Living Colour (SP)
"Por um lado, o show como um todo não foi daqueles em que os músicos conversam tanto com o público, contando causos ou a todo segundo tentando interagir com a plateia, mas essa conexão e “conversa” aconteceu de forma subjetiva e sublimada através de cada música, acorde e batida".
Texto por: Rato de Show
Fotos por: André Tedim @andretedimphotography / Top Link Music
Agradecimentos: Top Link Music
A última sexta-feira (27) foi um dia de retornos na capital paulista, onde o Tokio Marine Hall recebeu o tão aguardado show da turnê de 40 anos do Living Colour, uma apresentação que, mesmo estando de volta às nossas terras há menos de dois anos desde sua última visita, o clima não poderia ser outro senão de antecipação e alegria pela oportunidade de rever o quarteto americano.
Antes disso, tivemos outro retorno, e um até mais recente, com a volta do Madzilla LV, banda originalmente equatoriana, radicada nos Estados Unidos, que vem construindo sua base de fãs brasileira desde sua estreia no show de abertura para o Saxon em 2023, seguida da abertura para a Tarja em sua turnê “Living the Dream” de 2025.
Os kaijus latinos
A banda do sempre bem-humorado e energético vocalista e guitarrista David Cabezas tinha na plateia uma nova oportunidade de causar impacto, tanto pela diferença do público com o seu estilo quanto também com as duas outras bandas mencionadas que tocaram juntos. Com aquele seu português bem desenvolvido e que pega de surpresa quem nunca o viu, David saudou o acanhado (e pequeno) público antes de iniciarem todo o frenesi e a agressividade de seu som, um oferecimento de “Ashes of Light”, de seu recém-lançado álbum, Angel Genocide (2026).
O repertório, apesar de enxuto, compreendeu boa parte do acervo da banda, entre também os materiais
A Deadly Threat (2024),
Asphixiating Cries (2021) e o EP
Vengeance
(2019). O som, um equilíbrio entre melodias de heavy metal e pitadas de um thrash mais agressivo, que também se consumaram em ótima contraposição à voz melodiosa e rápida de Cabezas com os pontuais guturais do novo baixista,
Thomas Palmer.
Mesmo que esparso, esse contraste era extremamente agradável e o conjunto, de um modo geral, pareceu cair bem no gosto do público, que a cada música parecia mais animado e engajado junto aos músicos, que também faziam por onde, com David a cada oportunidade tentando arrancar energia, sorrisos, risadas e gritos dos demais.
Destaque também para a guitarrista Sarah Dugdale, que, além de desempenhar solos rápidos como se não fosse nada, desde sua última vinda, que foi também sua estreia com a banda, aparentava estar muito mais à vontade tanto na interação com o público quanto com o restante da banda, ainda que seja do tipo mais introspectivo. No mesmo caminho e talvez destaque absoluto, a também nova baterista Courtney Lourenco era extremamente cirúrgica, definindo um ritmo acelerado do começo ao fim.
Entre declarações de amor pelo Brasil e pela cultura metalhead daqui, assim como pelas nossas caipirinhas, David deu a letra também de um breve retorno ao país, onde, para quem está em dia, sabe que a banda retorna já em outubro, como parte da abertura para os shows do After Forever pela América Latina.
O que foi visto olhando para os olhos?
Um pouco mais de espera e, com uma casa bem mais lotada, as luzes do Tokio Marine caíam à medida que a grande Marcha Imperial, de John Williams, rufava pelos alto-falantes, trazendo aquela energia imponente e dramática que curiosamente soa tão oposta à energia do próprio Living Colour.
Opostos estes presentes também no backdrop com o nome da banda com um splatter em vermelho no “Colour”, diferente das coloridas letras presentes no logo e que aqui pareceu talvez uma referência direta ao vasto vermelho derramado do povo preto ao longo da história do mundo.
Rapidamente, em meio à fumaça do gelo seco, surgiam então
Will Calhoun
(bateria),
Doug Wimbish
(baixo),
Vernon Reid
(guitarra) e
Corey Glover
(vocal), conforme o público gritava em exaltação do lendário conjunto. Ao som de “Leave It Alone”, o que foi iniciado não viria a ser um show propriamente dito, mas uma verdadeira experiência sensorial e emotiva, magistralmente arranjada pela banda, no que mais aparentaria ser uma verdadeira “missa”.
A oposição à Marcha Imperial, como havia dito anteriormente, era justamente por conta disso: ritmo, emoção, paixão e muito, mas muito groove e funk que exalavam dos acordes, das vozes e das batidas de cada integrante, tornando cada música mais passional e magnética do que a outra. Já o efeito religioso, para além da obviedade do guiar da voz angelical de Corey, era o quanto que a cada momento você poderia se prender especificamente a um instrumento, hipnotizado pela forma com a qual este era conduzido, sem que este foco apagasse também o restante, tornando o momento transcendental.
O repertório foi um equilíbrio entre os três primeiros álbuns da banda, Vivid (1988), Time’s Up (1990) e Stain (1993), com a adição de algumas belas homenagens e releituras em covers ao longo da noite, como foi o caso de “Memories Can’t Wait”, do Talking Heads, ou o medley em homenagem ao Sugarhill Gang com “White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message”, como uma forma de destaque também a Wimbish por sua passagem pela banda.
Falando nele, talvez o membro que mais se movimentou em torno do palco, com seus óculos escuros e roupas pretas brilhantes, o músico ora e outra se projetava ao precipício do palco, hasteando o baixo por sob as cabeças dos fãs, conforme usava a técnica de slapping, que é simplesmente um deleite de ouvir e impossível não lembrar também de nomes como
Chaene da Gama (Black Pantera), que já disse sobre a forte influência da banda para si. Em outros momentos, distorções no baixo o deixavam quase como uma segunda guitarra, entregando um peso e profundidade mágicos, principalmente em relação às passagens mais leves da guitarra nesses momentos.
Guitarra que na presença invocada de Vernon era de arrepiar. Com seus tênis amarelos radioativos sendo um ótimo representante da “radioatividade” emanada pela energia que o mesmo proferia, entre riffs grudentos como em “Middle Man”, “Ignorance Is Bliss”, “Bi”, “Pride” e bem, tantas outras que poderia facilmente simplesmente listar o setlist todo, seus solos também eram de outro mundo. Um mundo apaixonante, quente e com um molejo que era visível na cara de satisfação do músico, quase como se tivesse sido tomado por um “egoísmo” onde nada existia além de si próprio, seus acordes e distorções.
Outro monstro se dava na forma de Calhoun, não só por suas claras habilidades, dos momentos mais sutis às viradas rápidas e cheias de ritmo, mas até mesmo o setup da bateria em si, uma verdadeira montanha de bumbos e dos pratos mais diversos e diferentes que poderiam ser confundidos com peças de exposição de tão únicos. Apesar de praticamente não ser visto, Will definitivamente era ouvido, mas não de um jeito que se sobressaísse aos companheiros, mas talvez a coisa mais legal sobre si era a mescla entre a percussão clássica e os samples que dava um mar de opções e possibilidades para o músico se divertir entre batuques.
Falando em batuques, em especial seu solo de bateria, que não só foi de tirar o fôlego pela precisão e improviso com os samples, mas pela ancestralidade, respeito e referência ao tocar a bateria junto a um snippet de “Baianá”, do
Barbatuques, que foi sem sombra de dúvidas um dos momentos mais apoteóticos da noite, que quem não se emocionou não está vivo por dentro.
Momentos como esses tivemos de sobra, inclusive, onde muitos foram protagonizados por Corey, tanto em suas interpretações com cristalinos agudos a ritmos que incorporavam o mais puro soul, o frontman, com suas vestes quentes e típicas da matriz africana, engajava o público, encorajando-nos a cantar os refrões e sempre provocando uma reação emotiva na plateia. Mas talvez duas tenham sido as principais: a primeira, quando este percebeu uma placa na primeira fileira de uma aniversariante, fazendo com que o mesmo se sentasse em frente a ela e cantasse um “Parabéns para você”, seguido de uma descida até o público para um abraço em um momento de conexão genuína.
A segunda e igualmente importante, mais até, em um contexto atual e nacional, se deu na bela interpretação de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, que não só foi de tirar o fôlego, mas veio como uma homenagem a Marielle Franco, pelo recente desfecho do caso com a condenação dos mandantes do crime, fazendo do momento um de extrema resistência.
O elemento político, se diga de passagem, é algo presente desde sempre nas músicas do
Living Colour, onde a própria existência da banda, por si só, é um ato político. Fato este que somente alguém realmente cego para não celebrar a homenagem do momento de resolução frente a mais um dos episódios sangrentos (e diários) do nosso país no combate aos crimes raciais.
Chega a ser curioso o quanto a música tem uma capacidade expressiva e de conversação que expande a forma de se relacionar. Por um lado, o show como um todo não foi daqueles em que os músicos conversam tanto com o público, contando causos ou a todo segundo tentando interagir com a plateia, mas essa conexão e “conversa” aconteceu de forma subjetiva e sublimada através de cada música, acorde e batida.
Houve, sim, momentos de interação como os descritos, mas tudo isso era mais um reflexo da sintonia em mesma frequência do que qualquer outra coisa. Reflexo este, inclusive, sentido na última música, “Solace of You”, em que o refrão “Back to the beginning”, encorajado por Glover a ser puxado pela plateia, tomou tanto tempo mesmo após o término da música, que Corey optou por não tocar o cover do The Clash, “Should I Stay or Should I Go”, que vinha sendo tocado nos outros setlists, justamente por quem sabe que o ápice dali seria insuperável.
Ah, mas e o “Cult of Personality”, você poderia me perguntar. Bom, é aquilo. A música mais icônica da banda certamente aconteceu, certamente foi celebrada e cantada a todos os pulmões, mas, diferentemente de muitos shows que se vê por aí, a talvez “música mais forte” do setlist pareceu algo “pequeno” em comparação à totalidade que o Living Colour recaiu sobre São Paulo. Mas certamente, o que “foi visto, olhando para os olhos” da banda, como diria a música, foi uma celebração de quem ainda tem muita lenha para queimar e de quem ainda espera voltar em um futuro não tão distante.
Setlist Living Colour
- Leave It Alone
- Middle Man
- Memories Can’t Wait (cover de Talking Heads)
- Go Away
- Ignorance Is Bliss
- Funny Vibe
- Bi
- Hallelujah (cover de Leonard Cohen)
- Open Letter (to a Landlord)
- Drum Solo / Baianá (cover de Barbatuques – snippet)
- This Is the Life
- Pride
- White Lines (Don’t Don’t Do It) / Apache / The Message
- Glamour Boys
- Love Rears Its Ugly Head
- Type
- Time’s Up
- Cult of Personality
- Solace of You

