Frank Turner (SP)

Em sua terra, Frank luta pela proteção de espaços independentes. Sem o dinheiro suficiente para trazer a banda toda para essa turnê, ele afirma o desejo de retornar ao país num futuro próximo. Se o crowdsurf e a roda punk foram possíveis só com um violão, imagina a energia do público com o time completo?


Texto por: Nat Malini - @eitaqfome

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Powerline Music & Books, Sellout Tours e Tedesco Mídia

 

Quatro acordes rápidos, volume alto e vestimenta são apenas alguns fios do emaranhado que significa ser punk. E esse show foi a prova viva de que a essência da revolta está nos valores traduzidos em letras que o combo violão+microfone+carisma.


Na sexta-feira (30/01), três artistas com apenas um violão e muita atitude, fizeram o público da Fabrique Club entender que se revoltar contra o sistema é uma experiência compartilhada em qualquer lado do oceano. Em uma noite que poderia ser de calmaria para os desavisados, o folk punk trouxe gritos à plenos pulmões e até um mosh ou outro. Não precisou de muito barulho pra rolar até stage dive.


A estadunidense Kateria Kiranos, conhecida como Katacombs, comandou a abertura com suas botas country e uma voz afinadíssima. Mesclando músicas em inglês e espanhol, a artista diz que está só começando. Com ritmos mais calmos, revelou que tocava todo seu set em piano e para facilitar as coisas aprendeu violão sozinha até conseguir fazer essa transição de instrumentos. Katerina compartilhou algo que não é novidade na indústria: teve parte de sua arte inteira alterada por um homem e então decidiu tomar as rédeas da própria carreira. Levou três anos para escrever, produzir e tocar todos os instrumentos de seu primeiro EP “You Will Not”.

katacombs em SP

Pequenos perrengues técnicos não impediram Dave Hause de começar seu show sem amplificador e microfone. Com o cárdio e potência vocal em dia, começou assim seu show que fez a plateia logo engatar na cantoria para que a casa toda pudesse ouvir. Com anos de estrada no mundo da música, além do projeto solo, Dave também é vocalista da banda The Mermaids. Entre conversas animadas com o público, compartilha que se apaixonou pelo Brasil ouvindo Sepultura quando era jovem. E assim como nosso orgulho nacional, Dave, com a energia lá em cima, trouxe os espectadores para ainda mais perto. Principalmente ao confessar que lia as mensagens que recebe dos fãs na DM das redes sociais. O artista falou sobre a importância de direcionarmos nossa raiva a quem merece e não deixou de citar grandes nomes opressores de sua realidade estadunidense.


Política e cultura permearam os discursos dos três artistas. Prezando pela pluralidade do povo e como a diversidade é importantíssima para a arte em geral. Reforçando que frequentar espaços como esses, ouvir e apoiar os nossos é um dos maiores atos de resistência. Afinal, resistência não é apenas não sucumbir às imposições moralistas e conservadoras, mas também manter viva nossa cultura e valores antifascistas.

dave hause em SP

Como um recado, Frank Turner sobe ao palco com uma camiseta com a frase “Make America Latina Again”, presente que ganhou de um fã brasileiro. Talvez quem o vê de calça jeans e tênis de marca não imagina que o antifascismo está tão presente em suas letras. O cantor montou um repertório que perpassa todos os momentos de sua carreira. Tamanho o carinho aos fãs incluiu uma música que há tempos não tocava, e que nem havia se preparado para tal, mas como foi pedida, resolveu atender.


E por falar em tempos atrás, o cantor lamentou a demora para sua estreia no país. Sua vinda estava programada para 2020, mas devido à pandemia, o cancelamento e foco na preservação na saúde adiaram seu show até então. Mas valeu a pena a espera, e sua redenção (mesmo por algo nem perto de ser sua culpa) foi memorável. Também pediu desculpas por ter esquecido de trazer sua harmônica para essa turnê, mas honestamente? Não mudou em nada seu carisma, conexão com o público e presença de palco.


Palco esse que até serviu de stagedive para quando tocou Bob, cover de NOFX. Essa sendo apenas uma de várias bandas de referência que conheceu quando criança em um acampamento, que uma garota de lá lhe abriu os olhos para o punk rock, e por trocas de cartas ampliou muito seu conhecimento sobre o gênero. E também serviu de inspiração para uma música. Curioso fato que 28 anos depois, ela o ouviu na rádio e entrou em contato… “Essa música é sobre mim?”.

frank turner em SP

Com em torno de dez álbuns na carreira, o britânico além de vencer prêmios no mundo da música, teve seu nome presente no Guinness World Records pelo seu feitio de 15 shows em 15 cidades diferentes em 24 horas pelo Reino Unido em 2024.


Outro fato de sua preparação para essa turnê, é de que estava aprendendo espanhol para falar na maioria dos países da América Latina. Mesmo devendo proficiência no português, arriscou algumas frases e até cantou parte de uma de suas músicas do set em nosso idioma. Pode não ter sido perfeito, mas com certeza foi certeiro no coração dos fãs com esse gesto de carinho.


Em sua terra, Frank luta pela proteção de espaços independentes. Sem o dinheiro suficiente para trazer a banda toda para essa turnê, ele afirma o desejo de retornar ao país num futuro próximo. Se o crowdsurf e a roda punk foram possíveis só com um violão, imagina a energia do público com o time completo?

frank turner em SP

Um dos recados e lembretes que carrega consigo em suas apresentações é que mesmo que nos desanimemos com a crueldade das pessoas ao redor do mundo, devemos nos manter fortes e enfrentarmos com a força da nossa comunidade. E isso traduz o que o público de show mostrou ser: uma comunidade com punhos para o alto. Mesmo com a chuva de janeiro. Resistência é união.


O show de São Paulo foi possível pela realização da Powerline Music & Books em parceria com a Sellout Tours. Com apoio da assessoria Tedesco Mídia.

frank turner em SP

Setlist Katacombs


  1. Blue Beard
  2. Fruta y mar
  3. Weeping Willow
  4. Old Fashioned
  5. Pin Pin
  6. You Will Not

Galeria - Katacombs


Setlist Dave Hause


  1. Look Alive
  2. Hazard Lights
  3. Cellmates
  4. C’mon Kid
  5. Saboteurs
  6. Jane (The Loved Ones cover)
  7. Dirty Fucker
  8. Damn Personal

Galeria Dave Hause


Setlist Frank Turner


  1. If Ever I Stray
  2. Girl From the Record Shop
  3. Recovery
  4. No Thank You for the Music
  5. The Road
  6. Long Live the Queen
  7. Letters
  8. 1933
  9. The Way I Tend to Be
  10. The Ballad of Me and My Friends
  11. Be More Kind
  12. I Knew Prufrock Before He Got Famous
  13. Don’t Worry
  14. Bob (NOFX cover)
  15. Polaroid Picture
  16. Do One
  17. Four Simple Words
  18. Photosynthesis
  19. Get Better
  20. I Still Believe

Galeria Frank Turner