Cynic e Imperial Triumphant (SP)
Texto por: Heitor Lamana
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Caveira Velha
Há pouco menos de dois meses, o público paulista foi surpreendido com um anúncio de peso. No dia 16 de janeiro, a Burning House seria agraciada com o retorno do Cynic — banda de metal progressivo formada por ex-integrantes do Death — e com a inesperada estreia dos vanguardistas do Imperial Triumphant, conhecidos por sua dissonante mistura de jazz com black metal. Os fãs compraram a ideia de imediato e compareceram aos montes, enfrentando chuva do lado de fora e calor dentro do ambiente, em um incontestável atestado de devoção com os artistas.
A rua estava obstruída; a fila ameaçava virar a esquina e disputar espaço com os comércios da região. Quem conhece o local sabe muito bem que não é qualquer aglomerado de pessoas que consegue fazer isso — sinal de que mesmo com o anúncio relâmpago a casa iria lotar. A noite começava fria e com garoas moderadas, que iam e voltavam incessantemente, mas que não pareciam impactar os presentes. Embora estivesse programada para às 19h, a abertura das portas atrasou de forma considerável, mas felizmente sem prejudicar o início das apresentações.
Por volta do horário previsto, as luzes se apagaram e três figuras mascaradas silenciosamente saíram do camarim em direção ao palco. Ovacionados durante seu pequeno trajeto enquanto
‘Goldstar’ tocava ao fundo, subiram
Zachary Ezrin (guitarra e vocal),
Steve Blanco (baixo e backing vocal) e
Kenny Grohowski (bateria), o trio responsável pelo
Imperial Triumphant.
Em suas melodias, a banda busca representar os sons da cidade de Nova York — em toda sua exuberância e, ao mesmo tempo, decrepitude — através da fusão de elementos do metal extremo com o jazz (cuja história por sinal está intimamente ligada com a metrópole). Longe da
‘concrete jungle where dreams are made of’ de
Alicia Keys ou da
‘city that doesn’t sleep’ onde
Sinatra glamourosamente queria acordar, a New York do
Imperial Triumphant é a da sujeira dos metrôs e esgotos, do formigueiro humano e da poluição de sentidos da Times Square — o que se reflete na identidade visual do grupo, muito inspirado no esplendor do
art-déco. Rompendo com qualquer tradição estética convencional, suas músicas são incômodas, dissonantes e imprevisíveis, tornando-os uma daquelas bandas que as pessoas amam ou simplesmente não conseguem digerir.
Iniciaram sua distopia com ‘Lexington Delirium’, terceira faixa do último disco do trio, que conta com a participação especial de Tomas Haake, baterista do Meshuggah. Com um arregaço de som, potente e exoticamente acentuado, os músicos vestiam suas famosas máscaras douradas (ainda mais deslumbrantes presencialmente). Seguiram com ‘Gomorrah Nouveaux’ — também do último álbum e uma de minhas favoritas —, ritmicamente caótica com destaque para o baixo de Steve, perfeitamente audível durante todo o show. Além disso, a movimentação e energia do baixista agitava e estimulava a audiência, que retribuía empolgadamente soltando até mesmo um grito de ‘Banda do caralho!’.
Cadenciada e nefasta,
‘Devs est Machina’ puxou com todas as forças as raízes do trio no metal extremo, chamando a atenção a sutileza com que
Grohowski arrasava cada parte de sua bateria. Logo após, em
‘Transmission to Mercury’, foi a vez do vocalista abrir e sacudir uma garrafa de espumante sobre a plateia, despejando o restante da bebida na boca de alguns sortudos colados no palco (infelizmente, fiquei de fora dessa e tive de aturar a tremenda vontade de beber que o cheiro me causou).
Em
‘Chernobyl Blues’, um trompete com fogo saindo da campana surgiu nas mãos de
Steve, que deu um pulinho no camarim em busca do instrumento e aproveitou para usá-lo como palheta do baixo — enfeitado e acesso com pequenas lâmpadas de luz amarela. Clássico incontestável dos três (digno de um filme de suspense ou horror) a fáustica faixa, cantada em russo, também teve como destaque os guturais de
Zachary
— viscerais e agonizantes com intensidade.
Com um codificador de voz, o vocalista nos convidou para adentrar no ‘Hotel Sphinx’, música inquieta contando com a presença de sintetizadores e a guitarra como protagonista. ‘Industry of Mysery’, a penúltima e dissonante canção do setlist, encaminhou a apresentação para seu término em tons trovejantes e psicodélicos. Tirada do álbum Vile Luxury de 2018, o carro chefe dos nova-iorquinos ‘Swarming Opulence’ foi responsável por encerrar o show com uma aura de histeria, formando uma roda que combinou perfeitamente com o teor caótico e urbano tanto da plateia quanto do que estava sendo apresentado.
Animados em sua tardia estreia no Brasil, os músicos se despediram modestamente, repetindo sua entrada ao saírem em silêncio — desta vez com o dobro de aplausos e um sentimento de que uma só apresentação não foi suficiente.
Enquanto aguardávamos a próxima atração (cujos membros montavam seu próprio equipamento no palco), a casa seguia cada vez mais cheia. Se no show do Imperial Triumphant muitos já sentiam os efeitos do calor e o suor escorrendo pelo corpo, com a chegada de um novo batalhão de gente a situação iria ficar muito pior.
Era a segunda vez do
Cynic tocando na cidade de São Paulo, a primeira havia sido ainda em 2023 no
SP Metal Fest, quando celebravam 30 anos de seu primeiro álbum
‘Focus’ ao lado de nomes como
Hatefulmurder,
Moonspell e
Beyond Creation. A formação ali presente era composta por
Mike Gilbert (guitarra),
Brandon Giffin (baixo),
Derek Rydquist (vocal gutural) e o jovem
Jacob Wehn (bateria), acompanhados do fundador
Paul Masvidal (guitarra e vocal).
Os fãs estavam enlouquecidos com a presença de
Paul no palco. Muitos dos que estavam ali eram apreciadores não só de seu trabalho com o
Cynic, mas também de sua participação no lendário
Death — a julgar pela quantidade de camisetas da banda no local. Junto com os finados
Sean Reinert (baterista e também fundador do
Cynic) e
Chuck Schuldiner, gravou o álbum
‘Human’ em 1991, passagem que marcou profundamente a carreira do artista.
Abriram o setlist com
‘Sentiment’, sem o vocalista
Derek (que só seria requisitado na próxima canção). Em
‘Integral Birth’, o contraste entre o belo vocal do gigante e a voz codificada de
Masvidal envolveu a plateia — que acompanhava cada linha da letra a plenos pulmões. Embora a presença de palco e a qualidade técnica do cantor fossem insuperáveis, fiquei com a impressão de que o mesmo estava deslocado dos colegas, entrando e saindo das canções apenas conforme o repertório. Continuaram com a serena e célebre
‘Veil of Maya’, seguida de
‘Evolutionary Sleeper’ e
‘The Unknown Guest’.
A temperatura dentro da casa estava completamente insuportável, o que fez com que alguns optassem por acompanhar o evento do lado de fora, no espaço reservado para fumantes. Dias depois, a Burning House iria soltar um pronunciamento informando que um dos ares-condicionados apresentava avarias e se prontificou não só a corrigir o problema, mas também, se necessário, adquirir novas unidades. Mesmo com essas condições, a grande maioria permaneceu dentro do recinto e acompanhou fervorosamente cada uma das faixas sem hesitar, como se nada tivesse acontecido.
Confesso que não sou um grande adepto do metal progressivo e de suas tecnicalidades, mas foi impossível não reconhecer a capacidade dos músicos ao vivo e o nível de satisfação da audiência ao meu redor. Cabe ressaltar principalmente o trabalho do baterista
Jacob Wehn que, com apenas 22 anos, acompanha com facilidade o nível dos seus companheiros — bem mais experientes do que ele. A naturalidade com que
Masvidal, guru da banda, toca sua guitarra enquanto entrega nos vocais também é digna de menção honrosa, justificando o prestígio do grupo no meio progressivo.
Após algumas músicas, os integrantes se ausentaram, deixando Masvidal sozinho com o público para cantar ‘Wheels Within Wheels’, som do EP Re-Traced, de 2010. Ainda só, dedicou um emocionante cover de ‘Last Flowers’ do Radiohead ao irmão, antes do retorno dos parceiros.
Complexa, cheia de nuances e relevos, tocaram o enfeitiçante instrumental de
‘Textures’, uma das 7 faixas de
Focus
incluídas no roteiro. Abordando como temas a transcendência e a lei do eterno retorno,
‘I’m But a Wave To...’ e
‘Uroboric Forms’ vieram logo em seguida. No mesmo tom místico das anteriores,
‘How Could I’ encerrou a noite falando sobre iluminação espiritual, evolução humana e autorrealização, com dois belíssimos solos dos guitarristas de
Mike Gilbert e
Masvidal, este que chegou a se ajoelhar no chão.
A aguardada estreia do Imperial Triumphant e o retorno do
Cynic
foram um sucesso absoluto! Entre o caos dissonante de um e a introspecção do outro, o público de São Paulo pôde começar o ano matando a vontade de um som de qualidade, regado a muita técnica e precisão. Nem mesmo as condições adversas do clima, dentro e fora da casa, impediram os fãs de apreciar com gosto o empenho afiado dos artistas. Se o ano continuar nesse nível de curadoria e entrega, com certeza teremos mais experiências memoráveis como esta!
Setlist Imperial Triumphant
- Lexington Delirium
- Gomorrah Nouveaux
- Devs est Machina
- Transmission to Mercury
- Chernobyl Blues
- Hotel Sphinx
- Industry of Misery
- Swarming Opulence
Galeria - Imperial Triumphant
Setlist Cynic
- Sentiment
- Integral Birth
- Veil of Maya
- Evolutionary Sleeper
- The Unknown Guest
- Celestial Voyage
- Adam’s Murmur
- The Space for This
- Wheels Within Wheels (apenas Paul Masvidal)
- Last Flowers (cover de Radiohead, apenas Paul Masvidal)
- Textures
- I’m but a Wave to…
- Uroboric Forms
- How Could I


















