The Character e Gallery: a opinião dos membros sobre discos que moldaram sua sonoridade
Ambos álbuns serão celebrados em um show especial em São Paulo neste domingo (18/1)
Crédito foto: Michele Aldeghi
Um dos pilares do death metal de Gotemburgo, o Dark Tranquillity se tornou conhecido não só por seu som, que à época representava o aperfeiçoamento de uma cena que viria a influenciar boa parte do metal moderno, mas também por sua habilidade de evoluir e mudar sem perder sua essência. Em suas mais de 3 décadas de estrada, os suecos mostraram uma evolução inegável, com os novos trabalhos (como “Endtime Signals” de 2024) esbanjando uma maturidade incrível; uma banda que realmente encontrou sua sonoridade. Mesmo assim, os primeiros trabalhos envelheceram como vinho, soando atuais até hoje.
Este é o caso de “The Gallery”, segundo projeto de estúdio do grupo. Em uma entrevista a uma webzine grega que leva o nome do álbum, o vocalista Mikael Stanne deixou claro seu apreço:
“Eu tinha 19 anos na época… era claro que não sabíamos o que estávamos fazendo. Se tornou algo ótimo, até hoje em dia. Ao meu ver, abriu a banda para um público verdadeiro.”
No mesmo bate-papo, ele também comentou sobre o processo de gravação do disco, “um dos meus álbuns favoritos”: “a maneira em que o Fredrik (Nordstrom, produtor) trabalha é tão fácil que se torna divertido gravar… mesmo assim, lembro de estar nervoso, ter que acertar os takes e ter certeza que tudo estava absolutamente perfeito. […] Aprendemos muito.”
Quando lançaram “Character”, a banda já estava em outra fase, estabelecida dentro de seu nicho, não havia mais a mesma necessidade de provação, mas mesmo assim, o discurso do frontman a respeito do LP de 10 anos antes seguiu positivo. Em uma entrevista de 2005 concedida ao site Apeshit, ele disse:
“Tenho um carinho especial por todos os álbuns. Vejo-os como cápsulas do tempo, gravações exatas do que estávamos fazendo na época. Não faz sentido para mim pensar: ‘todos os álbuns antigos são uma porcaria... o novo é o melhor’. Você faz o melhor que pode naquele momento. Principalmente algumas das coisas mais antigas, eu simplesmente não consigo lembrar a maneira na qual realmente tocávamos. Não consigo entrar naquele estado de espírito. O que estávamos pensando? O que se passava em nossas cabeças quando compusemos isso? Eu simplesmente não entendo…”
Enquanto 10 anos antes eles não sabiam o que estavam fazendo, o processo do álbum de 2005 foi algo mais calculado, de acordo com o próprio:
“Depois que compusemos umas 2 ou 3 músicas, percebemos: ‘OK, essa é a direção que iremos seguir.’ […] Já havíamos feito o ‘disco com as sobras’ (‘Exposures’). Seria fácil fazer mais um “Damage Done”, simplificá-lo, abraçar mais público, mas não queríamos fazer aquilo. Decidimos fazer um álbum que ia durar, não algo que você escuta só por uma semana.” Visto que estão viajando para o outro lado do mundo, 20 anos depois, justamente para celebrar este álbum, com certeza tiveram êxito na missão.
Outro elemento que torna “Character” tão importante é sua atemporalidade, não só no som, mas também, infelizmente, nas letras. Enquanto ele não chega a ser conceitual, tem um tema central que une todas as músicas, um reflexo dos sentimentos e frustrações do vocalista:
“quando comecei a compor, queria que fosse sobre padrões comportamentais diferentes, o porquê as pessoas fazem as coisas, em primeiro lugar. […] Fazem muitas coisas estúpidas pelos motivos errados. Acreditam que estão fazendo o certo, mas não estão.”
Ele admite que os projetos mais antigos (como “The Gallery”) têm faixas profundamente pessoais e reveladoras de seu estado, mas também não tira o cunho pessoal de “Character”:
“Acho que tudo se resume às minhas inseguranças, às minhas falhas e a tudo aquilo que detesto em mim. Trata-se de ter um senso de direção, algo essencial para todos... uma base sólida para fundamentar suas ações, suas opiniões e tudo mais, em vez de simplesmente se deixar levar pelo que os outros dizem, pelas tendências do momento ou pelo que os amigos estão fazendo.”
Com isso em mente, está claro que o show deste domingo promete ser muito mais do que uma apresentação, mas sim um presente. Para os fãs antigos, será a oportunidade perfeita de revisitar músicas nostálgicas, que talvez não teriam espaço nos repertórios das turnês dos lançamentos recentes. Mesmo assim, o espetáculo não se resume ao saudosismo, pois para os fãs novos, é a oportunidade perfeita de entender exatamente o motivo do Dark Tranquillity ser tão importante.
Esse retorno a "The Gallery" e "Character" ganha ainda mais peso quando observado à luz do momento histórico atual. A obra do Dark Tranquillity sempre funcionou como um retrato sensível de um mundo em desgaste — emocional, social e civilizacional. Sem recorrer a discursos diretos ou slogans políticos, a banda construiu uma lírica focada no sofrimento humano, na crise da consciência e na decadência das estruturas que deveriam proteger a vida.
Em um cenário global marcado por guerras, deslocamentos forçados, radicalização política e normalização da violência, essas letras soam menos como metáforas abstratas e mais como diagnósticos. Canções que nasceram há 20 ou 30 anos dialogam diretamente com um presente em que a verdade é manipulada, a empatia é corroída e o colapso social passa a ser tratado como algo administrável.
Celebrar ambas as obras em 2026 não é apenas revisitar dois marcos musicais. É reconhecer que o Dark Tranquillity construiu, ao longo do tempo, uma obra que continua relevante porque fala de pessoas — suas inseguranças, frustrações, falhas e tentativas de encontrar sentido em meio ao caos. No palco do Carioca Club, esse repertório não será apenas executado, mas recontextualizado diante de um mundo que, infelizmente, segue refletindo as mesmas inquietações que a banda transformou em música décadas atrás.
A formação atual é Peter Lyse Karmark (guitarra), Joakim Strandberg Nilsson (bateria), Mikael Stanne (vocal), Christian Jansson (baixo), Johan Reinholdz (guitarra) e Martin Brändström (eletrônicos).
SERVIÇO
Dark Tranquillity em São Paulo
Data: Domingo, 18 de Janeiro de 2026
Abertura da casa: 18h30 | Showtime: 20h
Local: Carioca Club Pinheiros (Rua Cardeal Arcoverde, 2899 - Pinheiros - São Paulo, SP)
Venda online: clubedoingresso.com/evento/darktranquillity-sp
Valores: Solidário (doe 1 Kg de alimento não perecível) e Meia Entrada em 1º lote: R$ 220,00 | Inteira em 1º lote: R$ 440,00 | Camarote em 1º lote: R$ 280,00
Classificação etária: +16
Mais informações
https://www.darktranquillity.com/

