D.R.I. e Ratos de Porão (SP)

"A mistura de gêneros só poderia se traduzir visualmente na mistura de públicos. Em um mar de camisetas pretas, coletes jeans com spikes ficavam lado a lado de bonés pretos de aba reta. Alguns poucos moicanos somavam aos detalhes que destacam, mas todos com o mesmo intuito: conferir clássicos num domingo à tarde."


Texto por: Nat Malini - @eitaqfome

Fotos por: Lara Zugaib (Roadie Crew)


Agradecimentos: Powerline Music & Books, Maraty e Tedesco Mídia.

Agradecimentos especiais a Roadie Crew pela concessão das imagens.

 

Que o rock teve vários marcos ao longo da sua história, todos sabemos. A importância de cada subgênero, cada banda inovadora, cada misturinha gostosa mostra um mundo de possibilidades quando falamos de arte e criatividade. Com a música não poderia ser diferente e um desses marcos nasce com o Crossover Trash, que intersecta o hardcore com o trash metal nos anos 80. E dois dos grandes nomes por trás disso, estiveram juntos no palco do CineJoia em São Paulo no domingo 22 de março. Os texanos do D.R.I. (Dirty Rotten Imbeciles) e nossos conterrâneos Ratos de Porão.


A mistura de gêneros só poderia se traduzir visualmente na mistura de públicos. Em um mar de camisetas pretas, coletes jeans com spikes ficavam lado a lado de bonés pretos de aba reta. Alguns poucos moicanos somavam aos detalhes que destacam, mas todos com o mesmo intuito: conferir clássicos num domingo à tarde.


Sortudos que somos, acabamos sendo agraciados por bandas de abertura. Começando com IMFLAWED, banda recifense que mesmo nova de berço (criada em 2017) está alinhadíssima com a dinâmica dos palcos. O trio formado atualmente por Tuca Santos, Martin Pent e Marcos Luz, reforça a importância da presença do público desde o começo dos eventos, afinal é a presença que alimenta a resistência na cena principalmente independente. O vocalista continuou lembrando ao público o que é resistência quando convidados aos fóbicos se retirarem pela porta (homofóbicos, racistas, xenofóbicos, etc.) e também a respeitarem as minas na roda, já que as convidam para se divertirem num espaço que, mais uma vez, era predominantemente masculino. Com um setlist enxuto basicamente composto por seu álbum de 2023 “The Dark Ages”, a banda trouxe forte sua referência em bandas como Sepultura que inclusive apresentaram um digníssimo cover de “Slave New World”, deixando um gostinho de quero mais. O metal nordestino foi muito bem representado.

IMFLAWED em SP

A bandeira do MST que nunca deixou o palco, foi um bem-vindo ponto de cor que recebia cada vez mais fãs no espaço. Com filas para os merchs e copos de cerveja para o alto, até o espaço do fumódromo teve de ser ampliado. De ouvidos atentos muitas caravanas se fizeram presentes e algumas delas surpreendidas ao descobrirem que ainda conseguiriam prestigiar outra banda de abertura.


Questions faz sua caminhada pela cena do hardcore desde a virada dos anos 2000. Apesar de também ter um tempo enxuto no palco, a banda energizou uma roda ainda maior que se unia no coro que xingava o ex-presidente, que também foi tema do último álbum “Todxs”. Falando nele, o vocalista Edu Andrade destaca a faixa “Oliva” em que se lembra da pandemia e das consequências desnecessárias para nós, por conta de um governo fascistóide da época. Ainda com Pablo Menna, Eduardo Sasaki e Helio Suzuki na formação, a banda conta com álbuns com letras em português e inglês, nesta apresentação com ênfase em nossa língua nativa que infelizmente foi curta demais mediante tanto talento e representatividade da cena que têm a compartilhar. Tanto que também fomos lembrados de que somos sangue do mesmo sangue e como uma boa banda de hardcore com valores alinhados, reforça o tipo de público que não é bem-vindo neste espaço. Aos aplausos e com uma roda ainda maior, Questions fez-se uma ótima adição a esse lineup de respeito.

Questions em SP

Falando em respeito, chegava-se à vez de uma das bandas nacionais mais respeitadas do nosso meio. Ratos de Porão já deixou a casa lotada, além de estampar a maioria das camisetas dos presentes desse público “velho de guerra”. Mas o clima de tensão pairava antes da banda iniciar, primeiro com a notícia da ausência de Jão (um dos fundadores da banda) por conta de uma fratura no dedo e segundo por João Gordo no mesmo dia de manhã ter sido detido no aeroporto de BH por portar 5 g de maconha/haxixe. Mas a banda estava pontualmente no palco, João Gordo liberado e na guitarra, Maurício Nogueira fez uma excelente substituição. E como quem é do corre há 40 anos, a banda subiu no palco com sorriso no rosto, energia lá em cima e uma bandeira de Marighella para fazer par com a do MST. O público se amassou na roda desde a abertura do show com “Alerta Antifascista”, batendo cabeça com “Homem Inimigo do Homem” e “Expresso da Escravidão” e celebrando a clássica “Crucificados pelo Sistema”. Foi um setlist lotado de hits. As mensagens são claras e as letras continuam atuais e necessárias. Confesso que senti um grande quentinho no coração ao ouvir Ratos como a terceira banda da noite pedir respeito pelas mulheres e chamá-las por direito a curtir em paz tudo o que estava rolando. É mais do que válido destacar a presença de palco de Juninho, baixista da banda que se entrega de corpo às músicas, deixando a energia de muita molecada no chinelo.

Ratos de Porão  em SP

Com a finalização do RDP, o Cinejoia já estava mais do que lotado e as pessoas ansiosas para assistirem os pais do Crossover em cena. E ansiosos se mantiveram com o atraso de quase meia hora para D.R.I. subir ao palco. O atraso, infelizmente, continuou durante a apresentação, já que houve várias pausas para ajustes técnicos que se mostraram cansativos aparentemente até para a própria banda. O show contou com 31 músicas que pareciam, além da velocidade esperada, ser tocadas com pressa com quase nenhum espaço para interação com o público. Com apenas metade de seus fundadores originais (Kurt & Spike), quem é fã pode aproveitar uma grande sequência de músicas clássicas. Afinal, o último single da banda foi em 2016 e antes disso, só em 1995!


Outra diferença em comparação com a energia levantada anteriormente foi que com quase nula presença de palco, palavras de protesto e antifascismo não foram proferidas como todas as bandas anteriores. Até uma bandeira da Palestina foi levantada por um fã, o público xingou de novo Bolsonaro… mas D.R.I. seguiu calado. Seja por questões culturais, dinâmicas específicas da banda… a sensação é de que os próprios músicos não estavam 100% ali. Diferente dos seus fãs que ainda assim deram a alma nas rodas, nos refrões e nos moshs improvisados.

D.R.I. em SP

Em um momento de pausa técnica, os texanos falam de como o separatismo dos subgêneros musicais não fazia sentido já que todos basicamente gostavam da mesma coisa; e que assim, sentiam orgulho de unir as tribos com a criação do Crossover entre Hardcore e Trash Metal.


A baixa energia e os percalços não desanimaram os fãs, que curtiram até o final. O importante era estar presente para ver um clássico e ouvir ao vivo músicas que marcaram.

D.R.I. em sp

Setlist Ratos de Porão


  1. Alerta antifascista
  2. Morte ao rei
  3. Igreja Universal
  4. Máquina militar
  5. Sofrer
  6. Homem inimigo do homem
  7. Amazônia nunca mais
  8. Farsa nacionalista
  9. Colisão
  10. Expresso da escravidão
  11. Descanse em paz
  12. Paranoia nuclear
  13. Não me importo
  14. Beber até morrer
  15. Crucificados pelo sistema
  16. Pobreza
  17. Caos
  18. Conflito violento
  19. AIDS, pop, repressão
ratos de porão em SP

Setlist D.R.I.


  1. Who Am I
  2. Beneath the Wheel
  3. Couch Slouch
  4. Thrashard
  5. The Application
  6. Argument Then War
  7. Nursing Home Blues
  8. Dry Heaves
  9. Dead in a Ditch
  10. Suit and Tie Guy
  11. The Five Year Plan
  12. Mad Man
  13. I Don't Need Society
  14. Syringes in the Sandbox


Setlist parcial, retirada do Setlist.fm.


As setlist tanto do Inflawed, quanto Question ainda estão pendentes.

D.R.I. em São Paulo