A curiosa relação de Bobby Liebling com a religião
Vocalista do Pentagram explicou em entrevistas como entrou para a Igreja Satânica ainda jovem e por que decidiu abandoná-la
Crédito foto: Divulgação
O Pentagram volta a São Paulo no dia 13 de agosto para um dos últimos compromissos da Farewell Tour – Last Latin American Run 2026, série de apresentações anunciada como a despedida definitiva da banda dos palcos latino-americanos. A passagem pelo Brasil marca mais um capítulo da longa história do grupo liderado por Bobby Liebling, vocalista cuja trajetória sempre despertou tanta atenção quanto a própria música do Pentagram.
Ao longo de mais de cinco décadas, Liebling acumulou histórias marcadas por excessos, problemas com dependência química, sucessivos recomeços e uma imagem constantemente associada ao ocultismo. Boa parte dessa percepção foi construída pelo uso frequente de crucifixos invertidos e outros símbolos ligados ao satanismo, algo que o cantor decidiu esclarecer em entrevistas concedidas nos últimos anos.
Em conversa com o
Altars of Metal Podcast, o vocalista revelou que chegou a integrar a Igreja Satânica aos 16 anos, mas afirmou que abandonou rapidamente aquela experiência ao perceber que não compartilhava dos princípios defendidos pela religião.
Questionado sobre o crucifixo invertido que costuma usar no pescoço, mesmo afirmando não ser um admirador de black metal ou death metal, Liebling respondeu:
"Ok, vamos falar a real agora. Vou te contar a verdade nua e crua sobre isso. Quando comecei o Pentagram, eu estava envolvido com as artes das trevas... bruxaria, encantamentos e feitiços. E o satanismo como religião... eu achei que estava abraçando aquilo. Eu tinha uma Bíblia Satânica, uma pedra mágica e todas essas coisas. Quando eu tinha 16 anos, era membro da Igreja Satânica."
Segundo o cantor, aquela fase foi breve e fazia parte da curiosidade típica da adolescência.
"Foi apenas uma fase de garoto curioso tentando descobrir diferentes caminhos. Descobri muito rápido que o satanismo como religião defendia várias coisas das quais eu discordava completamente. Aquilo me deu um medo enorme."
Liebling também fez questão de esclarecer que os símbolos que ainda utiliza não possuem qualquer significado religioso.
"Quando uso essas coisas, são apenas joias. Acho que têm uma aparência legal. Não estou tentando representar algo maligno, lançar feitiços ou qualquer coisa do tipo. É só estética."
Na sequência da conversa, o coapresentador Nikolas Fragiadakis perguntou se, depois dessa experiência, ele havia se tornado uma pessoa religiosa. A resposta foi direta:
"Não, de jeito nenhum. Eu fui criado como judeu. Hoje, de forma geral, pode-se dizer que me aproximei do cristianismo. Minha esposa foi criada como católica, mas existem muitos estigmas ligados às religiões organizadas. Há muitas regras, muitas proibições... e isso nunca fez sentido para mim."
Uma relação pessoal com a fé
As declarações ajudam a compreender uma transformação que Bobby Liebling já havia comentado anos antes. Em entrevista concedida à Vice em 2015, o vocalista afirmou que encontrou serenidade ao desenvolver uma relação pessoal com Deus, embora continue rejeitando instituições religiosas.
Na ocasião, contou que conversa com Deus diariamente e que essa espiritualidade passou a fazer parte de sua vida durante o processo de recuperação da dependência química, um problema que marcou grande parte de sua trajetória e quase encerrou definitivamente a história do Pentagram. Esse período acabou registrado no documentário Last Days Here, lançado em 2011, que acompanhou o músico desde um dos momentos mais difíceis de sua vida até sua retomada artística.
As diferentes entrevistas mostram que, embora a estética sombria continue fazendo parte da identidade visual construída pelo Pentagram desde os anos 1970, Liebling faz questão de separar essa imagem de suas convicções pessoais.
O legado de uma das bandas fundadoras do doom metal
Fundado em 1971 na região de Washington/Alexandria, o Pentagram ocupa um lugar singular na história do heavy metal. Enquanto o gênero ainda dava seus primeiros passos, Bobby Liebling e o baterista Geof O'Keefe já buscavam uma sonoridade mais pesada, lenta e sombria, que anos mais tarde ajudaria a definir as bases do doom metal.
Embora o primeiro álbum de estúdio só tenha sido lançado em 1985, depois de uma série de demos, mudanças de formação e da passagem pela encarnação conhecida como Death Row, a influência do Pentagram acabou reconhecida por gerações seguintes. Bandas como Candlemass, Trouble e Cathedral sempre apontaram o grupo norte-americano como uma de suas principais referências, enquanto a coletânea First Daze Here, lançada em 2001, apresentou o repertório setentista da banda a uma nova geração de fãs.
Depois de décadas marcadas por hiatos, oportunidades perdidas e problemas pessoais envolvendo Liebling, o Pentagram voltou a lançar um álbum de inéditas em 2025 com Lightning in a Bottle, trabalho que reafirmou a identidade da banda mais de cinquenta anos após sua formação.
Agora, essa trajetória se aproxima do fim. A Farewell Tour – Last Latin American Run 2026 marca a despedida definitiva do Pentagram dos palcos latino-americanos, oferecendo ao público brasileiro uma das últimas oportunidades de assistir ao vivo um dos grupos que ajudaram a moldar a história do doom metal.
SERVIÇO | PENTAGRAM EM SÃO PAULO
Data: 13 de agosto de 2026
Local: Fabrique Club
Endereço: rua Barra Funda, 1071 - Barra Funda, São Paulo/SP










