Alesana (SP)

"Abrindo com “Curse of the Virgin Canvas”, assim como aquela pessoa que sem querer fura o cano e simplesmente não consegue mais conter a vazão de água, a sensação era de que o espaço se inundava a cada segundo, entre os gritos, moshes e a vibração de um público totalmente em sincronia com a banda".

Texto por: Rato de Show

Fotos por: Thammy Sartori (@tsartoriphotos)


Agradecimentos: Áldeia Produções, Sycamore Concerts e Tedesco Mídia

 

O que é que Edgar Allan Poe, emo e Magic: The Gathering têm em comum? Pois é, parece uma daquelas piadas prontas que você ouviria do seu tio no churrasco de domingo, mas a bem da verdade é que existe algo que sintetiza estes três elementos em uma primeira olhada, tão opostos.


Falo, é claro, do Alesana, banda americana de emo/post-hardcore de Baltimore, referência global do gênero e que desde 2004 angaria fãs ao redor do globo, inclusive pelas terras do verde e amarelo. A banda, inclusive, esteve por aqui ainda em 2024 no que para muitos foi um show catártico rolando no Carioca Club, e realmente o deve ter sido. Afinal, a banda retornou já neste último sábado, no mesmo local, com a mesma intensidade, porém com uma proposta diferente: comemorar junto aos fãs os 15 anos de “The Emptiness”, quarto disco da banda e um dos mais conceituais possíveis, bebendo da fonte do último poema de Edgar Allan Poe, “Annabel Lee”, para criar todo um misticismo e conflitos da psique que conversam com a violência, os sentimentos e as doenças da mente humana.


A noite contou ainda com a abertura de uma das forças do metal moderno atual brasileiro, os paulistas do Axty, com seu metalcore maldoso e pronto para causar barulho dentro do recinto. Com produção pela Áldeia Produções em uma parceria com a Sycamor Concerts, a noite viria a se provar como mais um ótimo capítulo na história da banda em nosso solo.

AXTY  em SP

A força da nova geração

Poucas bandas tiveram uma ascensão tão interessante quanto o Axty nos últimos anos. Nascida ainda em 2021, a banda chegou com uma proposta moderna, mesclando elementos do metalcore, deathcore e djent. Navegando em um dos subgêneros mais em alta entre a juventude e, consequentemente, um dos mais desafiadores para se conseguir destaque e visibilidade global pela competitividade, o grupo vem chamando atenção. Curiosamente, o fato de a banda ter assinado com a Napalm Records em setembro do ano passado é prova suficiente do quão bem e altos são os patamares que vem alcançando, assim como de sua grande legião de fãs.


Legião esta que estava muito bem presente ao longo do ato de abertura da banda. Era nítido o conhecimento por parte do público, uma vez que muitos ali se colocavam a cantar a plenos pulmões conforme a banda passava rapidamente por sua discografia, com destaque para seu último álbum, Hannya (2024), seguido de Unbreakable (2023).


A sonoridade moderna conduzida por Jonathas Peschiera na guitarra, Gabriel Vacari na bateria, Felipe Hervoso nos vocais e com a baixista de turnê Beatriz Parisi estava simplesmente impecável, indo do momento mais emocional e intenso ao breakdown mais pesado.

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Músicas como “dismay”, “Flowers and Butterflies Lullaby” e “fragile” marcaram o show conforme o público ficava em um misto entre aqueles que acompanhavam a banda na cantoria e aqueles que faziam caras e bocas, majoritariamente de surpresa, com a potência vocal do nosso "Will Ramos" brasileiro, Felipe. É realmente importante reforçar o quanto, de versos cortantes, ele migrava para o mais grave e cavernoso gutural, como poucos que se veem por aí.


Ainda que rápida, a passagem do Axty certamente não passou despercebida ou fraca, deixando uma boa marca e fazendo jus ao nome que estes vêm construindo para si próprios nos últimos anos.

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Entre intensidade, emoção e a loucura

Quando as luzes caíram anunciando a chegada dos headliners, um Carioca Club completamente abarrotado ia aos gritos, com uma “fome” que um desavisado jamais diria que faz tão pouco tempo desde a última apresentação da banda. Ovacionados, entrava a tríade de guitarristas Jake Campbell, Patrick Thompson e Shawn Mike, juntamente ao baixista Shane Crump e o baterista de turnê Joey DiBiase. Fechando o sexteto, o inconfundível e carismático Dennis Lee vinha na sequência, deixando rapidamente claro sobre o que aquela noite se tratava: “Annabel Lee” e The Emptiness.


Abrindo com “Curse of the Virgin Canvas”, assim como aquela pessoa que sem querer fura o cano e simplesmente não consegue mais conter a vazão de água, a sensação era de que o espaço se inundava a cada segundo, entre os gritos, moshes e a vibração de um público totalmente em sincronia com a banda.


O equilíbrio perfeito entre a voz harmoniosa de Shawn e o caos de Dennis era química pura. Enquanto o primeiro elevava e trazia até uma sensação etérea, à medida que sua voz limpa entrava na mesma frequência do coro do público, a intensidade e passionalidade dos guturais e chiados de Dennis pareciam servir como descarrego, impulsionando o liquidificador humano que acontecia no centro da pista e que foram poucos os momentos que mostrou sinais de desacelerar.

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Quando pensamos em discos de bandas, sempre vêm à mente aquelas três ou quatro músicas consideradas as “principais”, normalmente lançadas como singles, e as intermediárias para o lado B. Poucas são as bandas que conseguem a proeza de lançar discos que da primeira à última faixa são exaltados e apreciados pela sua comunidade. Ao que pareceu, The Emptiness é um desses casos, pois ao longo de seus pouco mais de 50 minutos a vibração e o acompanhar do público eram os mesmos, fosse em “The Artist” ou “Thespian”, fosse em “Heavy Hangs the Albatross” ou a própria “Annabel”, com seus mais de sete minutos de duração.



Em meio a todo o caos organizado produzido nesta intersecção entre o emo e o famoso escritor, o protagonismo não ficava apenas com os vocalistas, mas com todos os integrantes que pareciam, ao seu modo, extrair algo do público. Com uma movimentação de palco frenética, Patrick, Shane e Jake iam e vinham a todo momento entre batidas de cabeça, rodopios e sempre buscando alguém para um contato visual e o cantar junto das músicas. Joey, neste sentido, foi um destaque à parte também, pela fúria cadenciada durante as músicas que, apesar de mais “escondido”, fosse pelo próprio instrumento ou pela movimentação de palco, se fazia ouvir de forma marcante, mas ao mesmo tempo sem se sobressair em relação aos companheiros.

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Mas não tinha jeito. A figura central do momento era Dennis. Com sua jaqueta recém-adquirida de um fã contendo os principais elementos do músico, fosse seu rosto estampado de uma forma bem caricata, ou fosse o logo do Magic: The Gathering, card game do qual ele é viciado, o vocalista inclusive acabou sendo presenteado no meio do show com uma carta customizada por um fã que arrancou uma surpresa genuína ao ver a si próprio, sua esposa e filha estampados na carta.


Fosse em momentos conversando com o público sobre seu amor pela América Latina e o Brasil, sobre quem estava ali pela primeira vez, ou até mesmo só jogando um papo fora na maior informalidade com seus colegas de banda enquanto os roadies ajustavam um pequeno problema técnico, Lee tinha uma atmosfera sobre si carismática daquelas que parecem fazer as pessoas gravitarem ao seu redor. Algo raro, especialmente quando o que desponta dessa gravitação são os berros intensos e passionais do mesmo.

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O bis ainda veio com uma música de outras eras da banda, com “This Is Usually the Part When People Scream”, “Beyond the Sacred Glass” e a primeira música da banda, “Apology”, para encerrar uma das noites que, mesmo sendo apenas o início do ano, já dá para dizer que muito provavelmente será uma das mais emocionantes da agenda do post-hardcore.


Fosse pelo público aplaudindo, mosheando, ou o pessoal do camarote batendo em sincronia na lateral do pilar do mezanino, raios, rolou até um pedido de casamento no meio do rolê, stage diving e uma wall of death fenomenal. Independentemente do momento, ousando aqui ser redundante, parece que o que realmente marcou o show não foram “apenas” esses momentos, mas o todo, onde, assim como em um álbum conceitual, é somente na união entre as partes, em seu começo, meio e fim, que o sentido e o impacto realmente aparecem.

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Mais de 20 anos após o seu surgimento, o Alesana provou que os emos cresceram junto com a banda e a subcultura nunca antes esteve tão viva. Talvez pouco a pouco se tornando o novo equivalente às bandas de pai solteiro, como Creed e Nickelback. Afinal, o tempo será sempre ingrato, mas muito além do que muitos julgaram no passado como uma simples “moda passageira”.

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Setlist Alesana


  1. Curse of the Virgin Canvas
  2. The Artist
  3. A Lunatic's Lament
  4. The Murderer
  5. Hymn for the Shameless
  6. The Thespian
  7. Heavy Hangs the Albatross
  8. The Lover
  9. In Her Tomb by the Sounding Sea
  10. To Be Scared by an Owl
  11. Annabel
  12. This Is Usually the Part Where People Scream
  13. Beyond the Sacred Glass
  14. Apology



* Não conseguimos confirmar o setlist completo do Axty. Caso conseguirmos, iremos atualizar esta matéria.