter que rolar uma mudança eventualmente, como tem sido isso para você?
Marina:
Não é tão longe assim. Dá para fazer tudo à distância. Tem várias bandas que eu conheço que só se encontram para ensaiar antes de turnê ou quando tem alguma atividade específica. As passagens para a Finlândia não são fora da realidade financeiramente e também não é tão longe — umas duas horas de avião. No Brasil mesmo às vezes a viagem é mais longa dependendo de onde você está.
E falando assim, o entrosamento com eles, né? Porque, querendo ou não, você já tinha os seus projetos, mas entrar numa banda que já tem uma estrada, já tem uma dinâmica própria… Como foi esse “clique” com os outros membros no dia a dia, para além da parte musical?
Marina:
Como eu falei, a gente se encontrou pessoalmente só quando eu já estava praticamente dentro, mas o papo online já tinha sido muito bom. Eles são figuras. O pessoal do Battle Beast é muito conhecido por ser uma banda muito unida e muito brincalhona, e eu sou bem assim também. Logo de cara a gente já começou a trocar figurinha, fazer piada. O Eero, o baixista, tem um senso de humor muito parecido com o meu, então a gente se deu super bem. O Joona, que é o guitarrista e quem escreve a maioria das coisas, é muito focado e muito profissional, e eu admiro isso. A dinâmica foi se criando de forma natural. Não teve aquele momento de “será que vou me encaixar?”. Foi mais “finalmente achei uma galera tão maluca quanto eu”.
E em relação ao repertório? Porque a Noora tem um estilo vocal muito específico, muito potente, com aqueles drives e tudo mais. Você sentiu muita pressão para tentar emular o que ela fazia ou eles te deram liberdade para trazer a “Marina” para as músicas antigas?
Marina:
Logo de cara eles falaram: “Marina, a gente não quer um clone da Noora. Se a gente quisesse alguém que cantasse exatamente igual, teríamos procurado uma banda de tributo”. Eles queriam alguém com personalidade própria, mas que entregasse a energia que as músicas pedem. Claro que existem marcas registradas da banda que eu preciso respeitar — os agudos, a potência — mas eu tenho o meu jeito de fazer isso. Eu venho do teatro musical, então trago interpretação e dramaticidade para o palco. A gente adaptou um tom aqui e outro ali, mas no geral as músicas continuam com a mesma cara, só que com uma roupagem nova na voz. O feedback dos ensaios foi sensacional, eles falaram que as músicas pareciam renovadas.
E sobre os fãs? Porque a gente sabe que fã de metal às vezes é um pouco resistente a trocas de vocalista, a gente viu isso acontecer com o Nightwish, com o Arch Enemy… Você chegou a ler comentários ou você prefere ficar longe das redes sociais nesse momento?
Marina:
Eu tento não ler tudo, senão a gente fica doida, mas é impossível não ver nada. No começo, quando saiu o anúncio, teve muita gente surpresa, o que é normal. A Noora estava na banda há muito tempo e fez um trabalho incrível. Mas eu fiquei muito feliz porque a recepção foi, na grande maioria, muito positiva. Especialmente os brasileiros — muita gente ficou super orgulhosa de ver uma brasileira assumindo esse posto. Sempre tem os puristas, aquela galera que acha que se não for a formação que eles conheceram não presta. Mas eu lido bem com isso. O meu trabalho no palco e o novo álbum que a gente está preparando vão falar por si só. Eu não estou lá para apagar o que ela fez, estou para continuar a história da banda com a minha voz. E nos primeiros shows pequenos que fizemos de teste, a recepção foi calorosa demais.
E você mencionou novo álbum. Já tem algo concreto que você possa adiantar? Como tem sido o processo de composição? Você está participando ativamente ou as músicas já estavam prontas?
Marina:
Quando eu entrei, o Joona já tinha muita coisa engatilhada, mas ele foi super aberto. Ele disse: “Marina, eu tenho essas estruturas, mas quero que você coloque a sua cara nas melodias e principalmente nas letras”. Então estou participando bastante da parte lírica e das linhas de voz. A gente está gravando muita coisa agora, cada um no seu canto, e eu viajo para finalizar as vozes principais. O álbum está vindo muito pesado, mas com aquele senso de melodia épica que o Battle Beast sempre teve. Tem sido um desafio maravilhoso compor com eles, porque temos influências parecidas, mas eu trago um tempero diferente por causa da minha bagagem.
E para os fãs brasileiros, existe alguma previsão de virem para cá? Porque o Battle Beast é uma banda que o pessoal pede muito nos festivais brasileiros, tipo Summer Breeze ou até Rock in Rio.
Marina:
Eu sonho com isso todo dia. Eu falo para eles o tempo todo que eles não têm noção do que é o público brasileiro. Eles morrem de vontade de ir. Existe conversa, a gente está olhando a agenda para o final deste ano e começo do próximo. Comigo na banda, a pressão interna para a gente vir para a América do Sul aumentou muito. Eu diria que é quase certo que a gente apareça por aí em breve — estamos só esperando fechar as datas para anunciar.
E como é que você concilia agora, né? Porque você tem o Phantom Elite, tem o Exit Eden… Como fica sua cabeça e sua agenda com três projetos desse tamanho? O Battle Beast passa a ser a prioridade número um ou você vai tentar levar tudo em paralelo?
Marina:
Sendo bem honesta, o Battle Beast agora demanda uma dedicação de outro nível. É uma banda em turnê constante, com gravadora grande, então naturalmente ela toma a frente na agenda. Mas eu não pretendo abandonar meus outros “filhos”. O Phantom Elite é o meu projeto do coração, onde tenho muita liberdade criativa, e o Exit Eden é um projeto maravilhoso que a gente faz por prazer. A ideia é organizar as janelas: quando o Battle Beast estiver de folga, eu foco nos outros. É cansativo, mas é o que eu amo fazer. Se eu ficar parada em casa, eu fico doente.
Para encerrar, deixe um recado final para os fãs brasileiros.
Marina:
Muito obrigada por todo o apoio que venho recebendo. Continuem ligados nas redes sociais da banda e nas minhas, porque tem muita coisa vindo. O Battle Beast está voltando com tudo e a gente se vê em breve no mosh pit. Valeu!
