Samy Elbanna - Lost Society
"Pedimos desculpas por ainda não termos conseguido tocar no Brasil. Honestamente, é sempre por razões chatas como logística e finanças.
Se dependesse de nós, pegaríamos o primeiro avião".
Entrevista por: Rato de Show (@ratodeshow"
Agradecimentos: Nuclear Blast e Frank Comunicações
O Lost Society construiu, ao longo da última década e meia, uma trajetória marcada por evolução constante dentro do metal contemporâneo. Surgida na Finlândia ainda na adolescência de seus integrantes, a banda rapidamente ganhou notoriedade na cena europeia com um thrash metal intenso e energético, apresentado no álbum de estreia Fast Loud Death (2013). Desde então, o grupo passou por uma transformação gradual de sonoridade e identidade, incorporando novos elementos e ampliando seu alcance criativo a cada lançamento.
Às vésperas da chegada de Hell Is A State Of Mind, sexto álbum de estúdio da banda, o Lost Society se encontra em um momento particularmente significativo de sua carreira. O novo trabalho aprofunda a fase mais ambiciosa do grupo, combinando peso, melodias marcantes e experimentações sonoras com uma abordagem lírica mais introspectiva e pessoal — refletindo também o amadurecimento artístico de seus integrantes ao longo dos anos.
Conversamos com Samy Elbanna, vocalista e guitarrista do Lost Society, sobre os 16 anos de trajetória da banda, o processo criativo por trás do novo disco, a evolução da sonoridade do grupo e os desafios de equilibrar experimentação musical com identidade artística. Na entrevista, Samy também falou sobre composição, vulnerabilidade nas letras, a próxima turnê europeia e o desejo de finalmente levar o Lost Society ao Brasil.
Confira a entrevista completa abaixo:
Então, mais uma vez, super feliz em ter você aqui. Eu estava pensando que este ano marca o aniversário de debutante da banda. O quão louco é alcançar esse marco de dezesseis anos? Que tipo de filme passa na sua cabeça quando você pensa em tudo, desde talvez a estreia com Fast Loud Death até agora, prestes a lançar um novo álbum?
Samy Elbanna: Cara, honestamente, é absolutamente incompreensível toda vez que eu começo a pensar em quanto tempo estamos fazendo isso. A primeira coisa que vem à mente é sempre gratidão por tudo, porque essa é basicamente a única vida que eu já conheci. Comecei a fazer isso quando era adolescente e fiz trinta anos no final do ano passado.
É loucura que possamos fazer isso para viver e chamar isso de nossa profissão. Também mostra que nossa ética de trabalho sempre foi muito importante para nós. Reconhecemos o fato de que somos muito abençoados por poder fazer isso em um mundo com milhões e milhões de bandas.
Ainda podemos fazer turnê, ainda podemos lançar música e o fato de que nossa música continua conectando com as pessoas ano após ano é algo incrível. Eu realmente não posso dizer muito além de que sou extremamente grato por estar aqui — e espero fazer isso por mais 16 anos.
E como você disse, você começou super jovem — e ainda é jovem (risos) — mas como é envelhecer e tomar algumas boas decisões no caminho, muitas ruins também? Como isso moldou você como artista?
Samy Elbanna: Honestamente, acho que fizemos muitas coisas certas quando éramos jovens. Claro que temos que agradecer a nós mesmos, mas também a uma equipe incrível que está por trás de nós.
Estamos com a mesma management desde 2013 e com a mesma gravadora desde 2013. Eles nos guiaram em uma direção muito boa, inclusive em coisas básicas como hábitos de ensaio e profissionalismo.
Desde que começamos, sempre amamos tocar juntos. Essa sempre foi a coisa número um. Treze ou dezesseis anos depois, isso continua sendo a base: adoramos escrever música juntos e tocar juntos.
Quando estamos em turnê, depois do show acontece o que tiver que acontecer, mas antes do show nunca bebemos, nunca fizemos esse tipo de coisa. Isso também garantiu a longevidade da banda.
E eu não acho que Hell Is A State Of Mind teria existido se Fast Loud Death, Terror Hungry, Braindead, No Absolution ou If The Sky Came Down não tivessem acontecido. Somos um produto do nosso ambiente e de tudo que acontece ao nosso redor.
Tudo que escrevemos sempre foi uma representação muito precisa de quem somos como pessoas e do que sentimos naquele momento. Então é meio louco pensar que as pessoas tiveram um olhar para dentro das nossas vidas desde que éramos adolescentes.
Algumas ficaram conosco ao longo do caminho, outras não. Ainda estamos aqui — e mais ou menos com nossa sanidade (risos). Acho que isso teve um impacto enorme e garantiu que pudéssemos fazer isso por tanto tempo.
Mas deve parecer uma maneira diferente de crescer. Você já repensou essa decisão, vendo amigos ou pessoas da escola terem uma vida mais “normal”?
Samy Elbanna: Honestamente, nunca. Acho que uma das coisas mais importantes foi o conceito de não ter um plano B. Isso garante que o plano A realmente funcione.
Eu tinha esse mantra desde criança. Nada incrível na vida vem fácil. Quando éramos adolescentes, vimos muitos amigos com bandas aqui na Finlândia desistirem — indo trabalhar, servindo o exército, começando famílias.
Era triste porque havia muito talento ali. Mas a vida acontece e entendemos isso.
Para mim, porém, essa sempre foi a única alternativa. Eu sabia que era isso que queria fazer.
Meu dia é muito ocupado com escrever música, ensaiar, administrar a banda, redes sociais, entrevistas — é muita coisa. Às vezes é exaustivo.
Mas no final do dia ainda é a melhor vida que eu poderia imaginar. Estar aqui conversando com você numa noite de inverno em Helsinque… isso é incrível.
Sempre digo para quem quer começar uma banda: qual é a pior coisa que pode acontecer? Se não der certo, você pode tentar outra coisa. Mas quem nunca se compromete totalmente sempre vai carregar essa dúvida pelo resto da vida.
E olhando para a evolução da banda, como foi tomar decisões a cada passo e adicionar novos elementos ao longo do tempo?
Samy Elbanna: A coisa boa é que existe um tema comum desde o primeiro álbum até este novo — e provavelmente continuará no futuro: sempre fomos fiéis a nós mesmos.
Tudo que você ouve nos discos é uma representação do que éramos naquele momento como compositores.
Quando escrevemos Fast Loud Death, estávamos completamente mergulhados no thrash metal. Ainda amamos thrash, mas hoje também amamos muitas outras coisas.
Eu não comecei com Metallica ou Slayer — comecei com Iron Maiden. Depois vieram Kiss, Alice Cooper, Judas Priest… o thrash veio depois.
Quando eu pegava a guitarra naquela época, eu era um adolescente bravo escrevendo músicas muito rápidas.
Hoje, quando pego a guitarra, não é mais esse instinto. Eu penso em coisas como Robbie Williams ou Lady Gaga e me pergunto: “Como posso trazer isso para o metal e fazer funcionar?”
A mentalidade mudou. O importante é fazer música que nos empolgue — seja rápida, lenta, melódica ou agressiva.
Se escrevêssemos músicas apenas para agradar outras pessoas, não conseguiríamos tocá-las por anos. Seria impossível vender algo em que nós mesmos não acreditamos.
Estamos a duas semanas do lançamento de Hell Is A State Of Mind. Como você está se sentindo?
Samy Elbanna: Mais animado do que qualquer coisa.
Ouço esse disco quase todos os dias há seis meses por causa dos ensaios. E chega um momento em que você percebe: ninguém mais ouviu isso ainda.
Então fico muito empolgado que esse nosso “bebê” finalmente será de todos.
Também sinto que este álbum funciona muito como um todo. É um disco que você deve ouvir do começo ao fim. As músicas funcionam sozinhas, mas o enredo musical e lírico faz muito mais sentido junto.
Estou ansioso para ver como as pessoas vão reagir.
O título do disco é muito forte. Você pode falar um pouco mais sobre esse novo capítulo e o que as pessoas estão prestes a experimentar com ele?
Samy Elbanna: Desde o lançamento de If The Sky Came Down, muitas pessoas sabem que aquele disco e as letras dele foram baseados em um momento muito sombrio da minha vida. A música sempre foi minha forma de escape e de processar sentimentos de maneira muito real.
Depois que aquele álbum foi concluído e lançado, eu senti que consegui começar de novo. Voltar ao amor puro de escrever música apenas pelo amor à música.
Quando voltamos ao estúdio para as primeiras sessões, começamos ouvindo Judas Priest, Alice Cooper, W.A.S.P., voltando ao DNA musical que existe dentro de nós. Isso fez com que este disco soasse muito orgânico.
Todas as músicas voltaram a focar nas estruturas e no núcleo da composição antes de adicionarmos sintetizadores, orquestras e todas essas camadas.
É um disco massivo e intenso, mas se você tirar todas as camadas e distorções ainda restam músicas muito fortes. Muitas delas foram escritas apenas com dois violões justamente para garantir que as melodias e estruturas funcionassem antes de adicionar todo o resto.
Musicalmente é um disco muito forte, mas dentro do universo do Lost Society é definitivamente o mais ambicioso e maior que já fizemos. Também tem uma narrativa coesa, tanto musical quanto liricamente.
E o título Hell Is A State Of Mind é muito intenso. Apesar de ser pesado, as letras são empoderadoras. É uma história sobre autoaceitação, respeito ao ambiente e sobre entender que existem problemas sociais que você não pode mudar — mas existem muitas coisas que você pode mudar, e que vale a pena mudar.
Vocês também vêm experimentando bastante musicalmente nos últimos discos. O quanto essa experimentação é importante para vocês?
Samy Elbanna: Eu sinto que é a coisa mais importante.
Hoje em dia o metal tem fontes infinitas de inspiração. Nos anos 70 ou 80 havia uma quantidade limitada de música que poderia inspirar você. Hoje temos literatura, cinema, diferentes formas de arte.
Cabe aos músicos olhar para essas coisas e pensar: “E se eu misturar isso com aquilo?”
Muitas das melhores coisas na música surgiram assim. Nu metal misturou rap com metal. Nightwish misturou metal com música sinfônica e ópera. Children of Bodom misturou death metal com melodias oitentistas.
É sempre sobre pegar coisas que não parecem naturais juntas e criar algo único.
Para mim, experimentar é essencial. Você é seu próprio juiz e também seu pior crítico. Se algo não parece certo, você descarta. Mas se algo te empolga, vale a pena seguir essa direção.
É assim que fizemos todos os nossos discos.
As letras parecem mais vulneráveis também. Como tem sido lidar com essa exposição emocional?
Samy Elbanna: Acho que isso começou no disco anterior.
Quando você passa por algo que te faz questionar toda a sua existência, muda completamente sua forma de pensar.
Desde o primeiro álbum eu escrevo sobre minha perspectiva das coisas. Quando eu escrevia sobre morte, por exemplo, era apenas minha percepção do tema.
Nos primeiros discos era um adolescente bravo escrevendo sobre odiar a escola, odiar a sociedade, odiar religião.
Mas nos últimos anos eu senti emoções muito mais intensas e comecei a questionar muitas coisas pela primeira vez. Isso me permitiu ser mais vulnerável nas letras.
Se o disco anterior foi praticamente um diário daquele período da minha vida, Hell Is A State Of Mind é o que aconteceu depois. É eu processando tudo isso, mas agora olhando de fora da história.
Não estou mais dentro dela. Estou olhando para trás e dizendo: “Ok, você errou aqui, acertou ali”.
No fim das contas, os temas da música sempre giram em torno de coisas universais — morte, amor, renascimento, perdas. Mas existem milhares de maneiras de abordar esses assuntos.
Este disco é a minha forma de falar sobre o que significa receber uma segunda chance e o que você faz com ela.
E você sente que essa parte emocional também se conecta com a experimentação musical do disco?
Samy Elbanna: Sim, definitivamente.
Quando você tem uma música muito dramática ou trágica, ela abre espaço para diferentes formas de expressão. Tem uma música chamada “L'appel du Vide” neste disco, por exemplo. Ela fala sobre o “chamado do vazio”, um conceito psicológico muito interessante.
A música é extremamente dramática e teatral, e isso me inspirou a abordar o tema de uma maneira completamente diferente do que eu faria se fosse, por exemplo, uma música de death metal tradicional.
Então sim — a música e a letra se alimentam mutuamente.
Você também tem o desafio de cantar e tocar guitarra ao mesmo tempo. Em qual dessas áreas você mais se desafiou neste disco?
Samy Elbanna: Honestamente, em todas.
Mas neste álbum eu quis deixar claro que não sou apenas “o guitarrista que canta”, mas sim um cantor e guitarrista.
Eu escrevi linhas vocais muito mais complexas e acabei me desafiando tecnicamente. Muitas vezes eu escrevo algo e penso: “Ok… agora preciso aprender uma técnica nova para cantar isso”.
Eu ainda estou longe de onde quero chegar como vocalista, mas sinto que estou evoluindo.
Como compositor também foi um grande desafio. As músicas são muito complexas e cheias de camadas.
E como guitarrista, algo que muitas pessoas notaram é que existem muitos leads de guitarra, mais do que solos tradicionais.
Eu sempre digo que, se um solo não serve à música, ele não tem utilidade. Prefiro escrever algo melódico e bonito do que apenas mostrar velocidade.
Existe alguma música do disco que você já olha e pensa: “Por que eu fiz isso comigo mesmo?” pensando em tocar ao vivo?
Samy Elbanna: (risos) Isso acontece toda vez que escrevo alguma coisa.
Mas definitivamente a faixa de abertura, “Afterlife”. Os versos são praticamente rap, uma cadência de rap o tempo todo.
Ensaiamos com a banda completa no último fim de semana e percebi que ainda tenho muito trabalho pela frente. Mas se eu não me desafiasse, ficaria entediado muito rápido.
Outra música é a própria “Hell Is A State Of Mind”, que tem vocais muito graves. Normalmente as pessoas me conhecem pelos vocais agressivos ou limpos poderosos, então trabalhar com tons muito baixos foi um desafio enorme.
Com o lançamento do disco vocês também iniciam uma turnê europeia. Como está sendo montar o setlist?
Samy Elbanna: Essa é sempre a parte mais difícil.
A turnê começa um dia depois do lançamento do disco, então não queremos simplesmente tocar o álbum inteiro do começo ao fim.
Vamos tocar os singles e algumas músicas novas, apresentando essa nova era aos poucos.
Mas sempre é difícil porque, quando você adiciona uma música nova, precisa tirar outra. E isso fica cada vez mais complicado quando você já tem seis discos.
Eu realmente não invejo bandas como Iron Maiden, Scorpions ou Judas Priest que têm décadas de catálogo.
Para finalizar, gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?
Samy Elbanna: Antes de tudo, quero dizer à nossa família do Lost Society no Brasil que sabemos que existem muitos de vocês aí.
Pedimos desculpas por ainda não termos conseguido tocar no Brasil. Honestamente, é sempre por razões chatas como logística e finanças.
Se dependesse de nós, pegaríamos o primeiro avião.
Esperamos que este novo álbum nos aproxime um pouco mais de finalmente ir até aí e conhecer todos vocês.
Amamos e respeitamos a paixão que vocês têm pela banda. Vemos vocês ouvindo os discos, comprando merch e apoiando em todas as plataformas.
Obrigado do fundo do coração.
Muito obrigado pelo seu tempo.
Samy Elbanna: Eu que agradeço. Adoro essas conversas. Espero que possamos nos encontrar pessoalmente no Brasil algum dia. Obrigado!
