It’s All Red lança álbum homônimo e transforma histórias de violência e pertencimento em metalcore

Primeiro disco de inéditas em dez anos aborda feminicídio, conflitos históricos e imigração, além de contar com participação de Humberto Gessinger

Crédito foto: Josias Salvaterra

via Agência 1a1


Após dez anos sem lançar um álbum de inéditas, o It’s All Red, uma das bandas pioneiras do metalcore no Brasil, retorna com um trabalho homônimo que coloca o peso do gênero a serviço de investigar os diversos ângulos do pertencimento: a necessidade de encontrar um lugar no mundo, de pertencer-se, construir vínculos, reconhecer-se em pessoas, espaços, ideias e experiências, ao mesmo tempo em que se lida com as tensões entre identidade individual e coletiva.


Entre os destaques está “Femme”, faixa inspirada em um caso real de feminicídio que atingiu a família do vocalista Tom Zynski e teve repercussão na imprensa gaúcha no ano passado.


O disco também apresenta a inédita “Pertencimento, Pt. 1”, que integra uma composição dividida em duas partes e conta com a participação de Humberto Gessinger. A segunda parte, “Pertencimento, Pt. 2”, já havia sido apresentada ao público no início deste ano como single.


Não devemos aceitar a dor do mundo com resignação; este disco é a nossa recusa ao silêncio. É o nosso primeiro álbum em dez anos e nasce da urgência de colocar tudo pra fora. As parcerias com Humberto Gessinger amarram a ideia do disco sobre ‘pertencer’, agora com a inédita ‘Pertencimento, Pt. 1’. Tenho um orgulho imenso do nosso quarteto e dos colaboradores que criaram o trabalho mais rico da banda em timbres e texturas.


— Tom Zynski, vocalista do It’s All Red

“Femme”: quando o luto vira denúncia

Entre as faixas mais contundentes do álbum está “Femme”, composição que nasceu de uma experiência de violência real. A música foi inspirada no feminicídio de uma prima segunda do vocalista Tom Zynski, ocorrido em 2025, no Rio Grande do Sul. 


O caso marcou profundamente a família e, na música, a experiência é transformada em denúncia, homenagem e elaboração artística do luto. Mas “Femme” também se conecta diretamente ao conceito de pertencimento do qual trata o álbum.


Aqui, a ideia aparece pelo seu avesso: o pertencimento entendido como posse, como a tentativa de transformar uma mulher em propriedade de alguém, ou como a impossibilidade de pertencer plenamente quando sua existência autônoma não é tolerada. A violência extrema retratada na faixa expõe essa distorção, quando o desejo de possuir o outro se sobrepõe ao reconhecimento de sua liberdade e individualidade.


‘Femme’ é a letra mais pesada do disco. Ela vem de uma dor visceral, inspirada no feminicídio que impactou a minha e tantas outras famílias este ano, em um país e um estado em alerta e sem ver o fim. Uma das respostas possíveis é a indignação transformada em arte”, afirma Tom Zynski.


A composição também ganhou um clipe dirigido por Bruno Carvalho, que partiu da narrativa visual presente na própria letra para construir uma atmosfera claustrofóbica de tensão e abuso.


‘Femme’ é uma música que já possui um texto muito visual e narrativo, com frases que sozinhas já te transportam pra dentro de um universo claustrofóbico de tensão e abusos. Nosso trabalho foi escolher a frase certa para, a partir dela, revelar esse universo. Por mais que o verso seja citado apenas uma vez durante a música, a ideia de ‘reversal of love in front of her son’ veio como uma base, um norte narrativo para que equipe e elenco construíssem a estética”, explica Carvalho. “É uma música forte, com muita personalidade e com mensagem potente. Para nós, diretores, fica a gratidão pela liberdade que a banda nos deu para ajudar a construir essa história”, completa.


Histórias de lugares distantes, histórias de pertencimento

O conceito de pertencimento atravessa o álbum por diferentes caminhos. Em vez de tratar o tema apenas a partir das experiências pessoais da banda, o It’s All Red amplia essa busca para personagens, povos e territórios marcados por deslocamentos, conflitos e transformações históricas. As letras percorrem paisagens, guerras e reinos da Ásia e outros cenários distantes, criando histórias originais que refletem sobre identidade, violência, perda e o desejo de encontrar um lugar ao qual pertencer.


“Macau”, a primeira música autoral da história da banda em português, é um exemplo dessa abordagem. A faixa parte das Guerras do Ópio, ocorridas na China no século XIX, para construir uma narrativa sobre um território atravessado por disputas de poder, interesses estrangeiros e profundas transformações sociais. Dentro do universo do álbum, o episódio histórico funciona como uma maneira de olhar para as relações de pertencimento a partir do conflito: quem domina um território, quem é deslocado por ele, quem chega de fora e quem tem o direito de chamar determinado lugar de seu.



Essa perspectiva se conecta diretamente à “Pertencimento”, composição dividida em duas partes que aborda a experiência de imigrantes que chegaram ao Sul do Brasil em busca de um lugar para construir suas vidas. Assim, histórias situadas em épocas e territórios distintos passam a compartilhar uma mesma questão: o que significa deixar um lugar, chegar a outro e tentar construir uma identidade a partir da experiência de buscar — ou ter negado — um lugar de pertencimento.


A própria papoula, figura escolhida para a capa do disco, reforça essa conexão. A flor está historicamente relacionada ao ópio que esteve no centro dos conflitos abordados em “Macau”, mas também carrega significados que ultrapassam esse contexto, podendo representar beleza e amor, assim como sofrimento, morte, perda e memória.


A ambivalência da papoula acaba funcionando como uma síntese do álbum: beleza e violência, contemplação e peso, experiências individuais e acontecimentos históricos coexistem em um trabalho que procura diferentes formas de falar sobre pertencimento, inclusive quando esse pertencimento é imposto, negado, disputado ou transformado em posse.

Gessinger e o metal

A colaboração com Humberto Gessinger nas duas parte da faixa "Pertencimento" aproxima universos que os rótulos costumam separar. O músico cita Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden e Motörhead entre suas principais referências ligadas à música mais pesada e afirma que, aos 60 anos de idade, as classificações de gênero já não dão conta da diversidade da música para ele.


Durante as gravações, Gessinger e It´s All Red trocaram referências sobre diferentes gerações do metal, incluindo conversas sobre Opeth e Ghost. Para Rafael Siqueira, ouvir a voz do músico sobre uma base pesada foi emocionante. “Dá vontade de fazer um disco inteiro”, conta.


Humberto Gessinger comenta sobre a experiência de cantar em um disco de heavy metal:


Tento não deixar que rótulos atrapalhem meu caminho. Desde o início, o pessoal do rock me achava muito MPB e a MPB me achava muito rock. Gaúchos me achavam uma banda nacional e o Brasil me achava uma banda gaúcha. Conheci o It 's All Red através do Rafa (guitarrista) e achei legal, ponto final".


Rafael trabalhou nas gravações de “Sem Piada Nem Textão” e acompanhou a pré-produção do disco “Revendo o que Nunca Foi Visto”, ambos trabalhos de Gessinger, daí o elo. 


Um retorno às raízes, mas sem limites

Musicalmente, o It’s All Red retoma com orgulho sua identidade como uma das pioneiras do metalcore brasileiro, mas sem se limitar às fronteiras do gênero.


Somos Metalcore. Fomos um dos pioneiros do gênero no Brasil, mesmo tendo influência de outros estilos em alguns trabalhos. Este álbum resgata com orgulho nossa identidade, mas agora expandido com pitadas marcantes de Prog Metal e Death Metal e ainda além, como uma banda que nasceu do Metalcore e se permite até hoje agregar qualquer outro subgênero do Pop, Rock e Metal ao seu som”, explica Rafael Siqueira.


Entre as referências citadas pela banda estão Parkway Drive, Gojira, In Flames, Killswitch Engage, Sevendust e Trivium, além de nomes como Alice In Chains, Bring Me The Horizon, Death, Faith No More, Metallica, Nevermore, Nine Inch Nails, Sepultura e Tool.


Depois de uma década, o retorno do It’s All Red  ao mundo dos álbuns não se limita a reafirmar o lugar que a banda ocupa na história do metalcore brasileiro. O novo álbum parte dessa identidade para explorar diferentes texturas, referências e narrativas, conectando experiências íntimas a episódios históricos e questões universais.


Este trabalho homônimo não é contemplação calma; é o nosso disco mais denso e verdadeiro.


— Tom Zynski, vocalista


Sobre o It's All Red

Formada em Porto Alegre (RS), em 2007, o It's All Red é uma das bandas pioneiras do metalcore brasileiro. Ao longo de sua trajetória, construiu uma identidade marcada pelo peso, pela melodia e pela liberdade para incorporar diferentes vertentes do metal, mantendo-se em constante transformação.


A banda tem três álbuns de estúdio — Vicious Words From The Heart (2007), The Natural Process Of... (2010) e Lead By The Blind (2015) — além de uma série de EPs e singles que ampliaram sua sonoridade e experimentações.


Entre os momentos mais emblemáticos de sua trajetória está a abertura do show do Megadeth em Porto Alegre, em 2016. O It’s All Red não chegou ao palco por uma simples indicação da produção: foi escolhida pelo próprio Dave Mustaine entre as bandas consideradas para aquela noite, recebendo o aval pessoal do líder do Megadeth. À época, Rafael Siqueira destacou o significado da escolha, enquanto a imprensa registrou que a banda havia sido selecionada pelo próprio Mustaine. (Whiplash). O It’s All Red também dividiu palcos com nomes como Cavalera Conspiracy, Paul Di’Anno, Ratos de Porão e Raimundos, consolidando sua presença na cena pesada brasileira.


A formação atual reúne Tom Zynski (vocais), Rafael Siqueira (guitarra e baixo), Daniel Nodari (guitarra) e Renato Siqueira (bateria).


Acompanhe It's All Red em itsallred.com


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