Cult of Fire transforma luto em jornada espiritual no álbum “The One Who Is Made of Smoke”
Banda tcheca explora morte, renovação e simbolismo hindu antes de show em São Paulo
Créditos foto: Devllin LIN LI
No Ocidente, a morte é vista como algo inerentemente negativo na vida humana. Embora tenha-se a noção de que ela é inevitável, em funerais, é costume vestir-se de preto e sustentar um semblante sério a todo instante – como se qualquer sinal de outro sentimento além de tristeza fosse um desrespeito ao falecido. Em outras culturas, o entendimento é outro; embora sempre haja luto e dor pela separação física de almas que trilharam juntas, muitas culturas entendem a morte como um processo natural e até mesmo positivo da existência, trazendo renovação e aprendizado quando ela nos atinge. Em 2025, os tchecos do Cult of Fire – banda de black metal que trabalha com elementos sonoros e temáticos do hinduísmo e budismo indianos – lançaram seu 5º álbum de estúdio que trabalha esse tema, sob uma ótica bem diferente da qual estamos acostumados.
Intitulado ‘The One Who is Made of Smoke’, o disco conta a história de uma viúva que, ao perder seu companheiro de vida, se vê ostracizada pela sociedade em que vive e entra em uma jornada espiritual de dor, cura e ressignificação através da deusa Dhumavati – deusa-viúva que dá nome ao trabalho e representa a fumaça que sobe dos campos de cremação e a parte da consciência divina que só se revela quando tudo é perdido ou destruído.
Ao longo de seus aproximadamente 40 minutos de duração, o álbum nos faz passar por todo um espectro de emoções, positivas e negativas, conforme nossa personagem lida com o luto, suas questões e encontra paz e sabedoria em
Dhumavati. Presente também na capa do trabalho, a deusa é a sétima das
Dasha Mahavidyas (literalmente ‘As Dez Grandes Sabedorias’) – grupo de deusas do hinduísmo tântrico que representam, cada uma, formas de se atingir a realidade universal – não à toa as 7 faixas que compõem o trabalho.
Representada como uma viúva (que na sociedade hindu são marginalizadas e abandonadas por suas famílias ao serem vistas como mau presságio) sentada em uma carruagem sem guia e junta de corvos ou serpentes (associados à morte), Dhumavati é símbolo de destruição, dor e dos aspectos mais sombrios da existência do qual não podemos escapar. Embora temida, é vista como protetora dos aflitos, removendo suas dores – sejam elas físicas ou mentais – e frustrações. Livre das amarras sociais (dada sua condição de viúva), sua grande lição reside no fato de que o divino está em todas as coisas, até mesmo nas ruins. Sem os grilhões do ego e do mundo material, todas as ilusões do mundo se dissipam em sua fumaça, dando espaço ao real entendimento sobre o universo. Da mesma forma como queima, o fogo também renova e purifica e a vida é feita de dores que nos machucam, mas também nos transformam, trazendo aprendizado.
Assim, começamos o CD com a perda que serve de estopim para a série de acontecimentos que ocorrem na narrativa. Em meio a prantos e gritos de desespero de mulheres e crianças, ‘Loss’ serve como introdução ao tema em sua melodia profundamente melancólica conduzida pela guitarra - desaguando na próxima canção. Em ‘Mourning’, o ritmo se acelera e o som ganha corpo dentro de um turbilhão de emoções, nos apresentando o vazio e o sentimento de incerteza causados pela morte quando esta nos lembra de sua presença. Aqui, a bateria e o vocal finalmente aparecem, com destaque para a primeira – frenética e constante como uma taquicardia, juntando-se às guitarras. Após uma breve pausa, um grito visceral e agoniante reverbera frustração e angústia. Facilmente a faixa mais brutal de todo o álbum, ‘Anger’ alterna entre momentos de intensidade e fúria com outros mais cadenciados e ritualísticos, usando tudo que o metal extremo tem para oferecer mais para o final da música – totalmente incontrolável e colérica.
Separando as duas partes do trabalho, a tempestade chega ao fim quando ouvimos o som de corvos e cantos limpos rodeados por uma atmosfera mística, construída por tambores e sitares. De repente, esse ambiente é desfeito por uma voz obscura invocando o nome de Dhumavati. Longe de ser um mau sinal, essa parte do refrão se transforma em um sinal catártico, retratando a ação da deusa em purgar todas as dores e temores da protagonista; a raiva dá espaço ao silêncio e reflexão, encontro com o divino e o início de uma nova história - servindo como interlúdio para o disco.
A partir daqui se toma um novo rumo. Sem mais gritos e tristeza, sussurros de serenidade cicatrizam as feridas e a melodia torna-se positiva em ‘Blessing’ - com um riff esperançoso. A deusa – ou mesmo o aprendizado proporcionado pela mesma – acalenta e cura as aflições da alma. Seguindo o mesmo tom otimista, os mantras iniciais de ‘Joy’ servem de anúncio para o que está por vir. O uso de trêmulos aqui pelas guitarras transmite a euforia da superação e o entusiasmo com o futuro. Colhido o aprendizado, o horizonte está repleto de novas possibilidades e propósitos.
Por fim, um riff tenso e apocalíptico inicia
‘There Is More To Lose’, onde as melodias somem e o caos ressurge na violência desenfreada da percussão. Após a aceitação e a cicatrização das feridas, existe o entendimento de que tudo está fadado a acabar – o que não é negativo para aqueles que entenderam a mensagem. Beirando a dissonância, a última canção desacelera, ainda tensa, e encerra nossa jornada – cumprida sua missão.
‘The One Who Is Made Of Smoke’ pode ser alvo de críticas pelos puristas por ser melódico demais e deixar o metal extremo apenas para as partes que lhe convém. Porém, com 7 músicas profundamente marcantes e complexas, o disco trabalha bem sua profundidade conceitual, expressando de forma excelente todo um leque de emoções distintas, indo da tristeza à felicidade sem maiores problemas. As guitarras agem como bússola emocional para os demais instrumentos e a bateria cumpre seu papel de peso - mas também traz comoção quando pedida. Catártico e intenso, o 5º álbum de estúdio do Cult of Fire é sem dúvidas coeso e coerente dentro de sua proposta, nos ensinando uma forma diferente de enxergar os ciclos da vida.
A banda se apresenta no dia 20 de maio em São Paulo, no palco da
Burning House. Produção da
Caveira Velha em parceria com a
Gerunda Produções, os ingressos estão à venda pelo site da
101tickets, com valores a partir de R$200 reais.
SERVIÇO – CULT OF FIRE
Data: 20 de maio de 2026 (quarta-feira)
Local: Burning House
Endereço: Avenida Santa Marina, 247 – Água Branca.
Horário: 19:00
Classificação etária: 18 anos
Vendas: https://101tickets.com.br/events/details/Cult-of-Fire-em-Sao-Paulo-20
Realização: Caveira Velha e Gerunda Produções, em parceria com a Talent Nation.

