Scream (SP)

"Suas descidas até a plateia eram uma forma de confronto, convocando os presentes a se soltarem mais, pularem mais, gritarem mais".

Texto por: Rogério SM

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: SESC e Agência Powerline

 

O mundo da música (assim como qualquer outro) carrega sua cota de injustiças. Dentro da cena punk/hardcore mundial, uma delas atende pelo nome Scream. Pioneiros da cena de Washington DC, o grupo formado em 1979 foi o primeiro a lançar um full length pela icônica gravadora Dischord Records. Selo, aliás, do qual a banda ainda faz parte. Mesmo tendo sido formador e referência para inúmeros outros que vieram depois, o Scream acabou ficando mais conhecido como a “ex-banda de Dave Grohl”. Explicações e teorias sobre os motivos são diversas, mas o fato é que o grupo fundado pelos irmãos Pete Stahl (vocais) e Franz Stahl (guitarra), além do baixista Skeeter Thompson, merecia um lugar mais alto entre os fãs do estilo.

 

O fato é que o trio aterrissou em terras brasileiras para três shows (dois em São Paulo e um em Jundiaí), todos em palcos do Sesc, sem um pingo de amargura pela carreira subestimada. Acompanhados do baterista Andrew Black e do também lendário guitarrista Gizz Butt (ex-Destructors e English Dogs), o grupo aproveitou o espaço intimista do Sesc Paulista para entregar uma apresentação cheia de energia, clássicos e interação.

scream em SP

Sem alarde, começaram entregando tudo com “The Zoo Closes At Dark”. O som cristalino saindo dos PAs e a iluminação de primeira provaram a sorte dos presentes em poder acompanhar uma banda tão clássica em um lugar com estrutura como é o Sesc. Pouco mais de 150 pessoas presenciaram um show digno de grandes arenas como se fosse na porta de casa. E isso contribuiu para que a energia da banda viesse ainda mais potente. O grupo emendou sem papo as primeiras músicas, com “Bored To Life” e “Hell Nah”, ambas do mais recente álbum da banda, “DC Special”.

 

Porém, foram os clássicos dos primeiros álbuns, Still Screaming (1983) e This Side Up (1985), que dominaram o setlist, para delírio dos presentes. Quer dizer, um delírio mais contido. Poucas vezes presenciei um público tão comportado em um show punk (sentir o cheiro de um perfume importado no meio da galera foi um sinal, devo confessar). Talvez pela proximidade intimidadora do palco e dos músicos com a plateia, o fato é que a maioria só aplaudia no fim das músicas, com poucos fãs ‘pogando’ durante o show. Pelo menos, foi assim na primeira metade da apresentação.

scream em SP

A partir de “This Side Up”, Pete resolveu tomar as rédeas da situação. O vocalista, que já dominava o palco com sua presença e carisma, passou a descer para encarar o público de frente. Cantando e andando no meio da galera, aos poucos os fãs foram se soltando um pouco mais. “Fight/American Justice”, “Things To Do Today” e a poderosa “Influenced” mostraram um grupo coeso, preciso, mas que exalava perigo na medida certa. Algo que só os anos de estrada permitem. Black (que inclusive se parece fisicamente com o próprio Dave Grohl) e Skeeter formam uma cozinha incrível, vibrante, que transmite fielmente a adrenalina dos riffs de Franz e Gizz. O quinteto tem uma relação íntima com o palco, dosando experiência e empolgação na medida certa. Se Skeeter era puro sorriso e descontração, Franz fazia um estilo mais low profile (pelo menos em se tratando de um guitarrista de banda punk).

scream em SP

Já o maestro mesmo foi Pete. Andando de um lado para o outro e olhando nos olhos de cada um que estava à frente do palco, ele entregava clássicos como “New Song”, “Solidarity” e “Cry Wolf” com a força de um adolescente. Por vezes batendo um pandeiro só pela diversão, já que musicalmente pouco ou nada disso contribuía nas músicas, era nítido que ali estava um dos grandes nomes do punk mundial. Suas descidas até a plateia eram uma forma de confronto, convocando os presentes a se soltarem mais, pularem mais, gritarem mais. Em certo momento, comentou: “Está tudo tão quieto aqui. Estamos fazendo algo errado?”. Mas, ao contrário de alguns rockstars que o fazem de forma agressiva (oi, Ian Astbury), Pete arrancou risos e gritos da plateia.

 

A aula punk continuou com uma sequência de tirar o fôlego, com a banda emendando dois de seus maiores clássicos: “U. Suck A. / We're Fed Up” e “Show and Tell Me Baby”. Os esforços de Pete deram resultado e o público foi ‘pogando’, gritando e se soltando mais. Inclusive Juninho Sangiorgio, que estava atuando junto com a equipe técnica/roadies. Ao lado do palco, o baixista do Ratos de Porão podia ser visto pulando e cantando as músicas junto com a galera. Depois de outros clássicos, como “Bet You Never Thought” e “Human Behavior”, o ápice da conexão banda e público veio com a que, para mim, é a melhor música da banda: “Came Without Warning”. Pela resposta dos presentes, imagino que não seja o único.

 

Após um breve intervalo, Pete volta sozinho ao palco com um violão para cantar “Choke Word”. O momento menos agressivo não foi sem energia, pois a voz de Pete e seu estilo transformam até um luau em uma festa punk. Em seguida, o grupo todo retornou para mais alguns clássicos, incluindo “A No Money Down”, um dos pontos altos da noite. O fim veio com “DC Special Sha La La”, mostrando que os novos sons continuam tão poderosos quanto os antigos. Show encerrado, Pete desceu para tirar fotos com os presentes, sem frescura. Uma noite memorável de um grupo que merecia mais. Sorte de quem pôde presenciar.

scream em SP

Setlist Scream


  1. The Zoo Closes At Dark
  2. Bored To Life
  3. Hell Nah
  4. This Side Up
  5. Fight/American Justice
  6. Things To Do Today
  7. Influenced
  8. New Song
  9. Solidarity
  10. Cry Wolf
  11. U. Suck A. / We're Fed Up
  12. Show and Tell Me Baby
  13. Bet You Never Thought
  14. Human Behavior
  15. Came Without Warning
  16. Choke Word
  17. A No Money Down
  18. DC Special Sha La La

Galeria - Scream